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Lee Konitz em 1981

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Lee Konitz (1927-2020). O génio do saxofone que ajudou Miles Davis a ser cool. E até passou por Portugal...

Gravou centenas de discos, inventou um som para o sax alto alternativo ao de Charlie Parker, participou no mítico “Birth of the Cool” e influenciou diferentes gerações de músicos, incluindo a elite portuguesa do jazz, de Carlos Martins a Rodrigo Amado ou Pedro Madaleno. Tocou em Portugal e era admirador da gastronomia nacional. Deixou-nos esta semana, perdendo a batalha contra a covid-19

Lee Konitz faleceu na passada quarta-feira, dia 15, em Greenwich Village, Nova Iorque, vítima de uma pneumonia. O lendário saxofonista, que contava 92 anos, tinha sido diagnosticado com covid-19, tal como comunicado pelo seu filho. Konitz era o último participante sobrevivente das sessões de 1949 e 1950 de onde foi compilado o material do mítico álbum de Miles Davis Birth of the Cool, lançado em 1957. Protagonista de uma extensa obra que se alarga por oito décadas – a sua discografia como líder ou co-líder compreende mais de centena e meia de títulos, com o primeiro álbum sob o seu nome a ter sido lançado em 1949 e o mais recente a datar já de 2018 -, Konitz foi uma voz inovadora e profundamente influente do jazz, tal como reconhecido por vários músicos da primeira linha do jazz nacional.

Konitz nasceu a 13 de Outubro de 1927 em Chicago, numa família judaica com ascendência austríaca e russa. O primeiro instrumento do jovem Lee, que gostava de ouvir as big bands de Benny Goodman na rádio, foi o clarinete, aos 11 anos, tendo-o estudado com um músico da Orquestra Sinfónica de Chicago, facto que os peritos relacionam com o som “cool” que mais tarde desenvolveria no saxofone. Antes de se ter dedicado ao saxofone alto, Lee Konitz ainda experimentou o saxofone tenor. Mas foi já como saxofonista alto que se iniciou profissionalmente nas lides musicais na banda de Teddy Powell, corria o ano de 1945. O seu empregador seguinte foi o clarinetista Jerry Wald, com quem trabalhou intermitentemente até 1947, período em que conheceria o pianista Lennie Tristano, com quem haveria de estabelecer uma importante relação artística.

Miles Davis, Lee Konitz e Gerry Mulligan nas sessões de gravações de "Birth of the Cool", a 21 de janeiro de 1949, em Nova Iorque

Miles Davis, Lee Konitz e Gerry Mulligan nas sessões de gravações de "Birth of the Cool", a 21 de janeiro de 1949, em Nova Iorque

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A etapa seguinte do percurso de Lee Knonitz levou-o a integrar a banda de Claude Thornhill, que contava com os préstimos de Gil Evans como arranjador e Gerry Mulligan como compositor. Dessa banda sairia muito do talento que dominaria a cena cool jazz em Nova Iorque. Nasceu aí a conexão que o levou a participar nas míticas sessões do noneto que gravaria o material de Birth of the Cool. E isso sucedeu porque Konitz se afirmou como uma voz alternativa à do estilo dominante de Charlie Parker, mercê de uma vincada e singular personalidade que haveria de se afirmar depois como referência para gente como Paul Desmond ou Art Pepper. Em 2013, em declarações ao Wall Street Journal citadas por Peter Keepnews no obituário do New York Times, Konitz reconheceu admirar profundamente Bird, com quem, aliás, construiria uma relação de amizade: “Eu conhecia e amava Charlie Parker e copiei os seus solos de bebop, como toda a gente aliás. Mas eu não queria soar como ele. Por isso quase não me socorria do vibrato e tocava quase sempre no registo mais alto. Esse é o âmago do meu som”.

Esta divergência, que certos críticos atacavam classificando-a como menos emocional e mais cerebral (outra forma de dizer menos afro-americana e mais branca ou europeia), acabou por se revelar importante para o estabelecimento da corrente cool jazz. O New Grove Dictionary of Jazz refere que o termo foi usado para descrever “algumas comunidades de músicos de jazz brancos de Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque e Boston, bem como o output do Modern Jazz Quartet e alguma da música feita por Miles Davis. Estes últimos grupos incluíam músicos negros que, embora com raízes no estilo bop dos anos 40, muitas vezes tocavam de uma forma mais suave, menos expansiva do que a da maior parte das bandas bop”.

