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Petição contra o TV Fest

Já são mais de 16 mil pessoas a pedir o cancelamento do festival TV Fest, criado pelo Ministério da Cultura em parceria com a RTP

Adensa-se a polémica em torno do festival televisivo exclusivamente dedicado à música portuguesa, para o qual o Ministério da Cultura dispõe de 1 milhão de euros, com estreia prevista para a noite de quinta-feira na RTP. Mais de 16 mil pessoas assinaram petição que pede o seu cancelamento

Uma petição pública 'online' pede o cancelamento imediato do TV Fest, festival de música portuguesa criado pelo Ministério da Cultura em conjunto com a RTP, previsto para começar esta quinta-feira, contava com mais de 16 mil assinaturas, às 14:30. Para os signatários da petição, lançada na tarde de quarta-feira, a realização do TV Fest, no presente estado de emergência, é "uma medida antidemocrática e não inclusiva".

O festival, criado no quadro de apoio ao setor da música, no âmbito da crise da pandemia covid-19, com um investimento financeiro público de um milhão de euros, prevê a realização de concertos disponibilizados, todas as noites, no canal 444 e na RTP Play, ao longo de um mês.

De acordo com o texto que sustenta a petição, a iniciativa do Ministério da Cultura "constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português que elimina curadores, diretores artísticos, músicos, técnicos e os demais, operando através de um jogo em corrente, exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos, que desclassifica a participação, representatividade e diversidade de um sector".

Os signatários estão contra o TV Fest, e qualquer medida "que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso". "A classe artística necessita de um reforço claro e objetivo à linha de apoio a artistas e entidades, de um mecanismo que reforce a sua proteção social perante o estado e legisle a sua contribuição à sociedade através do reconhecimento do seu estatuto de intermitência", argumenta ainda o texto.

Entre os signatários da petição constam artistas e agentes como Ana Miró (Sequin), Joaquim Durães (Lovers & Lollypops e festival Milhões de Festa), André Tentugal (We Trust), António Pedro Lopes (Festival Tremor), Pedro Chau (Tédio Boys, Parkinsons), Luís Severo, Rui Portulez (Valentim de Carvalho), entre outros. E são várias as vozes que se pronunciaram nas redes sociais contra a iniciativa, como a BLITZ já noticiou. Entre elas, Paulo Furtado (Legendary Tigerman), Rui Portulez (A&R da Valentim de Carvalho), Né Ladeiras, Alex Cortez (Rádio Macau e responsável pelo bar e sala de concertos Music Box, em Lisboa), António Pedro Lopes (do Festival Tremor), o encenador e realizador Jorge Silva Melo e Samuel Rego (ex-Diretor Geral das Artes), entre outros.

O evento, anunciado na terça-feira pela RTP, tem início anunciado para hoje, às 22:00, com Marisa Liz, Fernando Tordo, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra. A iniciativa está a suscitar reações nas redes sociais, como André Gago, que escreveu no Facebook: "Este Tv Fest será emitido no canal 444 e na RTPPlay, canal com publicidade paga, e será financiado pelo Ministério da Cultura. São, para já, um milhão de euros para emissões diárias com quatro artistas diferentes durante um mês, o que significa, se considerarmos que o mês tem 30 dias, 8333,33 euros por artista". "É óbvio, ou será óbvio, que os artistas repartirão essas verbas com os artistas e os técnicos que os acompanham neste formato particular. É óbvio, embora não se saiba exatamente como", comenta.

Também questiona como será feita a escolha dos artistas: "Para não se comprometer com possíveis acusações de nepótico dirigismo cultural, o Ministério delega em cada artista a escolha do artista que atuará seguidamente. Assim, será uma escolha entre amigos. Tenho amigos entre esses amigos, e espero mantê-los depois do que aqui digo, mas o método parece-me enviesado".

Outras vozes estão a marcar oposição a esta iniciativa da tutela nas redes sociais, como o ex-diretor-geral das Artes e ex-administrador do Teatro Nacional de São Carlos, Samuel Rego: "Há um ano [a ministra da Cultura] Graça Fonseca tentou impor Fernando Tordo na programação do Teatro Nacional de São Carlos. Depois de mudar a administração conseguiu o feito. Ver arquivos. É só 'googlar'. Agora distribui 1 milhão diretamente a dedo a troco de lhe agradecerem o dinheiro que não é dela. Colocar artistas a agradecer dinheiro é humilhante, incluo as palavras penosas de Júlio Isidro a agradecer 'pessoalmente' à ministra".

O presidente da Associação CulturXis e diretor do Ciclo de Concertos de Coimbra, Tiago Nunes, divulgou uma mensagem na qual estranha que a cadeia de artistas seja lançada pelo grupo que atuará hoje associado "à música ligeira". "Por que razão é que neste grupo de 4 magníficos não há representantes da chamada música clássica, de jazz e de outros géneros musicais? E por que razão os artistas de teatro e de outras formas de arte não podem beneficiar igualmente de um apoio de um milhão do Estado português?", questiona.

Num artigo de opinião publicado hoje no jornal Público, a atriz e encenadora Sara Barros Leitão também se insurge contra o festival, argumentando que "não é o Ministério da Cultura que deve fazer curadoria, nem ser promotor de festivais", e recorda que "a RTP recebe diretamente mais de metade do orçamento [do Estado] para a cultura". "Que sentido faz que a mesma tenha um reforço de um milhão para fazer aquilo que é já a sua missão, e para a qual já está a ser financiada?", sustenta.

A agência Lusa pediu informação, na terça e na quarta-feira, ao Ministério da Cultura, sobre a produção do festival e os seus mecanismos, que reiterou hoje, aguardando resposta. A Lusa pediu igualmente uma reação ao gabinete da ministra da Cultura sobre a petição, que respondeu que neste momento não tem qualquer indicação para a comentar.

Com Lusa