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Bob Gruen

Há 50 anos, John Lennon transformava-se num homem livre. E num herói relutante

“Os líderes são assassinados”, avisou o ex-Beatle em 1969, um ano antes da sua estreia formal a solo com “John Lennon/Plastic Ono Band”, o álbum que incluía o clássico hino 'Working Class Hero', um dos mais políticos momentos do seu cancioneiro. Meio século depois, contamos a história desse período fulcral da vida e da carreira de John Winston Lennon

Há exactamente 50 anos, o álbum de estreia a solo de Paul McCartney tinha acabado de ser lançado, gesto que John Lennon não encarou de ânimo leve: “Fui um palerma em não ter feito como o Paul”, confessou Lennon a Jann Wenner da Rolling Stone alguns meses depois. “Ele usou o fim dos Beatles para vender o seu disco”. E como é que Lennon e a sua cara-metade Yoko Ono lidaram com o facto de terem os melhores lugares para o espectáculo de dissolução da maior banda do mundo? Gritaram, pois claro. A plenos pulmões.

Depois de ter colocado distância entre si e os Beatles criando juntamente com Yoko uma série de trabalhos experimentais – os álbuns Unfinished Music No. 1: Two Virgins, Unfinished Music No. 2: Life With The Lions e Wedding Album (além do registo ao vivo Live Peace in Toronto 1969), todos lançados entre finais de 1968 e finais de 1969 -, John Lennon embarcou num período de limpeza emocional e recentramento pessoal muito próprio, aceitando fazer, ao lado de Yoko, alguns meses de terapia primal com o psicólogo americano Arthur Janov que defendia que só revisitando traumas de infância e a dor por eles causada é que se conseguia superar desequilíbrios e neuroses da vida adulta. E isso implicava muitos gritos. Só depois dessa limpeza extrema é que John Lennon começou a pensar no seu real álbum de estreia, que gravaria durante a segunda metade de 1970.

De certa maneira, John Winston Lennon, então à beira dos 30 anos, tinha percebido que não seria capaz de mudar o mundo com os Beatles. “Os Beatles podem continuar a apelar ao grande público”, desabafava ele ao Melody Maker em Dezembro de 1969, “desde que façam álbuns como Abbey Road, que têm cançõezinhas folk simpáticas como ‘Maxwell’s Silver Hammer’ para as avozinhas curtirem. E em relação a ‘Maxwell’s Little Hammer’ – bem, tudo o que eu posso dizer é que curto tanto o Engelbert Humperdinck como o John Cage e não ouço nenhum deles”.

Para mudar o mundo, fomentar a paz, Lennon acreditava mais no poder das canções do que na ideia de assumir as vestes de um qualquer líder político: “Como o Pete Seeger disse, não temos um líder, mas temos uma canção, ‘Give Peace a Chance’. Por isso eu recuso o papel de líder e irei sempre mostrar os meus genitais ou fazer algo que me impeça de ser Martin Luther King ou Ghandi ou que evite que eu seja assassinado. Porque é isso que acontece aos líderes. O nosso pior erro é ter líderes e pessoas em que possamos confiar ou a quem apontar o dedo”.

John Lennon, bem centrado após tão radical terapia com o Dr. Janov, não se esqueceu destas ideias quando começou a registar o material para a sua estreia formal a solo que aconteceria em Dezembro de 1970 com a edição do álbum John Lennon/Plastic Ono Band. Produzido pelo casal Lennon/Ono com a ajuda de Phil Spector e gravado entre o Abbey Road de Londres e o Ascot Sound de Berkshire, este álbum pretendia ser um registo directo, de arranjos espartanos, sem grandes floreados. “Sem merdas”, uma expressão de que John e Yoko se socorriam com alguma frequência em entrevistas para sublinharem a honestidade das suas ideias.

“A única música folk que eu conheço é sobre os mineiros lá de Newcastle”

Com a ajuda de Ringo Starr e do baixista Klaus Voorman (músico alemão que haveria de produzir o êxito mundial “Da Da Da” da banda Trio, prova das grandes voltas que o mundo dá...) e contribuições pontuais ao piano de Spector e de Billy Preston, Lennon gravaria um álbum altamente pessoal, controverso e carregado de declarações profundas, daquelas que se fazem, lá está, quando se quer mudar o mundo, sem arremedos poéticos. “Sem merdas”.

Em “God”, por exemplo, Lennon explicava-nos que Deus é uma espécie de régua para medirmos a nossa dor antes de enumerar tudo aquilo em que ele não acreditava, incluindo nessa lista, para lá de uma série de divindades de várias religiões, os nomes de Elvis, dos próprios Beatles e de Zimmerman, ou seja, de Bob Dylan. “Já não acredito em mitos e os Beatles eram um novo mito”, explicou Lennon ao director da Rolling Stone, Jann Wenner, em finais de 1970. “Não acredito nisso. O sonho acabou. E nem sequer estou a falar só dos Beatles, mas de toda aquela cena geracional. Acabou e temos que – eu tenho que, pessoalmente – focar-nos na realidade”.

Já sobre ter-se referido a Zimmerman em vez de Dylan, Lennon voltou a focar-se no aspecto da realidade por oposição à do mito: “Dylan é tanga. O nome dele é Zimmerman. Perecebes? Eu não acredito em Dylan e da mesma forma também não acredito em Tom Jones. O nome dele é Zimmerman. Eu não me chamo John Beatle. É John Lennon. Assim mesmo”.

