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Rita Redshoes

Vitorino Coragem

Rita Redshoes: “Fui das pessoas que aceitaram ir ao TV Fest, podem crucificar-me. Agora nem 1 euro, nem 1 milhão. Para ninguém”

A artista escreveu um longo texto no Facebook, manifestando-se contrária à 'condenação' por parte de colegas da iniciativa do Ministério da Cultura, movimento que motivou o cancelamento da mesma. E fala em apedrejamento de colegas em praça pública. “O que assisti desde ontem nas redes sociais é quase poético, não fosse triste”

O festival de música TV Fest, uma iniciativa do Ministério da Cultura que deveria ter início na passada quinta-feira, foi suspenso, na sequência das dúvidas e críticas que surgiram no setor, e será agora repensado, disse a ministra Graça Fonseca, reagindo a uma petição com mais de 16 mil assinaturas que reclamava o cancelamento da iniciativa. "Como o setor reagiu tão rapidamente, com críticas, dúvidas e questões, nós vamos suspender [o TV Fest], ia estrear hoje, será suspenso hoje", afirmou a ministra.

Num longo texto publicado no Facebook, Rita Redshoes revela ter sido uma das artistas convidadas, tecendo duras críticas à comunidade musical portuguesa, por esta não ter sido capaz de aproveitar a oportunidade. Recorde-se que a verba canalizada para esta iniciativa, que visava recompensar músicos e outros trabalhadores da área, era de 1 milhão de euros. O TV Fest consistia em 120 atuações distribuídas por 30 emissões televisivas na RTP, com os primeiros quatro convidados a escolherem os seguintes, formando-se uma corrente.

"Eu fui uma das pessoas convidadas que aceitou participar no TV Fest. Podem crucificar-me já ou ler o meu texto até ao fim e crucificar-me na mesma", começa Rita Redshoes. "O que assisti desde ontem nas redes sociais é quase poético, não fosse triste, dada a altura do ano em que estamos, a Páscoa e toda a sua simbologia", continua.

A artista explica depois como a organização do evento chegou até si: "Quando me ligaram (...) foi-me dito o seguinte; queremos chegar ao máximo de pessoas possível, partindo dos artistas/bandas, a ideia é que o valor chegue também aos técnicos ou músicos que façam parte da equipa com quem costumam trabalhar. Queremos o mesmo número de mulheres e homens artistas, que todos ou quase todos os estilos musicais possam ser abrangidos e que geograficamente se diversifique. A ideia é criar uma rede em que sejam os próprios músicos os curadores do festival. O nomeado, escolhe o artista seguinte e decide com quem quer/deve partilhar o valor do cachet atribuído".

"Não querendo passar por boa samaritana, depois de ouvir a proposta, senti-me esperançada e feliz porque esta iniciativa permitir-me-ia ajudar pessoas/colegas que sei que estão a viver em situações bem mais duras do que a minha mas também dar-me uma almofada para dormir em paz, sem falhar aos meus compromissos pessoais e familiares", prossegue. "Mandei de imediato um e-mail à minha habitual equipa de estrada, dando conta desta oportunidade e partilhando a minha vontade de dividir parte do valor com eles (...) Todos responderam que preferiam que eu dividisse o valor por quem na equipa estivesse mais aflito, nomeadamente pessoas com filhos. E assim fiz as contas".

"Antes de adormecer, no último passeio pelas redes sociais, dou conta das inúmeras publicações acusatórias e de revolta escritas por colegas músicos, programadores e agentes", acrescenta a cantora e compositora

"Não, não há só 120 músicos em Portugal e sim, o dinheiro não chegaria a todos, como nunca irá chegar. Mas agora pergunto-me: seria solução dividir o tal milhão por todas as pessoas do sector? Daria o quê? 3 euros a cada um, com sorte...", aponta Rita, comentando depois as críticas em relação ao processo de seleção. "Nos concursos públicos, apoios a discos ou tournés, nas programações dos teatros e festas dos municípios, não acontece o mesmo problema? Não são incluídos uns e excluídos outros, sem que, na maior parte das vezes, os critérios sejam questionados? Pela primeira vez, seriam os músicos a fazer a selecção", alertando que muitos aceitaram "porque não têm na conta dinheiro que chegue para pagar a próxima renda de casa e no mês anterior também já não tinham". "Sei que agora nem 1 euro, nem 1 milhão. Para ninguém", remata a artista.

As críticas à classe fazem também parte da reflexão de Rita Redshoes: "Somos trabalhadores precários mas também almas precárias. Somos o caranguejo da história do vendedor de caranguejos que, em vez de ajudar o primeiro que se aventura a sair do balde empurrando-o para cima na esperança de todos poderem um dia vir igualmente a sair do balde, escolhe ser o que puxa o caranguejo aventureiro para baixo, não vá esse sobreviver e eu não".

"Amigos, todos temos telhados de vidro. Somos humanos. Uns mais do que outros. Quantos de vós gera postos de trabalho nesta indústria? Sim, é arte mas também é uma indústria, para o bem e para o mal. Quantos pensam habitualmente em pagar bem às pessoas com quem trabalham? A dar-lhes bom ambiente laboral? Quantos músicos não tocam em 10 bandas ao mesmo tempo, sem pensar que há colegas a precisar de tocar também? Quantos de nós pensam realmente no próximo e na classe? Alguns, mas está longe de serem todos aqueles que vieram apedrejar outros colegas em praça pública", conclui.