Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

UHF

Arquivo Gesco

101 canções que marcaram Portugal #20: 'Cavalos de Corrida', pelos UHF

No final dos anos 70, como reação a canções de intervenção e delicodoces, passou a construir-se uma nova música em Portugal. Nascidos na margem a sul da capital, os UHF foram alento para uma nova geração de músicos e de público, regulando até hoje o rock que se faz por cá. Esta é a 20ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Cavalos de Corrida', UHF
(1980)

A distância entre Lisboa e Almada era maior do que a que a ponte 25 de Abril fazia crer. Os UHF nasceram em Almada mas poderiam ter nascido bem mais longe, tanto daria, porque Almada, Barreiro, Sines ou o Porto não eram Lisboa – e haveria de ser fora de Lisboa que o rock português estava talhado para nascer.

No caso das cidades periféricas de Lisboa, quase todas elas industriais, as bandas rock eram um efeito da saturação pela música de Abril. As palavras de Abril pouco sentido faziam já à juventude que tinha ouvido José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Zeca Afonso, é certo, mas que sentia necessidade de descrever em modo canção aquilo que via no imediato.

Pouco lhes dizia já acenar a uma liberdade já conquistada. Rebeliar-se? Havia já quem o fizesse com três acordes em coletividades, sindicatos, fábricas. Havia já quem servisse de música de fundo a greves ou a mãos empunhadas a favor de direitos reclamados.

Os UHF nasceram numa outra margem do rio que atravessa a capital. Porque as margens de um rio ditam tendências. Nasceram numa cidade onde ainda cabiam torres de nove andares, pracetas e garagens. As tais garagens que haveriam de determinar a música que se fazia nesse Portugal sobressaltado – porque muitas bandas aí nasceram e se amplificaram.

Os UHF nasceram na ressaca da revolução, num tempo de difusão de drogas duras. Nasceram no punk, no pós-psicadelismo. Nasceram quando faltava a Portugal mais do que a canção ligeira e as baladas.

40 anos depois são história; eram, então, rock fresco, possante, com letras simples e toada frenética de guitarra, bateria, baixo e voz. Induziram uma simplicidade roca a jovens inquietos que estavam exangues de baladas revolucionárias ou açucaradas. Porque a juventude precisava de soltar os cabelos e deseletrificar o corpo impaciente. Precisava de rock. De Ramones e de Blondie. Precisava dos ‘Cavalos de Corrida’.

António Manuel Ribeiro é ainda hoje, como no final dos anos 70, mentor dos UHF e a sua matriz são as palavras. Estudou literatura clássica; é homem de boa rês intelectual. Pouco lhe dizia o inglês e sabia, já então, manejar a sua língua em proveito do rock. Bebera muita música, e fez, faz, os UHF – porque 40 anos passam devagar e é preciso haver consistência.

Nada foi um acaso. ‘Cavalos de Corrida’ poderia ter sido mais um dos one-hit-wonders que inundaram Portugal no início do rock português. ‘Cavalos de Corrida’ foi n.º 1 do top nacional mas os UHF, mas António Manuel Ribeiro, tinham muito mais que dizer – e por muito mais tempo. Lançaram um álbum de seguida com o nome original da sua banda, 'À Flor da Pele’, e provaram que nada havia sido um acaso.

Os primeiros royalties deram para um jantar. Os seguintes, os do primeiro álbum, dariam para dar entrada num apartamento no Feijó, no Laranjeiro ou nas Barrocas, mas os UHF aplicaram esse dinheiro em si, no grupo, em guitarras, amplificadores. Recusaram-se a partir daí a tocar mal, em condições desvalidas. Foram tomados como primas-donas pelos ares de vedetas.

Mas os UHF eram uma banda que já aí estava feita para durar. E para quem a passagem do tempo, sem o saberem então, se faz de esmero. Eram jovens precursores, como foram precursores (não muito) mais tarde do merchandising. Encomendaram T-shirts e outros adereços para que os seus fãs pudessem empunhar o cunho do rock que se fazia com a marca UHF.