Tal como se sublinha no New York Times, os desenvolvimentos protagonizados por Konitz levaram-no a conquistar a admiração dos seus pares, mesmo que o público em geral reservasse a atenção que se concede às estrelas para outros músicos como o trompetista e cantor Chet Baker ou o saxofonista Gerry Mulligan, que se tornaram as verdadeiras estrelas do género cool. E talvez esse tenha sido um factor, em conjugação com a natural reserva e timidez de Lee Konitz, pouco confortável com as dinâmicas do estrelato, que o levaram a temporariamente afastar-se da música em finais dos anos 50, tendo-se aí dedicado ao ensino, actividade que manteve, em paralelo à sua carreira de músico, durante décadas. E isso tornou-o num músico admirado sobretudo por outros músicos.

“A minha forma de tocar”, explicou igualmente ao Wall Street Journal, “era acerca de fazer uma declaração pessoal, de fazer com que as audiências prestassem atenção ao que eu estava a dizer musicalmente por oposição a dar-lhes apenas o que queriam ouvir. Isso era entretenimento. E eu queria tocar música original”. Essa busca da originalidade tornou-o numa referência até para os cultores do free jazz que da década de 60 em diante procuraram libertar-se das amarras das cadências rítmicas e das estruturas harmónicas convencionais.

Lee Konitz em 1979

Lee Konitz em 1979

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O alcance da sua arte fez-se, assim, sentir por todo o lado e através das gerações, incluindo as que se foram estabelecendo do lado de cá do Atlântico. Caso do guitarrista português Pedro Madaleno, estudante no Hot Clube de Portugal na primeira metade dos anos 80, que recorda ter contactado com a música de Lee Knonitz em programas de rádio “muito bons” assinados por gente como Rui Neves: “Além disso, o meu professor mais importante de sempre em Portugal, o contrabaixista David Gausden, andava a tocar com o Lee Konitz, em alguns concertos na Europa, e passou-me também alguns discos muito bons, e como eu fui estudar para Nova Iorque, em 1986, já o David me tinha recomendado ao Lee, para me dar aulas porque, garantia, ele era um excelente professor. Assim mal aterrei em Nova Iorque, foi logo o primeiro professor que contactei, ao mesmo tempo que John Abercrombie, guitarrista”.

Madaleno alinha com a historiografia oficial no reconhecimento do lugar de Konitz na história do jazz apontando-o, juntamente com outros músicos como Chet Baker ou o saxofonista Stan Getz, como um dos “reis da melodia”. “Além disso”, ressalva ainda, “foi dos primeiros músicos a usar conceitos de free jazz em discos, ora com o Lennie Tristano, ora nos seus discos de duetos”.

Depois de conhecer Lee Konitz na América, Pedro Madaleno foi um dos responsáveis por trazer o então já lendário músico a Portugal: “Consegui gerar interesse na direção do Hot Club para o trazer cá, e fui a ponte de ligação, e, claro, o meu sonho era tocar com ele. Mas como aluno dele recente, tinha estado 5 anos a estudar com ele, estava a dar os primeiros passos na minha carreira, logo posso dizer que foi muito stressante, uma grande responsabilidade, e óbvio nunca poderia estar à altura dele, nem hoje estou…”, reconhece o guitarrista. “Mas, como líder, ele deixou-nos totalmente à vontade a acompanhá-lo, e foram cinco dias de concertos muito bons, equilibrados com passeios pelas praias, belos almoços e um grande convívio! Ele era muito simples e humilde no palco e com um talento inato para comunicar com as pessoas, mesmo estando numa fase muito difícil: a sua esposa tinha falecido 3 dias antes de ele vir”, recorda o músico que ainda revela que Konitz adorou a gastronomia portuguesa: “Especialmente o marisco...”

Programa das atuações de Lee Konitz no Hot Club, em Lisboa, em abril de 1991

Programa das atuações de Lee Konitz no Hot Club, em Lisboa, em abril de 1991

Lee Konitz com o guitarrista Pedro Madaleno

Lee Konitz com o guitarrista Pedro Madaleno

DR

Carlos Martins, saxofonista e, entre várias outras coisas, homem do leme da Associação Sons da Lusofonia, também não esconde a influência que Konitz exerceu sobre si enquanto músico: “Há muitos anos, quando era um jovem estudante de Jazz, agora sou um veterano estudante de Jazz, era completamente fã de Charlie Parker, ainda antes de Coltrane. Tínhamos naquela altura, os jovens leões saxofonistas, uma ideia muito musculada e gritada do que deveria ser o som de saxofone”, confessa Martins.” “Mas graças aos amigos à minha volta que adoravam Lennie Tristano comecei a ouvir Lee Konitz, aquele branco que tocava a sério como Parker mas que era outro tipo de Bird”.

