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José Mário Branco

Arquivo A Capital

101 canções que marcaram Portugal #17: 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades', por José Mário Branco

Aquilo por que José Mário Branco lutou foi a sua matriz de vida: a liberdade. Tomou-a a pulso e guardou décadas a tentar incutir em Portugal que a liberdade não é um dado adquirido e que há muitas formas de repressão. A história de José Mário Branco atravessa Humberto Delgado, Paris, Zeca Afonso e Luís de Camões. É feita de inquietação e serve de rumo para um Portugal atual. Esta é a 17ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades', José Mário Branco
(1971)

Porto, 1958. O General Humberto Delgado enche a Praça de Carlos Alberto, na sua sede de campanha à Presidência da República. O pai de José Mário Branco não era uma das 200.000 pessoas que apoiavam nesse dia o ‘General sem medo’, mas, por acaso do destino, ia a sair de uma livraria ali perto e foi alvo da carga que a polícia acometeu sobre os opositores ao regime.

Nesse tempo, José Mário andava com um autocolante de Humberto Delgado na lapela e a Praça de Carlos Alberto povoaria, também por isso, as suas noites de insónia anos mais tarde, em Paris. Praça de Carlos Alberto, Rua de Cedofeita, Travessa do Carregal, Rua de Miguel Bombarda, Rua do Breiner. Perdia o sono repetindo o nome de ruas do seu Porto para não perder o que o prendia ao seu país. Escolhera Paris para viver e para fugir à guerra colonial, para fugir à guerra para onde o PCP o gostaria de ver – para a revolução se fazer na frente de batalha na Guiné, em Angola ou em Moçambique, para veicular os princípios da esquerda interventiva, influenciando os militares a boicotar a guerra por dentro.

Que tinha José Mário Branco a ver com isso? Se tivesse mesmo de ir e pudesse escolher, iria para o lado dos turras combater a ditadura. Mas não pôde escolher nem quereria escolher. Escolheu Paris sem apoio que se visse. Ironicamente, foi um quadro superior do MPLA o primeiro que o ajudou na cidade-luz, já depois de ter vivido debaixo de pontes e de ter poupado pão.

Jurou que lá iria viver como se lá tivesse nascido e se como aí fosse viver para sempre. Mas sabia que à primeira oportunidade se piraria para Portugal. Paris era uma prisão, convinha; estava obrigado a lá estar e não conseguia por isso exercer a liberdade que o fazia estar ali, como contrassenso – apesar de França, porque já se tinha transposto a última fronteira com a Espanha de Franco, era o centro de uma Europa livre, que se podia calcorrear.

O seu apartamento era resguardo de ‘malta’ que aí aportava e a quem ele, Zé Mário, dava a primeira mão numa terra que lhe tinha sido madrasta. Para a sua ‘malta’ não ter de passar o que ele passara. Teria dado a mão a todos os que dele necessitassem, numa época que França chegou a ter 80.000 desertores e refratários portugueses. Gente de bom calibre, na sua maioria esclarecidos e conotados com uma ideologia – muito mais do que com partidos.

Traziam o brasão da esquerda, que os acompanhou, deduz-se, pela vida toda. Que é difícil a um homem despegar-se do seu passado, ainda que a ideologia que transporta tenha já pouca serventia. Também porque eram esclarecidos, tinham avidez por intervir. Tinham avidez pela radicalidade e nunca pela moderação. Viveram o Maio de 1968 – uma festa mais libertária que anarquista – e o seu futuro moldou-se para sempre a partir desse passado.

Essa ânsia de intervenção fez com que a cantiga fosse uma das armas empregues. Começava aí a tecer-se aquele que iria ser um chavão anos mais tarde do Portugal livre. As cantigas eram uma forma de provocar o debate político e José Mário Branco um dos timoneiros dessa provocação. Tocou por toda essa Europa livre onde havia portugueses. Liderou movimentos ideológicos ao lado de António José Saraiva e Maria Lamas. Mobilizou vontades. Apaixonou-se. E nunca teve projetos. José Mário Branco era enfim um homem apaixonado e vivia as suas paixões de forma resiliente; nunca em forma de projetos e muito menos de ganha pão.

