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Mark Lanegan em 2001

Getty Images

A incrível vida de Mark Lanegan, o homem que não conseguiu salvar Kurt Cobain. Mas que foi salvo por Courtney Love

O norte-americano deu uma longa entrevista à Rolling Stone a propósito do lançamento do livro com as suas memórias. Consumidor e vendedor de drogas pesadas, sem abrigo, amigo (e, nas suas palavras, traidor) de algumas das grandes estrelas do rock: haverá poucas vidas como a de Mark Lanegan. Uma história por onde passam Kurt Cobain, Anthony Bourdain, Layne Staley ou Duff McKagan

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Mark Lanegan, conhecido como antigo vocalista dos Screaming Trees, colaborador assíduo de Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, e dono de uma aplaudida carreira a solo, deu uma longa entrevista de vida à Rolling Stone.

A propósito do lançamento das suas memórias, "Sing Backwards and Weep", o norte-americano, nascido em Ellenburg, no estado de Washington, há 55 anos, explica que foi o seu amigo Anthony Bourdain a convencê-lo a contar a sua vida por escrito. Quando Bourdain morreu, em 2018, o músico procurou a ajuda do autor Mishka Shublay para concluir um processo que descreve como "doloroso".

A muito badalada amizade de Mark Lanegan e Kurt Cobain foi abordada na entrevista, e é explorada no livro. "O Kurt e eu já éramos próximos antes de ele se tornar famoso. Durante bastantes anos, na verdade, eu é que fui o famoso daquela amizade!", brinca. "Ele tinha um talento natural e eu percebi isso mal o vi cantar na biblioteca de Ellensburg, a cidadezinha onde cresci".

Foi Dylan Carlson, guitarrista dos Earth e amigo de ambos, a convencer Mark Lanegan a assistir a esse pequeno concerto. "Ele pediu-me que fosse ver a banda do seu amigo Kurt, porque ele era meu fã. Ele olhava para mim como se eu fosse o seu irmão mais velho".

Mark Lanegan e Kurt Cobain em 1992

Mark Lanegan e Kurt Cobain em 1992

DR

Quando Kurt Cobain morreu, em 1994, Mark Lanegan sentiu-se culpado por não ter atendido os seus telefonemas e afundou-se ainda mais nas drogas pesadas.

"A morte do Kurt só me fez querer desaparecer ainda mais. Durante anos, tivemos uma relação muito pura de admiração mútua pela música um do outro. E depois ele ficou tão famoso que certa vez me disse: 'tu e o Dylan são os únicos amigos verdadeiros que eu tenho', o que era triste".

"E também pensei: 'que tipo de amigo sou eu?' Ele admirava-me, apesar de eu saber que ele assistiu ao meu declínio. Lembro-me de pensar: 'podia ter ajudado aquele miúdo que me admirava e que eu até adorava'. Em vez disso, tornei-me uma daquelas pessoas que vão comprar droga para os amigos que não podem sair por serem demasiado famosos", recorda, com mágoa. "Podia ter sido uma pessoa diferente e não fui".

Mark Lanegan fala ainda sobre ter sido sem-abrigo, sobre ter ludibriado um traficante para quem vendia droga na rua e sobre a sua vida ter mudado com a ajuda de Courtney Love, que lhe permitiu ingressar numa clínica de reabilitação.

Depois de entrar numa clínica onde os pacientes, todos músicos, pagavam a cura trabalhando, Mark Lanegan percebeu que precisava de mais ajuda, durante mais tempo. "E a Courtney acabou por pagar a minha estada lá, durante três meses. Eu estava uma desgraça, depois de tantos anos a fazer mal a mim mesmo. Ninguém me daria trabalho. Lembro-me de acordar na clínica e de o meu quarto estar cheio de sacos com roupas novas que a Courtney tinha mandado".

Sobre as motivações de Courtney Love para ajudá-lo, revela Mark Lanegan: "Lembro-me de ela me deixar uma carta a dizer: 'o Kurt adorava-te como se fosses o seu irmão mais velho e teria querido que vivesses. O mundo precisa que tu vivas'. Isso foi forte, porque há anos que eu não fazia nada de bom por ninguém. E também porque lhe falhei quando ele mais precisou de mim. Tenho uma grande dívida, que nunca poderei pagar, à Courtney".

Mark Lanegan fala ainda sobre Layne Staley, dos Alice In Chains, que descreve como "uma pessoa mágica" consumida pela obsessão de ter a mesma sensação que tivera quando se injetara pela primeira vez. "Eu nunca voltei a ter essa sensação. Tive logo de começar a injetar-me cinco vezes mais para sequer tentar chegar lá. Para mim era uma impossibilidade, para ele era uma obsessão".

"Ainda adoro ouvir Alice in Chains. Se der na rádio, sinto-me bem. Mas se passa Nirvana na rádio, fico deprimido. Se começar a dar no Uber? Têm de desligar. E penso que é por causa do comportamento que tive na morte daqueles dois tipos que eu adorava em igual medida. O Layne eu sei que não influenciei, mas tínhamos as drogas em comum. Escrevi no meu livro de letras: 'O Kurt é como o meu maninho mais novo, o Layne era como um gémeo'".

Mark Lanegan aproveita ainda para referir outros companheiros que o ajudaram a poder ter uma vida estável (é casado e tem uma casa, algo que nunca julgou possível), como Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, ou Greg Dulli, dos Afghan Whigs, que o convidaram para os seus projetos e digressões. E destaca um anjo da guarda em particular: Duff McKagan, dos Guns N' Roses.

"Depois da reabilitação, consegui entrar num abrigo em Pasadena [na Califórnia] e comecei a trabalhar nas obras em Los Angeles. Um dia chego ao abrigo e o Duff McKagan [baixista dos Guns N' Roses] estava no pátio. Ele estava sóbrio há uns anos e alguém lhe tinha falado de mim. Mantivemo-nos em contacto e a certa altura perguntou-me: 'Importas-te de ir viver para a minha casa e tomar conta daquilo?'. Acabei por viver nas casas dele sem ter de pagar renda, durante três anos. Mesmo quando comecei a trabalhar, ele nunca me deixava pagar renda. Dizia sempre que eu lhe estava a fazer um favor, enquanto eu conduzia os seus carros e vivia nas suas casas. Foi o meu anjo da guarda".