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Manuela Azevedo, dos Clã, e Capicua

Lucília Monteiro/Rita Carmo

“É nuvem que ameaça/ Eu já nem saio à rua/ Com medo da desgraça”. Clã e Capicua juntos em canção premonitória

'Armário' é a primeira colaboração da equipa 'Clãpicua'. “Escrevi sobre ansiedade, depressão e pânico. As verdadeiras pandemias do nosso século”, diz Capicua

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

'Armário' é a nova canção retirada de "Véspera", o próximo álbum dos Clã.

O tema tem letra de Capicua, que pela primeira vez colaborou com a banda de Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves.

"Esta foi a minha primeira colaboração com os Clã, de quem sempre fui fã e a quem sempre admirei o bom gosto. Ser convidada para escrever-lhes uma letra foi uma alegria", escreveu Capicua nas redes sociais.

"Quando nos encontrámos para ouvir algumas demos e falar sobre possíveis ideias, perguntei-lhes se tinham algum conceito para o álbum e se queriam sugerir algum caminho. Explicaram-me que gostam de dar toda a liberdade a quem lhes escreve e que o acaso costuma garantir a coerência do todo, mas que, se tivessem que situar o novo disco, seria no prenúncio que antecipa um grande acontecimento. O segundo antes da explosão. O hiato entre a normalidade e a ruptura. O batimento imediatamente antes do descompasso", recorda a rapper, dando conta de uma certa inspiração premonitória dos Clã.

"Ora foi daí que me surgiu esta letra. Lembrei-me do canário da mina que dá o sinal de alerta, antecipando a asfixia. Lembrei-me da onda que recua antes do maremoto. Lembrei-me do silêncio dos pássaros antes do estalar da tempestade. E resolvi usar essas imagens para falar indiretamente sobre ansiedade, depressão e pânico. As verdadeiras pandemias do nosso século", afirma.

"Curioso é perceber que o disco dos Clã acabou por ser terminado precisamente no momento que antecedeu o caos, e que agora estamos todos fechados em casa, mais ou menos claustrofóbicos, como a letra do 'Armário' sugere".

Veja aqui o vídeo de 'Armário' e a letra da canção.

Armário, Clã (2020)

Eu vou num arrepio
Eu vivo o desconforto
Eu sinto calafrio
Pressinto maremoto
Eu falho sempre o tiro
E digo que é por pouco
Faço mira ao destino
Mas do lugar de morto
Isto é um ápice
Isto é um triz
Eu estive quase
P'ra ser feliz
E o sitio não mergulho
O susto não me passa
Eu já não tenho orgulho
Mas preso a carapaça
É onde aquilo recua
É nuvem que ameaça
Eu já nem saio à rua
Com medo da desgraça

Dentro do meu armário não há vida
Eu sou como o canário da mina de carvão
Eu sinto falta de ar
Eu tenho falta de ar

As aves já não piam
O que ela já não sofre
As folhas rodopiam
E cheira a enxofre
Eu sou um gato preto
Eu nunca tenho sorte
Faço secar o trevo
Posso agoirar a morte
É um ápice
É um triz
Eu estive quase
P'ra ser feliz

Aqui no meu armário não há verão
Eu sou como o canário da mina de carvão
No escuro do armário não há vida
Eu sou como o canário da mina de carvão
Eu sinto falta de ar
Preciso sair
Eu tenho falta de ar
Eu quero sair
Não dá p'ra respirar
Eu quero sair