Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Golpe de Estado

Rita Carmo

Quando o 25 de Abril foi 'samplado'. O Golpe de Estado de 1989 foi eletrónico

Um vinha da Sétima Legião, outro dos Linha Geral. Paulo Abelho e Tiago Lopes foram pioneiros na aplicação das novas tecnologias à música e os primeiros a usarem samples para evocarem o 25 de Abril. Uma história que se conta aqui

Há pouco mais de 30 anos, em 1989, um verdadeiro OVNI aterrou na cena musical portuguesa: Rev 25, maxi de estreia da dupla Golpe de Estado, saiu com selo da EMI-Valentim de Carvalho e navegou contra uma corrente até aí alheia da explosão da cultura house de raves que entretanto varria a Europa a partir de Inglaterra. Pegando na inspiração de My Life in The Bush of Ghosts de Brian Eno, disco pioneiro ao nível do sampling, e noutros exercícios baseados na mesma tecnologia e aplicados à pista de dança, como o estrondoso “hit” 19 de Paul Hardcastle, e ainda e na cena new beat comandada pelos belgas Front 242, Tiago Lopes e Paulo Abelho criaram uma obra de modernidade absoluta que foi vanguardista na utilização do sampling em Portugal e talvez o primeiro claro exemplo de abordagem à memória então ainda recente do 25 de Abril através desse método de produção.

Paulo Abelho e Tiago Lopes são hoje reconhecidos técnicos de som e à época representavam duas importantes bandas da modernidade pop portuguesa: a Sétima Legião e os Linha Geral, respectivamente. Em 1989, a Sétima Legião editou aquele que será, porventura, o seu maior sucesso, De Um Tempo Ausente, álbum cuja popularidade foi potenciada pelo êxito “Por Quem Não Esqueci” que então consuistou espaço nas playlists de várias rádios. E na ficha técnica desse álbum, Paulo Abelho é creditado como percussionista, como de resto tinha acontecido nos registos anteriores, e também pela operação do sampler. O peso desta tecnologia num trabalho da Sétima Legião só seria mais notório, porém, com trabalhos posteriores, como O Fogo, que data de 1992.

Já Tiago Lopes tinha sido um dos responsáveis pelo único álbum editado pelos Linha geral, banda de que era guitarrista e que também contava com os préstimos de Carlos Manso, Fernando Soares e Pedro Alvim. O álbum, que curiosamente integrava um tema com o título “Auto de Fé”, expressão que serviria igualmente para baptizar o álbum de 1994 da Sétima legião, tinha sido produzido por Nuno Rebelo (Street Kids, Mler Ife Dada) que é creditado ainda como o responsável por vários teclados e pelo sampler. João Peste ajudou com coros além de ter sido o responsável pela edição através da sua Ama Romanta.

Tanto a Sétima Legião como os Linha Geral estavam já, portanto, quando corriam ainda os anos 80 do século passado, a par dessa revolucionária tecnologia que começava a ditar novas direcções musicais a nível internacional. E essas duas bandas partilhavam também o mesmo espaço de ensaios e foi aí que ambos os músicos se conheceram e decidiram avançar para um projecto que traduzisse o momento, inspirados pela música que ouviam chegada de fora e pela vontade de explorar as possibilidades que as novas tecnologias de sampling de que dispunham e que até já tinham usado lhes ofereciam.

Nesse tempo, os primeiros samplers mais acessíveis em termos de preço começavam a chegar ao mercado e a sua utilização estava a gerar as primeiras obras-primas (3 Feet High and Rising dos De La Soul data de 1989), mas a mais nítida inspiração para “Rev 25” e “Um Caso Que Está a Dar Que Falar”, tema do lado B do maxi, vinha de outros quadrantes.

