Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Robert Smith, The Cure

Getty Images

Há 40 anos, os Cure entravam numa floresta escura. Foram os 17 segundos mais longos de sempre

A porta para a escuridão de Robert Smith e parceiros abria-se com “Seventeen Seconds”, lançado em abril de 1980 e antecedido pelo marcante single 'A Forest'. Este é também o disco de 'Play for Today' e 'M', canções envoltas num manto gótico que a banda aprofundaria depois e que marcaria uma geração. Regressamos ao negro arranque dos anos 80

Há exactamente 40 anos, os Cure estavam a caminho dos Estados Unidos, certamente excitados com a antecipação da sua estreia que aconteceu a 12 de Abril de 1980 no clube Emerald City, em Cherry Hill, uma pequena localidade de Camden County, Nova Jérsia. Na mesma noite, subiram também ao palco os Streets (muito provavelmente os mesmos que gravaram “Sniper” para a compilação Farewell to the Roxy e que secundaram bastas vezes os U.K. Subs) e os Dickies, pioneira banda punk de Los Angeles.

No alinhamento dessa primeira noite americana, os Cure incluíram temas como “Seventeen Seconds” (logo a abrir), “Play For Today”, “Secrets”, “In Your House”, “M”, “At Night” ou “A Forest”, integrando, portanto, quase a totalidade do material daquele que seria o seu segundo álbum, Seventeen Seconds, que aterraria nas lojas britânicas a 22 de abril, dois dias depois da última data nos Estados Unidos (que teve lugar no Underground Club, em Boston) e apenas três dias antes do arranque, em West Runton, de uma intensa digressão de 15 datas no Reino Unido - tournée que seria depois estendida com apresentações em França, Bélgica, Holanda e Alemanha e a que se seguiria ainda um alargado conjunto de datas na Nova Zelância e Austrália. Em 1980, os Cure de Robert Smith, Lol Tolhurst, Matthieu Hartley, e Simon Gallup não tinham tempo a perder e todos os minutos e segundos eram preciosos. Sobretudo, aqueles Seventeen Seconds.

Dos Easy Cure a “Killing an Arab”

Os Cure tinham-se estreado um par de anos antes com o single “Killing an Arab”, primeiro resultado da associação a Chris Parry, A&R da Polydor que viu potencial na demo que os miúdos de Crawley – à época todos com 19 anos – lhe tinham enviado e que os recrutou para serem uma espécie de ponta de lança da etiqueta que estava então a fundar, a Fiction.

Essa ligação surgiu depois de os Cure se terem libertado de um primeiro e infrutífero contrato com a editora alemã de disco e italo pop Ariola-Hansa, a que se tinham ligado quando ainda se chamavam Easy Cure. O selo germânico propôs-lhes uma direção que não se coadunava com a visão de Smith, tentando, por exemplo, que gravassem versões de David Bowie: “Eles davam-nos só velhas canções para gravarmos”, recordou Robert Smith nas páginas de Tem Imaginary Years (Omnibus Press, 1990).

“Nem podíamos acreditar. Estávamos em 1978 e pensávamos que seríamos capazes de gravar todas as novas canções que tínhamos escrito, e tudo o que eles queriam de nós era que fizéssemos versões de velhos temas banais de rock and roll. De repente, percebi que na verdade odiava as canções que andávamos a fazer e que mesmo que a Hansa gostasse delas não iríamos para a frente”.

Quando a Ariola-Hansa se recusou a ponderar “Killing an Arab” como single de estreia, Smith, revelando um discernimento para as questões de gestão de carreira bem mais avançado do que a sua tenra idade faria supor, usou isso como pretexto para denunciar o contrato, conseguindo desligar-se do acordo com os executivos alemães, reter os direitos dessas primeiras canções escritas e ainda ficar com o avanço que lhes tinha sido atribuído no bolso. Foi com esse dinheiro que gravaram as demos que chegaram às mãos de um bem mais crente Chris Parry, que imediatamente estabeleceu um acordo com a pequena Small Wonder para a edição do single que continha “Killing an Arab” no Lado A e “10:15 Saturday Night” no Lado B. O disco saiu ainda antes de 1978 chegar ao fim e causou suficiente impacto para colocar a banda no mapa.

Alguma imprensa ainda tentou ver alguma dimensão racista no título desse single inaugural que, no entanto, referenciava um episódio relatado nas páginas de O Estrangeiro do escritor francês Albert Camus. A literatura, sobretudo a mais fantasiosa de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas) ou JM Barrie (Peter Pan), inspirava os poemas de Smith que à época confessou ao Melody Maker que era por aí que andavam as suas deambulações poéticas: “Pelo menos metade das canções que escrevi até aqui são acerca da Terra do Nunca”.

Foi esse universo mais onírico e algo infantil que os Cure exploraram no material de Three Imaginary Boys, o álbum de estreia lançado com selo da Fiction a 8 de maio de 1979. Esse trabalho, produzido pelo próprio Chris Parry, foi gravado nos Morgan Studios em Londres ao longo de três sessões, mas, certamente impulsionados pela rápida descoberta de um mundo muito mais vasto do que aquele a que se tinham habituado em Crawley, pequeno lugar que o próprio Smith descreveu como “uma borbulha nos arredores de Croydon” (e com um som que através de uma carregada agenda de concertos estava em constante mutação), os Cure não demoraram a descartar uma estreia que continha material que nalguns casos tinha sido escrito quando os seus elementos ainda contavam apenas 15 ou 16 anos. “Éramos muito inspirados pelos Banshees e pelos Buzzcocks”, explicou Smith anos mais tarde, indicando que essa estreia ainda reflectia uma excessiva ingenuidade e uma colagem talvez demasiado óbvia a alguns modelos.

Three Imaginary Boys ainda foi reembalado, a pensar no mercado americano, como Boys Don’t Cry, sendo o alinhamento “apimentado” com o single que tinha o mesmo título, lançado em junho de 1979, e com “Jumping Someone Else’s Train”, mais um single, de Novembro desse mesmo ano. Mas o álbum “com que os Cure se tornariam realmente nos Cure”, Seventeen Seconds, só chegaria uns meses mais tarde.

A floresta em que o grupo se encontrou

De arquitectura esparsa e, como refere Simon Reynolds em Rip It Up and Start Again, “translúcida”, o segundo álbum dos Cure procurava, ainda que sem renegar o peso que horas seguidas a escutar criticamente Low de david Bowie lhes tinha depositado em cima, firmar uma identidade: letras com a esperteza típica dos 21 anos, fruto de leituras de mentes “difíceis” como Albert Camus (que volta a inspirar uma letra, “M”, neste caso) ou Franz Kafka, cujo quase-poema “At Night” inspira a canção do mesmo título.

Compreende-se: logo na primeira frase, o escritor checo declarava-se “perdido na noite”, uma ideia que assenta como uma luva a este registo feito de toadas dolentes, guitarras em espiral e uma voz que soa quase sempre como se tivesse sido registada no interior de um sonho, a debitar palavras suficientemente vagas para permitirem as mais díspares leituras por parte dos seus dedicados fãs.

Em 1981, no Melody Maker, Adam Sweeting admitia que Seventeen Seconds, quando recebido logo após Three Imaginary Boys, se apresentava como um choque: “Para trás tinham ficado as canções sucintas e vivaças, aqui substituídas por peças mais longas e menos definidas. O ambiente dominante era o de um castanho que sangrava para o cinzento”.

A difusa capa criada a partir de um trabalho do fotógrafo Andrew Douglas traduzia esse mesmo sentimento: parece uma paisagem vista da janela molhada pela chuva de um comboio em movimento – e parece, portanto, não admitir a existência de um mundo exterior, de que se tem apenas uma distorcida e vaga ideia, refletindo apenas um pensamento fundo e sombrio.

O tema “A Forest”, que tinha sido editado em single a 8 de abril de 1980, em vésperas, portanto, da partida para os Estados Unidos, era, sem dúvida, a peça central do álbum: a segunda faixa do lado B surgia logo após mais um puro exercício de sombrio “mood”, o instrumental “The Final Sound” que, como o que abria o alinhamento no Lado A, “A Reflection”, resultava de uma figura simples executada ao piano que aqui era, no entanto, tratado com efeitos até não ser mais do que uma espectral e abstracta textura.

Com apenas 52 segundos, este pedaço de recorte atmosférico termina quando a fita que foi disponibilizada para o gravar chega ao fim, um dos sinais do apertado orçamento de apenas 2 mil libras que se traduziu em sete dias para gravar e misturar todo o álbum. Logo depois chega o crescente drone grave de um sintetizador que suporta a memorável linha de guitarra de “A Forest” que começa por nos embalar numa certa dolência, antes de a bateria de Tolhurst sugerir uma outra cadência, mais nervosa e urgente.

Um dia antes do primeiro concerto no Reino Unido após o regresso da América, os Cure estrearam-se no Top of The Pops, com Robert vestido de preto e despido de emoções ou gestos amplos a ditar toda uma conduta e postura à geração que haveria de transformar os Cure num sério caso de culto. Sobre essa estreia diria ele, mais tarde, reflectir a sua atitude anti-pop e com um “desligamento pateta” que era exactamente como se sentiam na altura.

A música, co-produzida com Mike Hedges, tal como o restante material do álbum, soava bastante “atmosférica”, algo que Smith confessou ser o seu principal objectivo, afirmando ainda que era perfeitamente representativa do “som arquétipo dos Cure”.

Na verdade, tornar-se-ia o tema mais tocado pela banda ao vivo, tendo sido interpretada em mais de 1000 ocasiões diferentes, incluindo nas nove passagens que o grupo já soma pelo nosso país: “A Forest” escutou-se no antigo Estádio José Alvalade, em junho de 1989, e, trinta anos depois, marcou presença no concerto da última edição do NOS Alive. Quatro décadas volvidas sobre a sua estreia, esta floresta continua tão misteriosa e sombria como quando nos foi primeiramente apresentada.