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Bruce Springsteen, Joe Strummer, John Lennon, Neil Young

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16 heróis da classe operária, 16 canções essenciais para celebrar o Dia do Trabalhador

“É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar”. Neste 1 de Maio propomos uma visita a grandes operários do rock, trabalhadores que com as suas guitarras, baterias e microfones cantaram as agruras dos ordenados parcos, da pouca glamorosa vida de quem sonha apenas com o apito do fim do turno, da avareza daqueles que muito têm e pouco partilham. De Neil Young a Sérgio Godinho, dos Clash a Bruce Springsteen

Por muito que o pulsar primário do rock possa estar ligado à explosão hormonal da adolescência e que, de forma mais ou menos inocente, sirva para declarar coisas às raparigas ou para falar de carros, de mais raparigas e até do que elas possam eventualmente ter dentro, a verdade é que o rock foi sempre veículo para muitas outras coisas, até para cantar a alma de quem trabalha e tem que enfrentar a dureza dos campos ou das fábricas, da rotina maquinal do trabalho braçal, do picar o ponto à segunda de manhã e do sonho distante que é a sexta-feira à noite.

Neste dia do trabalhador propomos uma viagem por alguns grandes operários do rock, trabalhadores que com as suas guitarras e baterias e microfones cantaram as agruras dos ordenados parcos, da pouca glamorosa vida de quem com pouco mais sonha do que com o apito que indica o fim do turno, da avareza daqueles que muito têm e pouco partilham.

Esta é igualmente uma fértil via de inspiração para os artistas que praticamente desde os alvores desta cultura eléctrica perceberam que precisavam também de cantar a vida daqueles que mesmo cansados estavam na primeira fila dos seus concertos de sexta-feira à noite, em busca de um escape antes que a semana de trabalho recomeçasse.

Muddy Waters – Streamline Woman

Muddy Waters sabia tudo sobre o trabalho: veio dos campos do Mississippi e quando chegou a Chicago teve que trabalhar para sobreviver a conduzir um camião e também numa fábrica. Quando a carreira disparou, este verdadeiro operário dos blues não esqueceu quem pagava um bilhete para o ver nos juke joints ao fim de semana.

Bob Dylan – Maggie’s Farm

Bob Dylan aprendeu na folk de mestres como Woody Guthrie que os trabalhadores são o sal da terra e muitas das suas canções, mesmo não referenciando directamente a vida na fábrica ou no campo, ainda assim abordavam os grandes anseios do homem comum, expressando palavras com que mesmo a pessoa mais modesta se poderia identificar. Mas nesta “Maggie’s Farm” Dylan aborda directamente o cansaço de quem já não aguenta a exploração.

The Beatles – A Hard Day’s Night

“It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog”. Será necessário dizer mais? Os quatro fabulosos de Liverpool não nasceram em berço de ouro, trabalharam no duro nos clubes de Hamburgo para soldados e marinheiros e, portanto, entendiam bem o que significa alguém poder soltar-se depois de um dia de intenso esforço.

Rolling Stones – Salt of the Earth

Em 1969, mesmo a fechar o alinhamento do clássico Beggars Banquet, os Rolling Stones ergueram os seus copos às pessoas que trabalhavam. Supostamente, foi Lennon que inspirou Mick Jagger a escrever palavras como “Say a prayer for the common foot soldier / Spare a thought for his back breaking work / Say a prayer for his wife and his children /Who burn the fires and who still till the earth”.

John Lennon – Working Class Hero

Poderão ler longamente sobre John Lennon e este autêntico hino à classe trabalhadora no próximo domingo, 3 de maio, mas não podíamos deixar de citar esta importante canção numa lista que explora a inspiração que a força laboral ofereceu aos homens e mulheres do rock.

Van Morrison – I’ve Been Working

O cantor irlandês pouco mais precisaria de evocar do que as suas raízes culturais para se classificar para uma lista destas, mas a verdade é que Van Morrison é mesmo uma espécie de operário da música, a trabalhar no duro desde a adolescência e que mesmo perto dos 75 anos continua a recusar a tranquilidade da reforma.

