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Rita Redshoes, Marisa Liz, Benjamim, Ricardo Ribeiro

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“Nada pedi, nada roubei, nada escolhi e a nada enganei” A revolta dos artistas que iam participar no TV Fest

Músicos como Benjamim, Rita Redshoes ou Ricardo Ribeiro estavam confirmados na iniciativa do Ministério da Cultura, TV Fest, cancelada antes da exibição do primeiro programa na RTP. Perante o movimento que motivou a retirada do projeto, falam em “crucificação em praça pública” e ”insultos, aleivosias e ofensas”

O festival de música TV Fest, uma iniciativa do Ministério da Cultura que deveria ter início na passada quinta-feira, foi suspenso, na sequência das dúvidas e críticas que surgiram no setor, nomeadamente uma petição com mais de 20 mil assinaturas que reclamava o cancelamento da iniciativa. "Como o setor reagiu tão rapidamente, com críticas, dúvidas e questões, nós vamos suspender [o TV Fest], ia estrear hoje, será suspenso hoje", afirmou a ministra Graça Fonseca.

Alguns dos artistas que aceitaram participar na iniciativa reagiram entretanto nas redes sociais, insurgindo-se contra o que consideram ser um linchamento público. É o caso de Rita Redshoes: "Eu fui uma das pessoas convidadas que aceitou participar no TV Fest. Podem crucificar-me já ou ler o meu texto até ao fim e crucificar-me na mesma. O que assisti desde ontem nas redes sociais é quase poético, não fosse triste, dada a altura do ano em que estamos, a Páscoa e toda a sua simbologia". Rita Redshoes terá apagado entretanto o 'post', que poderá ler aqui quase na íntegra. Também Lena d'Água, que faria parte do alinhamento do programa, reagiu 'a quente' ao seu cancelamento e ao movimento que o suscitou, tendo entretanto apagado algumas publicações sobre o assunto.

Recorde-se que este projeto, criado pelo Governo no quadro de apoio, no âmbito da crise causada pela pandemia covid-19 e destinado "exclusivamente" ao setor da música, tinha estreia marcada para quinta-feira, no canal 444 dos quatro operadores de televisão por subscrição em Portugal, e na RTP Play. A mecânica era esta: em cada programa atuariam quatro músicos; os primeiros quatro, escolhidos pelo apresentador de televisão Júlio Isidro, foram Marisa Liz, Fernando Tordo, Rita Guerra e Ricardo Ribeiro, que por sua vez convidariam outros quatro, e daí em diante. Ao todo estavam previstas 120 atuações para 30 dias.

Ricardo Ribeiro foi outra voz contundente nas redes sociais, condenando o que considera um sentimento de "vingança" por parte da classe. "Nada tenho a justificar sobre o festival TV Fest nem a Deus nem aos Homens. Nada pedi, nada roubei, nada escolhi e a nada enganei. Prefiro a injustiça à vingança, a injustiça tarde ou cedo morre, a vingança não tem fim. Não me vingo nem por palavras nem actos de todos os insultos, aleivosias e ofensas que tantos disseram sobre mim", escreveu.

Num longo texto, Benjamim - outros dos artistas perfilados para a iniciativa - admite que, depois de convidado "por um colega de profissão", não retirou "grandes conclusões políticas imediatas". "Liguei às pessoas que trabalham comigo a dar a boa notícia de que iriam receber um cachet inesperado, algo que tanta falta lhes faz - alguns deles, tal como muitos de vocês, não sabem como irão pagar a renda se isto se prolongar por muito mais tempo. No dia seguinte filmei o que era suposto, na presença de um técnico extremamente simpático, equipado a rigor e com formação para lidar com esta doença maldita, depois de ter efectuado todos os procedimentos de desinfecção do material de filmagem e gravação. O pobre rapaz operou duas câmeras, fez iluminação, tratou do som e ainda me entrevistou", conta.

"Percebo que a ideia tenha muitos defeitos, e admito que alguns deles não foram óbvios na altura do convite. O que eu não percebo é a crucificação em praça pública de colegas de profissão que, tal como eu, aceitaram o mesmo convite porque achavam que estavam a receber um apoio destinado não só aos próprios mas a toda a gente que com eles trabalha. Também não considero aceitável a discussão pública ao nível do insulto, havendo músicos por quem eu tenho o maior respeito a serem apelidados de 'ladrões'", acrescenta o músico lisboeta. "Ninguém imagina que vai salvar toda a cultura com um programa de televisão", remata, antes de salientar que não irá aceitar "qualquer valor pela participação abortada neste programa".

A reação de Marisa Liz foi publicada em nome dos Amor Electro, a banda que a dá voz. "Aceitámos o convite com a melhor das intenções, era uma oportunidade para repartir o valor do cachet por toda a nossa equipa de estrada, que neste momento sofre como toda a comunidade cultural com uma dramática falta de trabalho. Esse foi o motivo que nos fez avançar para aquilo que julgávamos que seria uma actuação de 3 temas num canal de TV (...) Estamos na linha da frente na defesa dos direitos e deveres da nossa comunidade. Somos transparentes nas nossas decisões, procuramos consciencializar e, sobretudo, mostrar que o que faz um artista não é a roupa extravagante e nem vida glamorosa. Somos movidos pela musica mas em primeiro lugar somos movidos por princípios".