Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Cesária Évora

Expresso/DR

101 canções que marcaram Portugal #18: 'Sôdade', por Cesária Évora

Cesária Évora é a embaixadora de Cabo Verde no mundo, 'Sôdade' a sua canção mais emblemática. A que define a essência dos cabo-verdianos: a angústia de ficar querendo partir e a angústia de partir querendo ficar. Esta é a 18ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Sôdade', Cesária Évora
(1992)

Cesária Évora recusava-se quase terminantemente a falar português. Fazia gala em se expressar no seu crioulo materno. Por revolta colonial, por ter sido a França a descobri-la para o mundo, por sentir necessidade de ser a embaixadora do seu povo assolado pela angústia de partir desejando ficar e desejando ficar tendo de partir. Por angústia, fosse como fosse – percebia-se. Num programa de Herman José, o humorista, num gesto forçado de diplomacia, alavancou que Cabo Verde estava na moda. Cabo Verde sempre esteve na moda para os cabo-verdianos, respondeu Cize.

Cesária Évora não era uma mulher da CPLP. Não era sequer uma mulher dos PALOP. Cesária Évora era uma mulher do Mindelo, da sua ilha de São Vicente. São Vicente é uma ilha seca, agreste, madrasta como a maioria das ilhas do arquipélago, mas São Vicente é uma ilha mágica, inspiradora. Não foram com certeza os corsários que por lá se acomodaram que inspiraram as raízes culturais do Mindelo. Talvez a praia da Lajinha. Talvez o Monte Cara. Talvez a baía de Porto Grande. Talvez o seu ar fresco e tropical e das gentes que aí nascem. Facto é que a ilha de São Vicente poderia estar na América do Sul, noutro hemisfério – não fosse o português balanceado que é o crioulo. São Vicente é uma África morna, de ventos leves e temperaturas amenas. O Mindelo faz o transbordo para o melhor de cada um.

E foi nesta ilha de B. Leza que Cesária Évora nasceu, cresceu e da qual nunca se conseguiu e nunca se quis apartar. Aí se revelou ainda imatura mas o destino das tentações, dos encargos e da sensatez – que em nada têm de incongruente em conjunto - fizeram Cize interromper uma visibilidade local durante 20 anos para regressar para uma apoteose planetária. A estória não se conta tão simples assim: os amores, os filhos, a família, a sobrevivência forçada a quase ditarem um destino certo de uma mulher cativa numa ilha longe.

Em cada esquina do Mindelo ouve-se violinos, violas e vozes quentes, ainda hoje. Em cada esquina do Mindelo, não só nos estabelecimentos elegantes da Rua de Lisboa (especialmente fora da Rua de Lisboa), ouve-se a morna, a coladeira, bebe-se grogue, dança-se funaná. E Cesária Évora, com apelido de uma terra que nunca conhecera, de uma terra que trouxera os ferrinhos e a gaita para a música que sentia – cantava onde quer que fosse, com a mesma simplicidade: uma serenata no Lombo ou num auditório em Tóquio. De preferência descalça. Haveria aliás de ficar para sempre conotada como la diva aux pieds nus. Custou-lhe calçar os sapatos que o frio da Europa impunha.

Nem sempre quem mais nos estima consegue mais fazer por nós. E B. Leza, Francisco Xavier da Cruz, o poeta maior de Cabo Verde, o poeta paralítico de vigor poético, viu a sua diva esvair-se e confinar-se às noites errantes do Mindelo – para cursar, muitos anos mais tarde, os grandes palcos do mundo. É Bana, outro mindelense, já com arraiais assentes em Lisboa, na rua do Sol ao Rato, no seu Monte Cara, albergue de cabo-verdianos e amantes portugueses da cachupa e da morna, quem convida uma vencida Cesária a cantar na sua casa.

