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Legendary Tigerman no Musicbox, em Lisboa, a 29 de janeiro de 2020

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“Não vai haver subsídio que resolva isto. Esta já é uma guerra de todos” O longo texto de Paulo Furtado sobre a crise de covid-19

O músico mais conhecido como Legendary Tigerman escreveu um longo texto sobre o momento que Portugal atravessa. "Assistimos a crucificações públicas cruéis e completamente desajustadas. Para sobrevivermos a isto, vamos ter que ser melhores"

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Paulo Furtado, o músico mais conhecido como Legendary Tigerman, escreveu um longo e emotivo texto sobre as dificuldades atravessadas pela sociedade portuguesa, em plena pandemia de covid-19.

Recuando até à última passagem de ano, "uma noite tranquila e divertida mas de algum modo estranha", Paulo Furtado escreve: "Acho que todos nós, por razões diferentes, estávamos ansiosos para que 2019 chegasse ao fim.

"O que nenhum de nós imaginava é que em abril íamos estar tão familiarizados com tantas palavras tão assustadoras, palavras como pandemia, surto, quarentena, distanciamento social, zaragatoa, curva epidémica e tantas outras, que podem mais ou menos ser resumidas nestas duas: Vírus Corona, ou Covid-19."

Sobre os efeitos transversais da doença e da paralisação causada pela mesma, desenvolve: "Eu estou em casa, com tudo o que tinha nos próximos seis6 meses cancelado, a olhar para a maior incerteza que alguma vez vi, a tentar inventar modos de me adaptar a estes tempos malucos que vivemos, a pensar como é que eu e aqueles com quem trabalho e todos os que fazem o mesmo que nós vamos sobreviver a tudo isto, como vamos pagar a renda e comer daqui a uns meses".

"Conheço pessoas que estão a trabalhar de casa, outras que têm de ir trabalhar na rua, algumas que estão na linha da frente deste combate, conheço pessoas que vão dar à luz esta semana, outras que foram pais há um mês, outros que não sabem como vão pagar a renda para o mês, alguns que não sabem como vão comer para a semana, uns poucos para quem nada mudou assim tanto. Não interessa qual é a nossa profissão, neste momento, porque todas irão ser afetadas, de alguma maneira e em grande escala".

"Está muito presente a ideia de que vamos sair disto tudo mais próximos uns dos outros, mais do que nunca, que este isolamento nos obriga a olhar para dentro, que sairemos todos melhores seres humanos desta situação.
Adoraria acreditar nisto, mas creio que o que é mais provável que aconteça é exatamente o contrário, a não ser que a maior parte de nós faça um enorme esforço para mudar muita coisa no modo como funcionamos como indivíduos e sociedade, e como olhamos para o nosso futuro e dos que estão à nossa volta. Do ponto de vista emocional também temos decisões difíceis pela frente. Vamos lutar pela compaixão e reflexão ou sucumbir à raiva e insatisfação que sentimos por tudo isto que vivemos?", pergunta-se Paulo Furtado.

O músico refere-se ainda ao cancelamento do TV Fest e à polémica que essa iniciativa do Ministério da Cultura causou:

"Na mesma semana (dia?) em que 20 mil artistas e técnicos se juntam para forçar o cancelamento de um festival cujos pressupostos achavam injustos, assistimos a crucificações públicas cruéis e completamente desajustadas a pessoas cujo trabalho admiro e respeito. Nessa mesma semana fiz um concerto a partir de casa e muita gente fez uma doação online. Tenho visto também atores, artistas e músicos a fazerem lives que trazem conforto, cultura e divertimento às pessoas nestes momentos de reclusão. Nestes dias tem havido muita gente a ajudar, mas também não é preciso muito para a raiva e violência saírem disparadas, estamos numa situação limite".

Elogiando o comportamento do pessoal médico, do Governo e do Primeiro-ministro e de todas as "fatias da sociedade que correm riscos por nós, que ficamos em casa", Paulo Furtado remata:

"Acho que comecei a escrever este texto porque muito em breve vamos todos ter que tomar decisões difíceis. Vamos todos ter que pensar se queremos ter um bocadinho mais de dinheiro no banco, ou se vamos ajudar um amigo que não consegue pagar renda. Se vamos ter um bocadinho mais de comida no prato, ou se podemos partilhar com quem não tem que chegue. Se os senhorios vão despejar os arrendatários, ou se os arrendatários se vão recusar a pagar renda. Se os que investem vão comprar um prédio para ficarem mais ricos ou se vão parar e pensar nos mais pobres. Se vamos enlouquecer e começar a partir tudo ou se vamos respirar fundo e tentar perceber, todos, o que estamos a viver e como vamos ultrapassar esta crise financeira e moral que se aproxima, imparável".

"A única coisa de que estou mais ou menos certo é que, para sobrevivermos a isto, vamos mesmo ter TODOS que ser melhores. Desta vez não vai ser o Cristiano Ronaldo, o António Costa, a Rosa Mota, os Amorins ou os Soares dos Santos, não vão ser os ricos ou a classe média ou os pobres, a elite ou a excelência ou os políticos a ganhar esta guerra. Não vai haver subsídio que resolva isto. Esta já é e vai continuar a ser uma guerra de todos. Porque quando o mundo voltar a uma espécie de normalidade, só sobreviveremos a isto se pensarmos mais nos outros do que em nós mesmos, se formos menos cruéis e mais humanos, se falarmos mais e acusarmos menos. Se formos melhores, e se nos ajudarmos".

Pode ler aqui o texto na íntegra.