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Tó Trips, dos Dead Combo

Rita Carmo

“Em cinco décadas de vida, chego sempre à mesma praia: não façam do meu talento o meu desalento”. O desabafo de Tó Trips dos Dead Combo

Numa extensa mensagem partilhada nas redes sociais, o músico português revela a sua indignação. “A todos nós que vivemos disto é-nos pedido: resistam, não comam, não vivam, cancelem tudo, não respirem, não tenham filhos, porque o pessoal da cultura é suposto ser um indigente”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tó Trips, músico português mais conhecido como metade da dupla Dead Combo, escreveu no Facebook uma longa mensagem na qual lamenta a falta de apoio que tem recebido do Estado e da Segurança Social, desde o começo da pandemia de covid-19 em Portugal, que levou ao cancelamento ou adiamento de todos os concertos.

"Eu, António Antunes, mais conhecido por Tó Trips, músico (Dead Combo, Club Makumba, Timespine, Ladrões do Tempo, Lulu Blind, entre muitos outros), gráfico e fura-vidas, pai de 3 filhos, 54 anos e 35 de palcos, empresário em nome individual desde a última crise, venho aqui dizer que acabo de receber mais uma nega a um pedido de apoio, desta vez da própria Segurança Social que, sem qualquer explicação, me recusou o pedido de lay-off. Isto sem ter qualquer dívida a esta entidade, há muitos anos que pago os impostos e a Segurança Social a horas. É que nem a própria funcionária consegue entender porquê. Incrédula, disse: olhe, reclame!", partilha o guitarrista.

"Desde que começou a pandemia, fiquei a saber que não era suficientemente erudito para ser contemplado pelos apoios da Gulbenkian, que não posso contar com o Ministério da Cultura e a sua falta de ideias (e de dinheiro) e agora também fiquei a saber que não sou considerado trabalhador de pleno direito pela Segurança Social", prossegue.

"As dezenas de concertos que tinha para este ano foram cancelados ou, na melhor das hipóteses, adiados para daqui a uns meses, mas sabe-se lá se não vem aí novo surto no outono e fica tudo na mesma", escreve ainda Tó Trips.

"Os artistas, ao contrário dos bancos, do Estado, das empresas, da população em geral, foram dos primeiros a fechar a actividade. Música? Para quê? Arte? Que [perda] de tempo! O artista tem família, precisa de comer? É com promessas que pago as compras do supermercado? Ou preferem palmadinhas nas costas?", indigna-se, lembrando ainda as dificuldades atravessadas por "técnicos, agentes e promotores culturais. Que fazem eles para sobreviver?".

"A todos nós que vivemos disto é-nos pedido: resistam, não comam, não vivam, cancelem tudo, não respirem, não tenham filhos, porque o pessoal da cultura é suposto ser um indigente".

"Nestas cinco décadas de vida que já já levei, chego sempre à mesma praia: não façam do meu talento o meu desalento. E já agora acrescento: apoios à cultura, leva-os o vento!", remata Tó Trips.

Pode ler aqui a sua mensagem.

A situação de precariedade de músicos, técnicos e demais trabalhadores do setor tem sido abordada no podcast da BLITZ, Posto Emissor. Pode ouvir o desta semana, com Manuela Azevedo, dos Clã, aqui.