E é aí que Cize volta a brilhar, como 20 anos antes, junto de um mágico da guitarra, Paulino Vieira, e de um visionário da música de Cabo Verde, José da Silva, o Djô. Um destino que parecia traçado e é agora infletido para fora do Mindelo e para fora de Lisboa, cidades onde tudo começara enfim. Paris, pois então. Paris como o início da Cesária planetária, como a embaixadora da morna, de Cabo Verde. Perpassando bem mais do que B. Leza, mais do que Bana, mais do que Travadinha. O mundo, impulsionado pelo advento da world music, estava já preparado para aquela voz celestial, doce, sincera, suave. E para aqueles cavaquinhos. E aquelas violas

Depois do mundo, África. Só depois de África, Portugal. A entoar Sôdade, como hino da África lusófona – a canção que era uma ode outrossim aos emigrantes cabo-verdianos que partiam para outras paragens. A canção fora uma oferenda de armando Soares a alguns amigos da ilha de S. Nicolau que partiam para São Tomé para trabalhar nas roças de cacau e café. Uma canção com uma letra elementar que ganha enfim corpo com a palavra que lhe dá título e sobretudo pelo vigor que Cesária lhe dá. Porque cantada por outros facilmente se torna numa canção morrenta, com pouca história que contar e pouco que extrair.

Os seus pés descalços pisaram palcos nos cinco continentes. Continuou todavia com os seus pés descalços bem assentes no chão que estava a pisar. Nunca relegando as suas origens, fazendo cada vez mais gala dessas origens. De cada vez que estava longe se sentia mais perto do seu Mindelo. Quando deixou de cantar, não houve despedidas. Foi de vez. Poucas semanas até ao fim.

O Mindelo de hoje, a ilha de São Vicente, todo o Cabo Verde, merecem ter tido Cesária Évora. E a sua escassa extensão, e a sua insularidade, e as suas agruras por falta de chuva, e a sua alma, e a sua coragem de ficar, e a sua coragem de sair, e o tanto que fazem do nada, fazem com que Cesária Évora tenha merecido o povo que teve. E que, também por ela, se possa dizer com autoridade que Cabo Verde sempre esteve na moda para os cabo-verdianos.

Desde que saiu do Mindelo, a sua voz passou a ser parte do vocabulário de quem a ouviu e ouve, de quem a viu, dos palcos que pisou – que é afinal a essência de Cabo Verde.

Si bô 'squecê
'M ta 'squecê
Até dia
Qui bô voltà

Ouvir também: 'Yamore', 2002, com o maliano Salif Keita. Se Ismaël Lô não tivesse criado o hino do continente africano com 'Jammu Africa', 'Yamore' seria uma alternativa à altura.

  • 101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

    Notícias

    Portugal não compareceu na Eurovisão em 1970, mas Sérgio Borges, o vencedor, inscreveria com autoridade outra das canções desse festival. O seu Conjunto Académico faria de ‘Canção de Madrugar’ um sucesso. É uma canção que, cantada de mil formas, soará sempre nova. Esta é a 13ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

    Notícias

    António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

    Notícias

    Carlos Paredes era um compositor complexo e um homem complexo. O bem que fez resume a essência de onde está a nossa génese. Poderia servir de compêndio para a diferença entre o virtuosismo e a emoção. A sua história cruza música popular e erudita. Malangatana. E Big Macs. Esta é a 15ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

    Notícias

    Milú foi figura primeira de filmes nos anos 40 e 50. Arriscou carreira no Brasil, regressou e esteve quase vinte anos sem filmar. José Fonseca e Costa recuperou-a já veterana, desconstruindo a imagem cândida que preservava de filmes estereotipados. ‘A Minha Casinha’, tal como ela, faz parte de um tempo ingénuo e puro, faz parte de Portugal, mas pouca parte faz já de nós. Esta é a 16ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #17: 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades', por José Mário Branco

    Notícias

    Aquilo por que José Mário Branco lutou foi a sua matriz de vida: a liberdade. Tomou-a a pulso e guardou décadas a tentar incutir em Portugal que a liberdade não é um dado adquirido e que há muitas formas de repressão. A história de José Mário Branco atravessa Humberto Delgado, Paris, Zeca Afonso e Luís de Camões. É feita de inquietação e serve de rumo para um Portugal atual. Esta é a 17ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

    Notícias

    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

    Notícias

    João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

    Notícias

    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

    Notícias

    Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

    Notícias

    Tony de Matos foi ‘o’ grande cantor romântico de Portugal, um Sinatra à portuguesa. Tinha uma melena negra, fatos de bom corte e uma voz agigantada. Fez suspirar mulheres pelo seu jeito marialva e homens pelo seu carisma. ‘Vendaval’ é a história de uma grande canção. Esta é a 11ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

    Notícias

    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

    Notícias

    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

    Notícias

    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

    Notícias

    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

    Notícias

    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa