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101 canções que marcaram Portugal #19: 'Marcha dos Desalinhados', pelos Delfins

A história dos Delfins cruza-se com António Variações, Eduardo Nascimento e Miguel Esteves Cardoso. Tiveram engenho para criar canções servissem tanto quem quisesse revoltar-se como quem quisesse uma música de fundo para abraços apaixonados. Foram a banda do pós-PGA, de uma geração que não tinha por que revoltar-se, a maior banda portuguesa dos anos 90. Esta é a 19ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Marcha dos Desalinhados', Delfins
(1990)

Em 1985, ganhou Adelaide Ferreira. Ganhou Adelaide Ferreira aquele Festival RTP da Canção com algumas vedetas prováveis e uma mais do que improvável. Os Delfins foram os últimos a apresentar-se e não sairiam dessa posição na votação final. A sua 'Casa da Praia' não convenceu os jurados dos concelhos de Portugal inteiro. Miguel Ângelo ainda tentou incendiar o público e as câmaras, entrando de rompante quando a música já ia mais adiantada, mas nem esse golpe lhe saiu certo; os operadores de câmara, acostumados a posturas mais estáticas, já não foram a tempo e o que vemos é apenas o vulto de Miguel Ângelo e a régie atordoada para focar o plano certo.

Os fatos que mais se assemelhavam a pijamas e os óculos escanifobéticos talvez não tivessem igualmente ajudado a convencer aqueles jurados de que aquela canção não merecia ter ficado em último. Melhor: talvez para os Delfins tivesse sido a maior consagração na sua participação naquele encontro de canções ligeiras. Demasiado ligeiras.

Os Delfins habituaram-se a ouvir música boa - todos eles, os integrantes dos Delfins, e toda ela, a música. Antevia-se na 'Casa da Praia' alguns trejeitos da Fundação Atlântida, à la Sétima Legião, à la Durutti Column, à la Joy Division. A Fundação Atlântida, de Miguel Esteves Cardoso e Pedro Ayres Magalhães (e outros sonhadores), editara os Delfins quando estes tinham ainda pouco repertório e buscavam ainda o seu caminho, o seu som.

Fariam o percurso alternativo, o percurso que as bandas alternativas trilhavam no Rock-Rendez Vous. Estariam por isso fadados a ser uma banda de qualidade, com muito boa música carregada na memória, mas que não chegava aos discos e, caso chegasse, não passaria do nicho alternativo. Esse álbum alternativo (que nunca se chegou a fazer) seria hoje festim voluptuoso de colecionadores de obras raras.

Mas entre os Delfins intrometer-se-ia António Variações. E Variações mudaria a história da música e mudaria a história da música dos Delfins. À última hora de um álbum que dificilmente chamaria a atenção, foram buscar a 'Canção do Engate', de António Variações. O ‘Eu sou melhor que nada’ servia de epítome de encontros de final de noite e melhor servia com a bateria cadenciada de Jorge Quadros, as teclas alongadas de Rui Fadigas e a voz sedutora de Miguel Ângelo.

Os Delfins chamaram a atenção – do éter, da televisão e do público. Chamaram a atenção para tantas outras canções que tinham para nos conceder. Chamaram a atenção de Portugal para as inquietações que tinham ou seriam descobertas. O festival da canção de 1985, o Rock Rendez Vous e a versão de ‘O Vento Mudou’ eram a amuse bouche para a avalanche que iriam servir a Portugal nos anos 90.

Os Delfins seriam a maior banda portuguesa dos anos 90. Numa década de renascimento de canções em português, numa década de conforto europeu (à la anos 90), numa década de falta de ideais e órfã de grandes causas, os Delfins foram o desalinhamento do status quo.

Ensinaram uma geração a ser rebelde com 'Nasce Selvagem', fosse na acepção da mulher agrilhoada por um marido patife, fosse por um estudante frustrado pelo percurso que lhe teimavam impor, fosse pela defesa do direito de pintar as unhas de verde ou o cabelo de azul. Os Delfins foram o hino da liberdade dos anos 90 de que Portugal não tinha necessidade de se queixar mas que teimava em se queixar.

'Soltem os Prisioneiros' era entoada por hordas de adolescentes que poderiam ter estado à porta da prisão do Aljube em 1974 mas que agora, nos anos 90, não havendo presos políticos em Portugal, urgiam lutar por Xanana Gusmão, pela autodeterminação de Timor-Leste, pela autodeterminação de todas as ditaduras.

As revoluções nos anos 90 em Portugal fizeram-se em favor dos outros, munidas de conforto, quando no nosso país, na nossa casa, não havia por que lutar. Em 1991 já Portugal inaugurava autoestradas e dava as boas vindas ao progresso.

Os Delfins foram a voz dessa geração, da geração do progresso, da geração Expo '98, da geração que era tratada como rasca mas que estava à rasca para crescer depressa e se adequar aos novos tempos. A 'Marcha dos Desalinhados' eram o convite a essa geração pós-PGA a construir progresso, a exaltar-se, a lutar, a desenhar novos cartazes para cuidar do seu futuro e de outros.

Tiveram outras, imensas, canções de glória, como se os Delfins sentissem arroubo de fazer parte da nossa rotina sem interrupções. Alternaram canções de protesto, de incitamento à indignação, com outras mais suaves, de incitamento a acender isqueiros em concertos e dar abraços românticos.

A pop elegante dos Delfins marcou sobretudo os anos 90. Arriscaram datar-se nessa década? Só o saberemos daqui a alguns anos. Talvez os tenhamos consumido em doses exageradas para termos já distanciamento. Certo é que naquela baía de Cascais, quando os Delfins se despediram, de noite, para sempre (?), o seu público sentiu saudades daqueles que tinham sido os melhores anos das suas vidas – com banda sonora dos Delfins.

Ninguém sabe
para onde eu vou
ninguém manda
em quem eu sou
sem cor nem deus nem fado
eu estou desalinhado

Ouvir também: 'A Queda de Um Anjo' (1993)

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