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Fernando Tordo, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro, Rita Guerra

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Vários músicos pedem o cancelamento do TV Fest, festival do Ministério da Cultura para apoiar a música portuguesa

O Ministério da Cultura criou um festival televisivo exclusivamente dedicado à música portuguesa em parceria com a RTP, canalizando para tal um orçamento de 1 milhão de euros. Estão previstos 120 concertos online e na televisão, a partir de quinta-feira, mas o formato e os critérios estão a causar forte polémica no meio

O festival TV Fest, anunciado esta quarta-feira pelo Governo, está a gerar polémica no meio musical, entre artistas e outros agentes culturais. Criado pelo Ministério da Cultura, este evento inteiramente dedicado à música portuguesa é feito em parceria com a RTP, arrancando esta quinta-feira, pelas 22h00, com transmissão diária durante pelo menos um mês no canal 444 das operadoras de cabo e no serviço RTP Play.

No centro da controvérsia - pode ler-se numa petição subscrita por mais de 16500 pessoas às 14h30 desta quinta-feira - está um "jogo em corrente exclusivo, e de círculo fechado", que desclassifica "a participação, representatividade e diversidade de um sector, constituindo uma medida antidemocrática e não inclusiva".

A 'mecânica' do programa é esta: Júlio Isidro, apresentador do programa, escolheu Marisa Liz, Fernando Tordo, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra como primeiros artistas convidados a atuar, cabendo depois a estes quatro músicos a seleção dos seguintes. Com quatro convidados em cada programa a escolher os quatro seguintes, gera-se uma corrente que, ao cabo dos primeiros 30 dias, irá perfazer um total de 120 atuações registadas nas casas dos artistas. As gravações já terão começado. A iniciativa visa também prestar apoio financeiro aos técnicos que acompanham os músicos. 1 milhão de euros é o orçamento destinado a esta iniciativa.

A oposição à iniciativa está plasmada no texto da petição que pede a sua anulação: "A realização do TV Fest, no presente estado de emergência, constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português que elimina curadores, diretores artísticos, músicos, técnicos e os demais, operando através de um jogo em corrente exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos, que desclassifica a participação, representatividade e diversidade de um sector, constituindo uma medida antidemocrática e não inclusiva".

"Pedimos o cancelamento imediato do TV Fest, e o cancelamento de qualquer medida que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso. A classe artística necessita de um reforço claro e objetivo à linha de apoio a artistas e entidades, de um mecanismo que reforce a sua proteção social perante o estado e legisle a sua contribuição à sociedade através do reconhecimento do seu estatuto de intermitência", continua o manifesto.

Abordando a verba canalizada pela o TV Fest, pede-se "transparência absoluta sobre todos os critérios de atribuição e distribuição de oportunidades e fundos públicos" e a necessidade de envolvimento dos agentes culturais do país porque, entendem os signatários da petição, "não cabe ao Estado criar eventos de cultura".

Entre os signatários da petição constam artistas e agentes como Ana Miró (Sequin), Joaquim Durães (Lovers & Lollypops e festival Milhões de Festa), André Tentugal (We Trust), António Pedro Lopes (Festival Tremor), Pedro Chau (Tédio Boys, Parkinsons), Luís Severo, Rui Portulez (Valentim de Carvalho), entre outros.

Nas redes sociais várias são as vozes contrárias ao TV Fest. Paulo Furtado (Legendary Tigerman): "A mim o que me preocupa são os artistas, técnicos e equipas que não têm como pagar a próxima refeição ou a próxima renda, e devia ser nesses que quem gere a cultura em Portugal devia pensar neste momento. E preocupa-me também que não haja um critério maior, nenhum, a não ser o da escolha pessoal de cada artista que é convidado a participar, na forma como se irá distribuir um milhão de euros por 120 estruturas num sector tão afectado quanto o da música. Não seria melhor distribuir esta verba por 500 estruturas ou mais? E ter a certeza que os mais fragilizados eram incluídos?"

Rui Portulez, A&R na Valentim de Carvalho, defende que "à semelhança de outras ocasiões em que foi necessário, [os músicos e restantes agentes do meio] podiam juntar-se, fazer um festival on-line, com um nib e uma linha de apoio, e pedir aos fãs, ao público, às pessoas que reconheçam a sua importância, que sejam solidários e os apoiem. Com dinheiro. O verdadeiro crowdfunding"

Né Ladeiras: "Que pena os músicos entrarem nesta farsa com o argumento de que não podem recusar trabalho... classe mais egoísta e desunida que há".

Alex Cortez, dos Rádio Macau: "Se isto fosse uma iniciativa da EDP, da NOS ou do Continente, tirava-lhes o chapéu... Não tenho nada contra os artistas que venham a participar, mas saúdo aqueles que já se mostraram indisponíveis para participar nesta palhaçada".

António Pedro Lopes, programador do festival Tremor: "Precisamos de 4000 assinaturas para que isto vá a discussão na Assembleia da República".

Jorge Silva Melo, encenador e cineasta, questiona: "A RTP precisa de mais um milhão de euros para fazer...serviço público?".

Luís Raimundo, dos Poppers e Keep Razors Sharp: "Um milhão para isto? Faria sentido se fosse para angariar fundos através de donativos para TODOS os que estão a ver o seu trabalho cancelado (não falo naturalmente só de músicos), agora enterrar dinheiro nesta farsa que não é mais do que uma imitação do que os verdadeiros criativos fazem no Instagram é medíocre".

Samuel Rego, ex-Diretor Geral das Artes: "Há um ano Graça Fonseca tentou impor Fernando Tordo na programação do Teatro Nacional de São Carlos. Depois de mudar a administração conseguiu o feito. (...) Agora distribui 1 milhão diretamente a dedo a troco de lhe agradecerem o dinheiro que não é dela. Colocar artistas a agradecer dinheiro é humilhante".