Em 1981, o álbum My Life in The Bush of Ghosts de Brian Eno e David Byrne era um assomo de absoluta modernidade: o duo “samplou” discursos de líderes religiosos e políticos registados a partir de emissões de rádio, recorreu a pioneiras gravações de música étnica e dessa forma ergueu um pungente retrato da América regado a funk cibernético do mais alto calibre. Paulo Abelho aponta hoje esse álbum como uma das suas inspirações e de facto as fontes de Rev 25 são igualmente emissões de rádio, neste caso imortalizadas numa edição de vinil, e as vozes de uma reportagem de TV: ou seja, o arquivismo de uma memória política nacional em vinil e os mass media como fontes de parte da matéria usada, tal qual o que havia acontecido com a dupla responsável por My Life In The Bush of Ghosts em Nova Iorque alguns anos antes.

Já Tiago Lopes prefere nomear o pendor rítmico da “electronic body music” dos Front 242 como uma referência directa. Em 1988, o grupo belga lançou Front By Front, quarto álbum de uma fértil carreira iniciada no arranque dos anos 80, trabalho em que as programações rítmicas e as vozes mecanizadas se cruzavam com sintetizadores e guitarras, uma receita que, de facto, foi replicada no trabalho de estreia dos Golpe de Estado.

Outras referências que certamente não hão-de ter passadas despercebidas para o duo português terão sido as que a ainda resistente rádio portuguesa ia apesar de tudo passando, hits incontornáveis como “Beat Dis” dos Bomb The Bass de Tim Simenon e “Pump Up The Volume” dos M/A/R/R/S, projecto que resultava do cruzamento de talentos dos Colourbox e A.R. Kane. Os dois temas foram hits absolutos em 1987 e tocaram com bastante frequência nas antenas portuguesas. Tanto Tiago Lopes como Paulo Abelho sentiram, certamente, os efeitos destes discos até porque ambos frequentavam espaços como o Frágil, mítico clube do Bairro Alto, onde esta música traduzia a urgência do momento. Trata-se de dois brilhantes exemplos de sincretismo musical, com o sampling a ser usado de forma criativa.

Mas até esses temas tinham antecedentes, nomeadamente o mega-hit global “19” do produtor britânico Paul Hardcastle, tema cujo título derivava de um sample da voz off de uma reportagem da ABC sobre o stress pós-traumático de soldados enviados para combaterem no Vietname, soldados cuja média de idades era, precisamente, essa de 19 anos. O single editado em 1985 foi número 1 em todos os principais mercados – incluindo Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha – e foi igualmente um êxito absoluto em Portugal tendo sido localmente lançado pela EMI-Valentim de Carvalho, a mesma editora dos Golpe de Estado. O seu uso do Emulator da E-Mu, inspirado no trabalho pioneiro de Afrika Bambaataa, foi uma clara inspiração para todos os que procuravam forma de usar os samplers e que em meados dos anos 80 estivessem nas proximidades de um rádio ligado. Foi absolutamente inescapável.

Tiago Lopes e Paulo Abelho recordam bem as ferramentas usadas para construírem “Rev 25” e “Um Caso Que Está a Dar Que Falar”, os dois temas do maxi com que se estrearam.

“O maxi de 89 foi feito na cave de Patameiras”, explica Tiago Lopes, referindo-se à cave dos pais de Paulo Abelho, em Odivelas, que lhes servia de espaço de criação. “Ainda não tínhamos computadores, foi tudo programado numa caixa de ritmos que não era nossa mas do Nuno Cruz da Sétima Legião, uma Roland TR 707, o sampler já não me lembro bem mas a ser era o MKS 100”. Lopes refere-se ao clássico sampler da Roland, versão rack do Roland S10, um sampler de 12 bits de 1986 que permitia trabalhar quatro samples de 1 segundo cada ou um sample de 4 segundos. Uma das ferramentas que Legowelt, renomado produtor holandês de música electrónica, continua a favorecer até aos dias de hoje.