Sérgio Godinho – Foi a Trabalhar

Logo no arranque da sua carreira em nome próprio, Sérgio Godinho perguntava que força era essa, a dos trabalhadores que faziam as cidades para os outros. E Sérgio nunca deixou na verdade de cantar esse impulso e no seu álbum de 1976, De Pequenino Se Torce o Destino, esse assunto dominava, com o cantautor a declarar, logo a abrir, que é "a trabalhar que a gente paga o jantar" (mas "foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar").

Neil Young – Union Man

Neil Young é outro daqueles heróis que qualquer trabalhador da América terá em boa conta, já que o músico nunca escondeu de que lado da barricada se encontra, como tão bem declarado neste tema: “Tenho orgulho em ser um homem do sindicato”.

Bruce Springsteen – The River

Esta lista poderia conter apenas canções de Bruce Springsteen, talvez o rocker a quem o colarinho azul melhor assentou desde sempre. Poucos músicos souberam como ele cantar as angústias do operário, a desesperança de quem vê a vida escapar-se-lhe turno após turno, sem que os sonhos sobrevivam ao cansaço.

The Clash – Career Opportunities

Toda a aura dos Clash aponta para a classe trabalhadora: o visual, o discurso, o lastro político das canções. Até quando falam de assaltar bancos o que Joe Strummer e companheiros parecem estar a dizer é que há que exigir mais. Mas a verdade é diferente e no universo destes homens que viram Londres a arder, não parece haver muitas oportunidades de carreira.

Elvis Costello – Shipbuilding

Talvez seja uma das mais belas “canções de trabalho” de sempre que é também um hino anti-guerra, escrito por alturas do confronto britânico com a Argentina nas Falkland, a pensar em Robert Wyatt, que deste tema gravou a primeira e extraordinária versão. Elvis diz que é uma das suas melhores criações. E não há como não acreditar.

The Fall – Spoilt Victorian Child

Alinhar ideias com a classe trabalhadora significa também apontar o dedo a quem, nas classes superiores, se acha imune à pobreza e ao esforço e poucos o fizeram tão bem como Mark E. Smith que nunca deixou de esfregar o dedo na cara dos privilegiados. “Não somos os Dire Straits”, disse um dia Mark. “Somos uma banda trabalhadora!”

UHF – Nove e Trinta

António Manuel Ribeiro nunca escondeu a inspiração que recolheu na obra dos cantores da revolução e por isso mesmo percebeu que cantar as histórias dos homens e mulheres comuns poderia também servir a causa do rock que abraçou como poucos. E os UHF tornaram-se a perfeita banda de sexta e sábado à noite, quando quem trabalha procura um escape eléctrico antes de voltar a picar o ponto.

Rui Veloso – Sexta Feira Nem Que Chova

No universo de Rui Veloso, o Chico Fininho pode não fazer nenhum, mas a Rapariguinha do Shopping tem que bulir e há quem sonhe com sexta feira, aquele dia em que, nem que chova, o sonho renasce. Neste blues de Siderurgia Nacional canta-se o peso das oito menos cinco, aquela hora em que o dia de trabalho se agiganta pesando nos ombros.

Pulp – Common People

Esta extraordinária canção pop tem um twist (ou dois...) e fala das diferentes perspectivas de classe, mas pinta um retrato da gente comum que vive em pequenos apartamentos por cima de lojas, que têm um emprego e à noite vêem baratas a subir pelas paredes.

Allen Halloween – Cobradores de Impostos

Allen Halloween sempre cantou a vida daqueles que nos autocarros, de marmite na mão, se dirigem para o esquecimento. E nesta música, que desde a sua apresentação assumiu a sua dívida ao espírito de José Afonso, o rapper que trocou as rimas pela devoção religiosa fala do peso que os impostos têm sobre quem trabalha e com pouco fica. “Eu já paguei”, diz ele...