“O que sempre me impressionou foi a subtileza das melodias, que com uma concepção rítmica notável voavam sobre as estruturas harmónicas, quaisquer que fossem, tocadas com um som intenso e delicado. Aquele movimento que organiza o caos é e será sempre uma lição de mestria dificilmente superável. Ainda ontem ouvia um disco em trio de Lee Konitz gravado no ano do meu nascimento. Fui surpreendido mais uma vez pela minha ignorância enquanto ouvia “Foolin´ Myself”. Pesquisem que vale a pena ouvir todo o disco que se chama exactamente Motion de 1961”, recomenda o saxofonista, antes de concluir “Pensei como por vezes nos passa ao lado algo que é mais parecido connosco do que aquilo que por razões subjectivas ou de representação pretendemos projectar”, conclui.

No mesmo sentido segue outro saxofonista português, Rodrigo Amado, que normalmente navega por territórios musicais bem diferentes dos de Martins, mas que ainda assim “acusa o toque” de mestria de Lee Konitz, deixando claro que o seu génio não se limitou a ultrapassar fronteiras e gerações, mas também linguagens musicais. “Aquilo que posso dizer, para lá de me assumir como sendo daqueles que acham que o Konitz é um dos grandes, dos maiores, de forma incontestável, é que fui bastante influenciado pela música dele, embora seja um saxofonista que está bastante longe do que faço, em termos estéticos”, sublinha Rodrigo Amado.

“Aprendi com ele a importância da clareza, no discurso e na articulação, e o poder da convicção na afirmação de uma melodia menos convencional. O Konitz conseguia como ninguém, particularmente na segunda metade década de 50, início dos anos 60, equilibrar clareza e agilidade (do bop) e uma concepção harmónica muito própria, de grande carga poética e abstracta. Chegou a ser considerado nessa altura uma das grandes influências do movimento "free jazz" dos anos 60. Recentemente tenho regressado frequentemente ao álbum Motion, que ele fez em trio com o Elvin Jones e o baixista Sonny Dallas. Clássico absoluto!”.

Da mesma opinião partilha Gabriel Ferrandini, baterista que aponta esse mesmo trabalho, Motion, como obra prima absoluta: “É mesmo um dos grandes. Um Alto de Chicago, antigo e enciclopédico”. Já o saxofonista alto Ricardo Toscano também assume a sua reverência a Lee Konitz, figura que aponta como “um génio desta forma de arte”: “E, como tal, só lhe interessava o ‘agora’. Só o som do ‘agora’ lhe saía do saxofone com a maior honestidade e integridade. Como também só lhe interessava falar do presente em vez de reviver os gloriosos momentos da sua história. Isso, para mim, mostra a magnitude do seu legado. O legado de um dos maiores improvisadores que trabalhava matéria prima em tempo real como ninguém”.

De facto, o tal “agora” de que fala Ricardo Toscano foi tão explorado por Konitz que se espelhou na generosa discografia que construiu, muitas vezes procurando a invenção pura em palco. Primeiro sob a tutelagem de Lennie Tristano, que lhe deu o espaço para se desenvolver plenamente como artista, e depois como líder, como pedagogo e como aventureiro criador: estabeleceu ligações com Paul e Carla Bley, explorou as possibilidades do free jazz, gravou trabalhos em duetos improváveis: com o trombonista Marshall Brown, o violinista Ray Nance ou o guitarrista Jim Hall, por exemplo.

Para lá das suas inúmeras sessões como líder e, pois claro, do seu contributo para as já mencionadas gravações históricas com Miles Davis, Konitz participou ainda em registos de Chick Corea, Lennie Tristano, Stan Kenton, Gerry Mulligan, Bill Evans, Dave Pike ou Kenny Wheeler, entre tantos outros. Prova do seu espírito irrequieto, mesmo na fase mais tardia da sua carreira, foi a sua participação, na sua Greenwich Village, no colectivo Enfantas Terribles, em 2012, ao lado de notáveis como Bill Frisell, Gary Peacock ou Joey Baron.

“Porque ele era único”, conclui o guitarrista Pedro Madaleno, “e mesmo nos seus 70, 80 anos e até aos 92, continuou a soar fresco e original Se eu pudesse definir o estilo dele diria que uma coisa que ele tinha, e ao contrario de muitos outros músicos, era um estilo próprio, inimitável. Não há por aí clones dele, eu pelo menos nunca os ouvi. E porquê? porque ele tocava no momento, usava um sistema de embelezamento gradual e momentâneo da melodia, e criava no momento... não tinha malhas clichés, como tanta gente tem a tocar. Tive a sorte de estudar esse sistema com ele e aplico-o constantemente”.