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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Carlos Paredes na foto usada na capa do álbum “Guitarra Portuguesa”

101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

Carlos Paredes era um compositor complexo e um homem complexo. O bem que fez resume a essência de onde está a nossa génese. Poderia servir de compêndio para a diferença entre o virtuosismo e a emoção. A sua história cruza música popular e erudita. Malangatana. E Big Macs. Esta é a 15ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Canção Verdes Anos', Carlos Paredes
(1962)

Os rios marcam os habitantes de cada cidade. O Tejo foi morada de inspiração para Carlos Paredes, mais que o seu Mondego de infância. O Tejo inspirou o fado, inspira Lisboa. E Lisboa, que viveu períodos de costas voltadas para o seu rio (porque sempre esteve e sempre passaria por lá), funde-se hoje com as suas águas.

Carlos Paredes era um homem complexo, ao contrário do ‘cliché’ de que era um homem simples. Era homem de duas vidas: racional, na profissão de que se orgulhava de ter, funcionário público, e impetuoso, quando se curvava e aconchegava a guitarra a si, como uma introspeção.

Poderia ter vivido uma vida só, condicente com o génio único de criador, mas a sua complexidade fazia-o plural. Era um homem bom, Carlos Paredes. Foi expulso da função pública por pertencer ao Partido Comunista; encarcerado, compunha variações só com os dedos, como um maestro de si próprio, sem guitarra, como se a guitarra dele fizesse parte, ainda que ausente. Quando foi reintegrado no Hospital de S. José, 15 anos depois, cruzou-se com o homem que o denunciara e cumprimentou-o. Não lhe teria custado porventura tratá-lo por amigo – como tratava toda a gente – porque a toda a gente dedicava essa condição (‘vamos tocar bem para não desapontar estes amigos’, dizia sempre antes de entrar em palco).

Só havia uma gramática coerente em Carlos Paredes – a gramática musical. Em tudo o mais, Carlos Paredes era um homem desarmónico. Foi o maior génio da guitarra portuguesa, mas continuava com um ar de quem pede desculpa de existir, como aludem alguns amigos. Foi o maior génio no instrumento que mais bem nos descreve, mas sempre considerou a guitarra portuguesa limitada, um instrumento menor (procurou mesmo introduzir algumas inovações que a tornassem mais completa, acrescentando uma corda suplementar para atenuar as deficiências nos tons mais baixos).

Subestimava-se. Talvez se esquecesse de que já não era criança e que pouco tinha a provar. Mas Carlos Paredes era uma criança grande. E, para si, tinha ainda muito que provar. Estava convicto de que quando deixasse de tocar ninguém voltaria a ouvir a sua guitarra

O homem dos mil dedos não tocava por dinheiro (como se, sejamos francos, algum artista em Portugal o faça por princípio). Mas Carlos Paredes não tocava por dinheiro. Amava demasiado a música para viver à custa dela. Ia trabalhar de autocarro mas, na sua alienação, observava pessoas. Observava povo. E quando alguém sugeria que ele se pudesse dedicar apenas à arte maior, respondia que não poderia deixar de ter aquela ocupação; se deixasse aquela ocupação, não faria a música que fazia.

Carlos Paredes podia ser um homem complexo, desarmónico, mas nunca foi um homem vulgar. Nunca foi vulgar nas palavras que dizia, na sua conduta, na sua música. Na sua música, sobretudo. Em palco, nunca vestiu a farda dos preceitos das pautas e das convenções. Bem desassossegados ficavam Fernando Alvim e Luísa Amaro quando o acompanhavam; tiveram de ter a capacidade de intuir, de amparar Paredes. De antecipar as fugas e as variações para onde os seus impulsos, como no jazz, o faziam livre.

Avesso a encores, desesperava o público. E desesperava quem com ele tocava. E quem o agenciava. O público pedia que tocasse mais uma. Nada. O roteiro estava traçado no seu dever. Mas fora de Portugal havia uma iguaria que o fazia ceder: Big Macs. Sim, Big Macs. Carlos Paredes cedia-se, cedia ao público, quando o seu agente lhe prometia um hambúrguer do MacDonald’s em troca de um encore. Só. Como um menino grande. Era o que era.

Aquela figura grande, de mãos eminentes, de unhas de marfim (ao ver aquelas unhas, Isabel II exclamou: ‘such incredible nails!’) foi um músico popular. Nunca se considerou um músico erudito porque a sua raiz estava naquilo que via. E o que via era povo. Portugal vê-se aflito para cuidar do seu presente, quanto mais homenagear passados ou antecipar homenagens a um futuro que ainda não chegou. Carlos Paredes foi todavia homenageado em vida e depois dela – porque afinal a sua guitarra continua a ser ouvida, invertendo as suas previsões.

Já muito doente, resignou-se à sua condição – que Carlos Paredes nunca se soubera revoltar. Às vezes, levavam-lhe a sua guitarra, construída e afinada pelo seu mestre, Gilberto Grácio, só para a poder afagar. Como se fizesse parte dele. E fazia. Como retrato do que fora a sua vida criativa, a sua existência confinou-se à ausência de palavras – mas desta vez sem música. Passou a falar ainda menos. Fechava os olhos, prostrado, quando não lhe interessava falar com alguém.

Ficou todavia radiante quando lhe disseram que Álvaro Cunhal o iria visitar. Considerava-o um amigo maior, pelas convicções que defendeu e pela luta que ele, Carlos Paredes, nunca tivera ânimo para travar. Sempre admirara os homens que o faziam, como Malangatana: no Teatro Gil Vicente, em Maputo, pediu ao pintor que pintasse enquanto ele tocava, ou vice-versa. Tornou-se um momento belo e sedutor. Iria repetir estes momentos de namoro entre artes – entre a sua arte e o bailado, a poesia, o canto.

Carlos Paredes não deixa saudades porque está presente. Porque, mais do que ser um homem do fado (que não era na essência), era um compositor que soube descrever Portugal. E ainda o descreve.

Se saudades deixa, "deixa as saudades das coisas felizes de levarmos connosco", como disse José Luís Peixoto.

Ouvir também: ‘Despertar’ (1963). O primeiro andamento é igual a ‘Verdes Anos’, mas vai por ali fora num assomo de virtuosismo e exigência técnica.

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