Golpe de Estado

Golpe de Estado

José Pedro Santa Bárbara

O disco, explica Paulo Abelho, foi depois gravado no estúdio Namouche por Tó Pinheiro da Silva: “Quando estávamos a misturar a maquina de 24 pistas perdeu o tracking e a fita começou toda a saltar, conclusão a máquina trilhou uma zona do multipistas”. A solução, recorda Paulo Abelho, “foi depois editar o tema a partir do master de duas pistas, fazendo edits à mão, com tesoura e cola”.

Tiago Lopes confirma: “O maxi foi gravado no Namuche pelo Tó Pinheiro Da Silva. Com a boa Neve“, explica, referindo-se à famosa mesa de mistura, “e com uma Studer de 24 pistas analógica. O maxi tem um extra no fim que é a internacional com as comunicações de rádio dos militares ao fundo”. “O sintetizador”, confessa Tiago Lopes, “não me lembro mesmo, porque depois já com o Carlos Maria Trindade é que usamos o Atari 1040 st com o o velhinho Pro24 e um synth Yamaha TX 808. O teclado base acho que era um D20 da Roland”.

“Rev 25” usa material samplado do disco As Vozes do 25 de Abril, uma edição da Imavox de 1975 com montagem de vários excertos áudio de emissões radiofónicas, nomeadamente do Rádio Clube Português, e televisivas, todos alinhados e editados pelos técnicos José Ribeiro e Manuel Cunha, com narração a cargo de Luís Filipe Costa a partir de textos do jornalista Joaquim Furtado. A histórica foto de capa é de Eduardo Gajeiro, um dos mais notáveis fotojornalistas da época.

O maxi continha ainda no lado B um tema que gerou alguma controvérsia por ter samplado excertos de uma reportagem emitida à época pela RTP sobre o notório caso de confronto entre polícias no Terreiro do Paço resultante de manifestações que procuravam autonomia sindical para as forças de segurança, algo que à época não era ainda consagrado nas leis da República.

“Na altura, o que nós ambicionávamos fazer era como jornalismo musical, por isso andávamos à procura de um tema para o lado B e de repente aconteceu aquilo do Terreiro do Paço, policias contra policias”, recorda Paulo Abelho. “Telefonámos ao Carlos Maria Trindade que trabalhou connosco na fase de pré-produção (o disco foi pré-produzido no estúdio dos Delfins) e pedimos para gravar em vídeo o Telejornal. Passadas duas semanas o disco estava na rua”. Carlos Maria Trindade, teclista dos Heróis do Mar e produtor com largo currículo, viria ele mesmo a realizar pioneiro trabalho electrónico com a edição, em 1991, do álbum colaborativo com Nuno Canavarro Mr. Wollogallu, uma rara peça de colecção que em 2018 mereceu reedição através da espanhola Urpa i musell.

Esse gesto valeu ao grupo alguns dissabores na altura, com as rádios a recusarem-se a tocar o single e a minimizarem dessa forma o seu impacto. Ainda assim, Rev 25 não é um disco raro e há até cópias disponíveis no discogs a preços bastante acessíveis, mas é, sem a menor sombra de dúvida, um importante registo de uma época em que a utilização das tecnologias electrónicas ainda estava na sua infância nos estúdios em Portugal, um disco com visão e espírito de aventura que merece a atenção de quem hoje procura raízes para a identidade electrónica nacional. E, sobretudo, um trabalho absolutamente incontornável em qualquer revisão histórica dos caminhos do sampling no nosso país: há uma linha clara a ligar o gesto de apropriação de um par de importantes momentos da história portuguesa de procura de liberdade por parte dos Golpe de Estado a, por exemplo, Sam The Kid a inserir a voz de Victor Espadinha em Beats Vol. 1: Amor ou Stereossauro a mergulhar, já em 2019, nos arquivos em busca da memória de Amália Rodrigues.

Este artigo foi publicado originalmente em abril de 2019 no site Rimas e Batidas e amplamente aumentado em abril de 2020