Mas Wenner, como excelente conversador que era – e a longuíssima entrevista de inícios de Dezembro de 1970 teria mesmo que ser publicada em duas partes –, entendia que a provocação poderia render resultados e não teve pejo em referir-se a “Working Class Hero” como uma canção à Bob Dylan. “Qualquer pessoa que cante com uma guitarra e cante sobre algo pesado vai acabar a soar assim. Eu tendo a ser influenciado por essas pessoas, porque essa é a única música folk real que eu escuto. Nunca gostei da delicadinha Judy Collins ou Baez e essas coisas assim. Por isso a única música folk que eu conheço é acerca de mineiros lá de Newcastle, ou Dylan. Dessa forma seria influenciado, mas esse tema não me soa muito a Dylan. Acha que soa a Dylan?”, contrapôs Lennon, ao que o jornalista respondeu: “Só na parte instrumental”. “Essa”, concluiu Lennon, “é a única forma de tocar. Eu nunca o ouvi com muita atenção”.

E talvez Lennon tivesse mesmo razão: “Working Class Hero” não se faz de metáforas ou grandes imagens poéticas:

As soon as you're born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
'Til the pain is so big you feel nothing at all
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you're clever and they despise a fool
'Til you're so fucking crazy you can't follow their rules
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

When they've tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can't really function you're so full of fear
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you're so clever and classless and free
But you're still fucking peasants as far as I can see
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

There's room at the top they are telling you still
But first you must learn how to smile as you kill
If you want to be like the folks on the hill
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

If you want to be a hero, well, just follow me
If you want to be a hero, well, just follow me

Neste tema, o cantor aborda a luta de classes (e John Lennon tem perfeita consciência das suas origens humildes), parece falar dele mesmo quando canta “eles odeiam-te se fores esperto e desprezam os loucos” e depois parece dirigir-se a uma certa elite libertária com que poderá ter-se cruzado enquanto parte da realeza pop quando afirma “e pensas que és tão esperto e sem classe social e livre / mas continuas a foder camponeses tanto quanto consigo perceber”.

No livro There’s a Riot Going On (Canongate Books, 2007), Peter Doggett assina um ambicioso retrato de “revolucionários e estrelas rock” e constrói uma vívida crónica da “ascensão e queda da contracultura dos anos 60”, começando, logo nas primeiras páginas, por identificar John Lennon como um desses revolucionários. E é nessas páginas que Doggett recorda o encontro, na luxuosa casa que Lennon e Ono mantinham em Ascot, Berkshire, com Tariq Ali e Robin Blackburn, dois activistas do Grupo Marxista Internacional que editavam o jornal Red Mole e que costumavam importunar o ex-Beatle com pedidos de donativos para a sua causa. Dessa vez, o pretexto para o encontro foi uma entrevista, bem mais rigorosa e profunda do ponto de vista político do que era costume, mercê da séria militância da dupla marxista.

“Parece que as revoluções”, sugeriu Lennon, “acabam com um culto da personalidade. Mesmo os chineses parecem precisar de uma figura paternal. E penso que isso se passará em Cuba, também, com Che e Fidel. Na sua versão ocidental, o comunismo teria que criar uma imagem quase fantasiosa dos próprios trabalhadores”. O que levou Blackburn a concordar: “Essa é uma boa ideia: a classe trabalhadora torna-se o seu próprio herói”. Doggett explica depois, no entanto, que mesmo tendo Lennon cantado que “o herói da classe trabalhadora é algo que merece ser”, ele recusava-se ainda assim a idealizar o proletariado britânico: “Quando eu e a Yoko nos casámos, recebemos cartas terrivelmente racistas – vocês sabem, a alertar-me para a possibilidade dela me poder cortar a garganta”.

Lennon voltou ao tema de “Working Class Hero” quando questionado sobre a melhor forma de destruir o sistema capitalista em Inglaterra: “Penso que só se chegará lá tornando os trabalhadores conscientes da posição infeliz que ocupam, destruindo o sonho que os rodeia”. E Lennon, que se considerava bem desperto e consciente, parecia dizer que para tanto bastaria fazerem como ele: “Se queres ser um herói, bem, basta seguires-me”, conclui no verso com que resolve “Working Class Hero”. John parecia querer dizer que ao ter-se libertado dos Beatles tinha igualmente acordado do sonho capitalista.

Este tema teve vida para lá da versão de 1970 de John Lennon e foi gravada em 1979 por Marianne Faithfull no mega-clássico Broken English, numa era em que a “Dama de Ferro, Margaret Thatcher, tudo parecia fazer para esmagar a classe trabalhadora, lá está. A canção foi ainda regravada por David Bowie com os Tin Machine, 10 anos mais tarde, no primeiro álbum homónimo desse projecto mantido com Reeves Gabrels e ainda os irmãos Tony e Hunt Sales. Marilyn Manson inclui também uma versão do tema no single “Disposable Teens” lançado em 2000 e os Green Day repescaram este hino de luta em 2007 para assim darem um contributo para Instant Karma: The Amnesty International Campaign to Save Darfur. “Working Class Hero” tem conhecido praticamente uma nova versão a cada década que passa. Com tempos difíceis pela frente, provavelmente não passará muito tempo até que alguém volte a entoar aquelas palavras.

Porque, afinal de contas, “a working class hero is something to be”.