Em 1971, já depois de incontáveis apresentações com a sua guitarra, a sua voz, as suas palavras e as de outros, já depois de ter lutado em cima do palco para esclarecer o seu povo acerca da única coisa que lhe interessava – a liberdade – edita um grande álbum. Com um grande título arrebatado de um soneto de Camões. Com uma grande canção charneira – com ‘letra’ do poeta maior. Com um punhado de grandes canções. De muitas palavras com sentido. Todas com sentido. O ‘mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ é um álbum de raiva, como a canção. Um álbum inconformado. Uma canção inconformada.

"Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" é um álbum mobilizador, desempoeirado, atual – como o seria sempre; foi-o aliás 400 anos antes, quando Camões escreveu este soneto. É um álbum sem adornos instrumentais, frugal nos modos e complexo na mensagem. Com pouca tralha, com pouca barulheira, com poucas acrobacias vocais (como José Mário se encarregava de defender) - como seriam os álbuns de José Afonso produzidos por ele, como ‘Cantigas do Maio’, embrião de tudo o que se viria a fazer por toda a década de 70, tanto em ditadura como em democracia.

Há cerca de uma década, dedicou-se apenas a trabalhar na música fora dos palcos. Porque considerava ter já pouco que intervir em nome próprio. Porque estava desalentado. Desiludido por se servirem do povo. Desiludido por se servirem da música. Produziu álbuns de ‘malta’ que ele percebia terem alguma coisa a dizer à gente, que era para si essencial, tendo-se esforçado por apurar as canções dessa ‘malta’, por lhes depurar as melodias e as mensagens. De ‘malta’ que, como ele, fizessem da música a sua amante em vez de sua esposa. Que, como ele, como Gulliver olhava para Glumdalclitch, revissem na música uma entidade maior, ‘a’ dimensão maior. Que não se servissem dela e que se pirassem quando já não tivessem nada para dizer.

‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ faz parte do glossário da nossa cultura, como fez parte da cultura que sempre acompanhou José Mário Branco. Portugal precisou deste artesão para saber então olhar o seu futuro. Porventura ainda hoje a ele recorra. Por muito que tentemos datar a sua ideologia e pô-la em causa, deveremos olhar para um Portugal que não deve fazer sentido sem homens que façam da inquietação a sua matriz ideológica e interventiva. Como José Mário Branco o fez.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Ouvir também: ‘Queixa das almas jovens censuradas’ (1971), do mesmo álbum. Poema de Natália Correia publicado em 1957. De tão bem entrosada está a música, a voz do cantor e o poema que se diria que Natália tinha escrito este texto para esta canção.

  • 101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

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  • 101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

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    Portugal não compareceu na Eurovisão em 1970, mas Sérgio Borges, o vencedor, inscreveria com autoridade outra das canções desse festival. O seu Conjunto Académico faria de ‘Canção de Madrugar’ um sucesso. É uma canção que, cantada de mil formas, soará sempre nova. Esta é a 13ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

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    António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

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    Carlos Paredes era um compositor complexo e um homem complexo. O bem que fez resume a essência de onde está a nossa génese. Poderia servir de compêndio para a diferença entre o virtuosismo e a emoção. A sua história cruza música popular e erudita. Malangatana. E Big Macs. Esta é a 15ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

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    Milú foi figura primeira de filmes nos anos 40 e 50. Arriscou carreira no Brasil, regressou e esteve quase vinte anos sem filmar. José Fonseca e Costa recuperou-a já veterana, desconstruindo a imagem cândida que preservava de filmes estereotipados. ‘A Minha Casinha’, tal como ela, faz parte de um tempo ingénuo e puro, faz parte de Portugal, mas pouca parte faz já de nós. Esta é a 16ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

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    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

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    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

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    João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

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    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

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    Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

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    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

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  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

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    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa