Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Nick Cave and the Bad Seeds no Primavera Sound Barcelona 2018

Jordi Vidal

“Entre as lágrimas e a revelação: o vírus deixou-nos crus, essenciais e reflexivos”. Nick Cave vira-se para “um Deus”

Nick Cave reflete sobre o poder da oração. “Temos tantas possibilidades de as nossas preces serem atendidas por um Deus que existe como por um Deus que não existe”

Nick Cave escreveu mais um dos seus ensaios, no site Red Hand Files.

Em resposta à sucinta pergunta de um fã - "rezar a quem?" -, o australiano desenvolve:

"O ato de rezar não é, de todo, exclusivo da prática religiosa, porque rezar não depende da existência de um sujeito. Não tens de rezar a ninguém. Rezar sendo descrente tem tanto valor como rezar sendo crente, pois a oração não é um encontro com um agente externo, mas sim um encontro connosco mesmos. Temos tantas possibilidades de as nossas preces serem atendidas por um Deus que existe como por um Deus que não existe. Não digo isto jocosamente, pois muitas vezes as preces são realmente atendidas".

"Uma oração dá-nos um momento no tempo em que podemos contemplar as coisas que são importantes para nós. (...) O ato de rezar pede-nos algo e, ao fazê-lo, dá-nos muito de volta - pede-nos que nos apresentemos ao desconhecido como somos, sem pretensiosismos e afetações, e que contemplemos aquilo que somos ou valorizamos. Através desta conversa com o nosso eu mais profundo, somos confrontados com a natureza da nossa existência".

"O coronavírus deixou-nos de rastos mas, ao mesmo tempo, ofereceu-nos a oportunidade de rezarmos, quer acreditemos em Deus ou não. Ao forçar-nos ao isolamento, desmanchou as personalidades que tínhamos construido, pondo em causa as necessidades que presumíamos ter, os nossos desejos, as nossas ambições, e deixando-nos crus, essenciais e reflexivos. A nossa súbita deslocação atirou-nos para um mistério que existe na fronteira entre as lágrimas e a revelação, pois nenhum de nós sabe o que o amanhã trará".

"Na nossa arrogância, achávamos que sabíamos, mas ao curvarmo-nos perante o incrível poder do vírus, a única coisa de que temos a certeza é de que estamos indefesos. No final, é possível que esta vulnerabilidade seja aquilo que nos vai salvar, a nós e ao planeta. Libertos das nossas certezas, oferecemos ao mundo a nossa dádiva mais pura - as nossas orações".

Pode ler aqui a resposta de Nick Cave.