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Artur Garcia

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101 canções que marcaram Portugal #21: 'Porta Secreta', por Artur Garcia

Em 1967, o Festival da Canção foi ganho por Eduardo Nascimento. Nesse ano, Artur Garcia, uma das grandes vedetas em Portugal, levou a canção que o iria imortalizar, tendo porventura escolhido o ano errado para levar a concurso a sua ‘Porta Secreta’. Foi um ídolo do seu tempo. Esta é a 21ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Porta Secreta', Artur Garcia
(1967)

Em agosto de 1968, Salazar, o homem que liderara o país por décadas, moldando-lhe mentalidades, saía de cena. Era já um homem ao leme de um regime que se sentia só. O início dessa década arrancara com a guerra na África ultramarina e a palavra de ordem era ‘Para Angola, já, e em força!’. A guerra colonial veio pôr a nu as fragilidades de um país pequeno que teimava em governar em África 2 países demasiado grandes para sua proporção.

Como solução de recurso, tentava-se integrar gente da terra no Portugal uno e indivisível, como se negros, brancos e mestiços se sentassem nos mesmos palcos. Eduardo Nascimento era um negro grande, vindo da terra de Agostinho Neto e de Viriato da Cruz, com uma voz possante que fez as vezes de embaixador da miscelânea de raças que deveriam caber em Portugal. Ganhou nesse ano de 1967 com uma grande canção. E Artur Garcia, o rei da rádio, o príncipe do espetáculo, lá deixou fugir para ‘O vento mudou’ mais uma coroa – a mais importante, a que lhe faltava, a que nunca conseguiu obter e a que mais mágoa lhe ofereceu por nunca ter ganho.

Nesse ano de 1967, Artur Garcia levou a sua melhor canção de sempre, uma canção que o iria imortalizar, uma canção para ganhar. Era a 3.ª vez que ia ao Festival - ele que era um cantor de festivais, um dos da ‘Emissora Nacional’. Era um homem honesto - na vida, nas amizades e na sua arte, nas suas artes. Não se quedou nas cantigas. Abraçou teatro e outras luzes; Artur Garcia brilhou em todos os tipos de palcos onde houvesse holofotes – nessa década a quem aos artistas não poderia bastar um talento.

Garcia/Calvário, Madalena/Simone – a quadrilogia do que era feito o mundo da canção ligeira de então. A encher páginas da revista Plateia com qui pro quos alimentados por todos eles – eles que até estavam unidos por amizade e respeito quando o público não estava presente.

3 vezes e nada? Estava enguiçado, o Festival, para Artur Garcia. O seu rival de 15 anos ganhara na estreia, com as mãozinhas juntas a implorar a Deus – e Deus lá lhe fez a vontade. Simone ganharia duas vezes. Até Madalena Iglésias ganharia com uma cançãozinha alegre em 1966, logo no ano em que Artur Garcia não fora (quem sabe se não teria sido o ano de ‘Porta fechada’ e de Artur Garcia?).

Ainda lá regressaria em 69; nesse ano, Simone poderia ter ido sozinha com ‘a’ canção do festival que não teria feito diferença. E voltou lá em 74. Em 74? No ano de 'E depois de adeus'? Sim, senhor. E levou uma canção açucarada? Uma canção com uma letra ligeira – como parecia não saber fazer diferente? Poderia, sim, mas nesse ano parecia que as canções estavam fadadas para indiciar a grande mudança no regime do país.

Paulo de Carvalho parecia querer antecipar o fim da ditadura com ‘E depois do adeus’; Artur Garcia parecia dar vivas aos militares com ‘Dona e senhora da boina’. Ficou em último lugar e estava para bem breve o entardecer da carreira de um grande senhor da canção. Dali a dias, Salgueiro Maia entraria em Lisboa e Francisco Sousa Tavares enterraria em cima de um chaimite e microfone na mão o regime de Salazar/Caetano.

Garcia e Calvário haviam sido os representantes da canção ligeira nos anos 60, os reis da Emissora Nacional, os ídolos da gente morna e conformada. Da gente que acordava de terno negro e chapéu de feltro – mesmo não os vestindo. Estavam engajados apenas com o público mas, poucos dias após o golpe dos militares, os que trocaram o lado do punho alçado tiveram de arranjar responsáveis para a pouca vergonha que assolara o país durante quase 50 anos.

O moralismo que passou a ser o Portugal de 1974 arranjou em Artur Garcia um dos seus alvos e máximos responsáveis por aquela pouca vergonha com que ninguém nunca por nunca compactuara. E também em Calvário, e em Amália, e no fado todo, e em Pedro Moutinho, e em Henrique Mendes, e em Artur Agostinho, e em tantos outros que se limitaram a trabalhar para o público e que fizeram feliz o povo. Que se limitaram a ser bons nas suas artes. Em cantarem canções cândidas de amor. Em relatarem Eusébios, Hilários e Custódios Pintos. Em cavarem vozes noite dentro nas madrugadas. Em serem aprumados e não quererem opor-se ao regime com que o povo - os que ouviam canções doces, os que ouviam as madrugadas na emissora em onda média, os que ouviam os relatos do Benfica-Sporting-Porto-Belenenses, os que iam à revista para ver de perto Artur Garcia, os que compravam a Plateia para verem Artur Garcia expor a sua intimidade – aceitava humildemente.

Desde então, desde aquele festival RTP de 1974, Artur Garcia envelheceu com o seu público. Até hoje. É, no melhor sentido, um homem do seu tempo. Nunca deixou de usar lenço na lapela e blazer bem cortado. Nunca deixou de se barbear nem de deixar um cabelo castanho escuro fora do sítio. Nunca deixou de representar um Portugal aprumado, um Portugal honesto, um Portugal com maneiras. Artur Garcia foi um ídolo do seu tempo e continua a ser um ídolo dos do seu tempo. Hoje, já depois dos 80 anos, continua a cantar a arte que o fez maior. Continua a acompanhar com passinhos contidos a coreografia que o fez o príncipe das canções de um tempo que será sempre o seu.

Já se descobriu
Que não gostas de ninguém!
Se é uma porta secreta
Seja lá como for
Hei-de a abrir com a chave
Que é feita só de amor

Ouvir também: Amor (1965). Ficou em 2.º lugar no Festival RTP da Canção, no ano que Sol de Inverno, de Simone de Oliveira, venceu. Ambas as interpretações foram competentes. O que porventura acabou por ditar a decisão foi a diferença de complexidade em ambas as letras; e Simone, pois então.

  • 101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

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  • 101 canções que marcaram Portugal #18: 'Sôdade', por Cesária Évora

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  • 101 canções que marcaram Portugal #19: 'Marcha dos Desalinhados', pelos Delfins

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  • 101 canções que marcaram Portugal #20: 'Cavalos de Corrida', pelos UHF

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  • 101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

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  • 101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

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  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

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  • 101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

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  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

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    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

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  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

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    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

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    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

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    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

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    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

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    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

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    Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa