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101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

Milú foi figura primeira de filmes nos anos 40 e 50. Arriscou carreira no Brasil, regressou e esteve quase vinte anos sem filmar. José Fonseca e Costa recuperou-a já veterana, desconstruindo a imagem cândida que preservava de filmes estereotipados. ‘A Minha Casinha’, tal como ela, faz parte de um tempo ingénuo e puro, faz parte de Portugal, mas pouca parte faz já de nós. Esta é a 16ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'A Minha Casinha', Milú
(1943)

O primeiro plano do filme ‘Kilas, o Mau da Fita’, de 1980, é o de uma senhora de 50 anos a chorar lamentosamente junto a uma janela com vista sobre o rio Tejo numa casa em Alcântara, Lisboa. A casa fora emprestada por um amigo de José Fonseca e Costa, que ali rodou, em dois momentos (a produção foi interrompida por falta de apoio e retomada mais tarde) uma das suas obras primas.

Milú há muito que não saía da reclusão a que se auto-impusera, depois de ter sido vedeta de filmes célebres nos anos 40 e 50, mas aceitaria aí, todavia, o seu último papel no cinema. Não saía de casa em ‘Kilas’ e o seu guarda roupa, composto apenas de roupões, só mudava na cor. Amargurada, triste, desencantada com a vida que levava Rui Tadeu (o Kilas, de assassino), já demasiado moldado pela Casa Pia de onde o resgatara (Já te esqueceste? Já te esqueceste que fui eu que te criei?). Era ainda uma mulher majestosa, magnética, e a sua interpretação como a ‘madrinha’ do protagonista (Mário Viegas) veio confirmar que Milú era bem mais que a figura gentil, frágil e bela dos filmes da sua juventude. Era enfim uma grande atriz.

Muitas décadas antes, em 1943, filmara aquele que viria a ser o seu grande êxito, ‘O Costa do Castelo’. A história intemporal de um rapaz rico que se fazia passar por pobre para afastar possíveis oportunistas, casando com quem, desprendida e verdadeiramente, o amava. O par Milú-Curado Ribeiro era um estereótipo de uma história de sempre, ainda que quem brilhe no filme seja sobretudo António Silva, como (bem de ver) o Costa do Castelo.

Num tempo em que as grandes figuras eram, na sua maioria, versáteis (faziam cinema, teatro, revista, e ainda cantavam), o cinema era o grande veículo de promoção de cantigas e dos seus intérpretes. Os espectadores ouviam no cinema as canções interpretadas pelos seus astros e saíam da sala a trauteá-las. A rádio ajudava depois à promoção – num tempo em que a produção musical era limitada (aos padrões atuais) e as canções, como aliás todos os bens, eram feitas para durar.

Muitas dessas canções serviam também para os atores terem o que cantar em apresentações em público - em números a solo ou partilhados. O cinema era insuflado pela canção, a canção pelo cinema, os atores pela música e os músicos pelo cinema e pelo teatro. Daí Lisboa ser, como Portugal, pequena, fechada e com códigos próprios de época.

Os filmes eram propaganda (direta ou dissimuladamente) de uma forma de estar pobrezinha, humilde e honesta. A Luisinha do ‘Costa do Castelo’ vivia numa pensão em que os senhorios eram como pais para ela (comme il faut). A menina sonhava com um príncipe encantado ou com uma vida de que nem ela sabia se queria escapar. Encantava os serões a cantar enquanto bordava naperons – num mundo paranoico em que, a meio de uma cena, de supetão, se ouvia uma orquestra a embalar o trinar da protagonista. Se era um golpe arriscado, pondo em causa a autenticidade ao filme e a história? Claro que não; a formatação era assim mesmo, tal como ‘A Minha Casinha’, canção coqueluche desse filme de Arthur Duarte.

‘A Minha Casinha’ era uma canção bela, melódica, comovente e orelhuda. Tocou nas rádios incessantemente e catapultou Milú para duas décadas de glória e como primeira figura da época de ouro do cinema português. Afinal, Milú não tinha a verve fadista de Hermínia Silva ou de Amália Rodrigues nem a tarimba teatral de Maria Matos ou Lurdes Norberto, mas tinha mais do que isso, porque, não tendo tanto de um talento só, tinha muito de todos eles.

Cantava, interpretava, tinha uma beleza serena, uma aparência submissa e condicente com os cânones da época. O ‘Costa do Castelo’ era o seu primeiro filme enquanto adulta (cantava e atuava desde a infância) e foi suficiente para a compararem a outras estrelas de Hollywood como Bette Davis, Grace Kelly ou Romy Schneider, ícones de beleza e com bons recursos de interpretação.

Que sim, a velha história: que se Milú tivesse nascido lá fora (lá fora depreende-se sempre ser os States) teria sido uma grande artista a nível mundial. E quem sabe se não teria sido mesmo? Ainda assim, arriscou uma carreira no Brasil, onde esteve 10 anos, país que acolhia as nossas glórias para encher teatros pelo Rio e São Paulo – numa época em que o trajeto se fazia no sentido inverso ao de hoje. Milú regressaria para quase não voltar.

Depois de vários anos de reclusão, acreditou, em 1980, que a ‘madrinha’ do Kilas iria desconstruir a diva da juventude; e tê-lo-á conseguido. Como em ‘O Costa do Castelo’, agora era a sua vez de fazer as vezes de senhoria de um senhor do norte, o Cosme, que elogiava os seus cozinhados e especialmente as suas sopas (Digo e direi; até ao dia, pouco provável, em que a senhora fizer uma sopa intragável) e com quem, versão do sobrinho Kilas, mantinha uma relação obscura.

Milú reapareceria muitos anos depois em versão ‘rock’, em versão Xutos e Pontapés – que a visitaram (à canção e a Milú pessoalmente) e pediram permissão para gravar a ‘sua’ casinha. Milú sentiu-se honrada e passou a ser ainda mais imortal de cada vez que os Xutos a tocam ainda hoje nos seus concertos.

Mas quasi sempre o lar dos pobres
Tem mais alegria

Ouvir também: 'Tentação' (1954). Do filme ‘Agora É que São Elas’. O fado viria a ser interpretado mais tarde por Amália Rodrigues.

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