A paternidade do rock português teria de ser atribuída a alguém – já agora que não a uma banda, até porque a maioria teve, teria, os dias contados. Os UHF duraram e os ‘Cavalos de corrida’ foram a génese dessa génese que foi o rock português – de um tempo fogaz mas febril.

António Manuel Ribeiro, o puto que lia avidamente a ‘Rock and Folk’ nos anos 70, que tentava misturar na sua essência os Doors, os Grateful Dead ou a new-wave que estava a nascer, assumiria aí a sua definição como músico profissional, como pioneiro da música que se faria a partir daí, daí a pouco.

Hoje, como há 40 anos, António Manuel Ribeiro, mais que o pai do rock em Portugal, continua a determinar a matriz do som elétrico, rouco e potente que molda gerações – feito também de palavras elegantes. Que farão para sempre sentido, então e agora, a quem partilha de agitação.

Agora é que eles picam os cavalos, violando todas as leis
Agora é que eles passam ao assalto e fazem-no por qualquer preço

Ouvir também: ‘Rua do Carmo’ (1981).
Uma descrição do trajeto pelo Chiado que António Manuel Ribeiro fazia a caminho do Liceu Machado de Castro, em Lisboa, ainda adolescente. Foi single de abertura do primeiro álbum dos UHF, "À Flor da Pele".

  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

    Notícias

    António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

    Notícias

    Carlos Paredes era um compositor complexo e um homem complexo. O bem que fez resume a essência de onde está a nossa génese. Poderia servir de compêndio para a diferença entre o virtuosismo e a emoção. A sua história cruza música popular e erudita. Malangatana. E Big Macs. Esta é a 15ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

    Notícias

    Milú foi figura primeira de filmes nos anos 40 e 50. Arriscou carreira no Brasil, regressou e esteve quase vinte anos sem filmar. José Fonseca e Costa recuperou-a já veterana, desconstruindo a imagem cândida que preservava de filmes estereotipados. ‘A Minha Casinha’, tal como ela, faz parte de um tempo ingénuo e puro, faz parte de Portugal, mas pouca parte faz já de nós. Esta é a 16ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #17: 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades', por José Mário Branco

    Notícias

    Aquilo por que José Mário Branco lutou foi a sua matriz de vida: a liberdade. Tomou-a a pulso e guardou décadas a tentar incutir em Portugal que a liberdade não é um dado adquirido e que há muitas formas de repressão. A história de José Mário Branco atravessa Humberto Delgado, Paris, Zeca Afonso e Luís de Camões. É feita de inquietação e serve de rumo para um Portugal atual. Esta é a 17ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #18: 'Sôdade', por Cesária Évora

    Notícias

    Cesária Évora é a embaixadora de Cabo Verde no mundo, 'Sôdade' a sua canção mais emblemática. A que define a essência dos cabo-verdianos: a angústia de ficar querendo partir e a angústia de partir querendo ficar. Esta é a 18ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #19: 'Marcha dos Desalinhados', pelos Delfins

    Notícias

    A história dos Delfins cruza-se com António Variações, Eduardo Nascimento e Miguel Esteves Cardoso. Tiveram engenho para criar canções servissem tanto quem quisesse revoltar-se como quem quisesse uma música de fundo para abraços apaixonados. Foram a banda do pós-PGA, de uma geração que não tinha por que revoltar-se, a maior banda portuguesa dos anos 90. Esta é a 19ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

    Notícias

    Portugal não compareceu na Eurovisão em 1970, mas Sérgio Borges, o vencedor, inscreveria com autoridade outra das canções desse festival. O seu Conjunto Académico faria de ‘Canção de Madrugar’ um sucesso. É uma canção que, cantada de mil formas, soará sempre nova. Esta é a 13ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

    Notícias

    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

    Notícias

    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

    Notícias

    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

    Notícias

    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

    Notícias

    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

    Notícias

    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa