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Bill Withers em 1971

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Bill Withers (1938-2020): O discreto génio da soul que escreveu o hino de que o mundo precisa agora

Foi o mais próximo que os afro-americanos tiveram de um Bruce Springsteen (palavras de Questlove, dos Roots), um homem comum adorado pelos gigantes da música, graças às canções eternas que soube escrever. De 'Ain’t No Sunshine' a uma 'Lean on Me' que nunca fez tanto sentido como nos dias que correm. Um longo texto para recordá-lo

“Ele é um cantautor que esteve no topo das tabelas pop e que recebeu prémios, foi cantado por Barbra Streisand, loopado por Dr. Dre e continua a influenciar novas gerações de artistas. Mas, no entanto, muita gente continua a perguntar ‘Bill quê?’”. Em 2006, no arranque de um artigo de capa publicado pela já extinta Wax Poetics, dava-se conta desse mistério chamado Bill Withers. A comoção geral que na passada sexta-feira se sentiu quando a imprensa internacional começou a noticiar o desaparecimento de Bill Withers aos 81 anos, excede em muito o real estatuto de que gozava desde que, em meados dos anos 80, se despediu da música, amargurado e desiludido. Bill era, definitivamente, uma carta fora do baralho da indústria, um desalinhado que nunca se enquadrou realmente, o que talvez ajude a explicar que não haja uma linha sobre ele no monumental tomo Sweet Soul Music, retrato definitivo de um género assinado pelo jornalista e escritor Peter Guralnick. Da mesma forma, o bookazine que a Uncut lançou há um par de anos e que se constitui como um guia para a soul não dedica uma única das suas páginas ao homem que escreveu e cantou temas como “Lean on Me”, “Lovely Day” ou “Ain’t No Sunshine”, falha que só se pode atribuir ao facto de, nesta era de permanente revisitação e celebração do passado, de que hoje parecemos conhecer até os mais inescrutáveis recantos graças a um constante fluxo de reedições, Bill Withers poder eventualmente ter ficado esquecido pela indústria que ele mesmo renegou.

A Sony Music, que detém os direitos da discografia de Bill Withers, editou em 2012 uma pequena caixa com os 9 CDs apresentados como mini-réplicas das edições originais em vinil, uma edição demasiado económica e simples para o que certamente o génio do artista justificaria, mas que talvez reflectisse o facto de alguns anos antes Bill ter conseguido resgatar dos cofres da multinacional os inéditos que ainda constavam dos seus arquivos, limitando assim severamente a possibilidade de alguma reedição expandida. E mesmo o hoje tão proveitoso relançamento em vinil de material de fundo de catálogo só aconteceu, no caso de Withers, porque pequenos selos especializados em reedições, que vão aproveitando o que as majors não manifestam interesse em relançar, recolocaram no mercado os discos-chave da sua discografia: Just As I Am, Still Bill, Live at Carnegie Hall e +’Justments, os primeiros trabalhos lançados pela indie Sussex de Clarence Avant, foram todos reeditados pela Music On Vinyl entre 2012 e 2014, a mesma editora que em 2017 ainda recuperou os três primeiros títulos do período seguinte, já com ligação à Columbia, Making Music, Naked & Warm e Menagerie. Mas esses discretos relançamentos por parte de um selo especializado são meras e pontuais capitalizações no corrente “renascimento” do vinil não se podendo enquadrar, na verdade, com algum eventual e mais sustentado esforço de recontextualização no presente desta importante obra.

É verdade que em 2009 Bill foi objecto de um revelador documentário, Still Bill, mas mesmo esse extraordinário olhar sobre a sua carreira surgiu do exterior, sendo assinado por Alex Vlack e Damani Baker, dois fãs e cineastas independentes cuja curiosidade não nasceu de alguma encomenda corporativa que procurasse relançar algum tipo de atenção calculista sobre uma velha glória da música, mas, ao invés, resolver o enigma que a sua carreira representava: “A maior parte das pessoas pensa que a fama é sempre o maior objectivo de qualquer artista e é claro que ele alcançou isso”, explicava Baker à Write On Music em 2010, quando o DVD de Still Bill foi editado. “Mas ele também se sentia muito confortável com o facto de não ser parado na rua e de não ser um ícone famoso, daqueles que ainda andam na estrada a fazer digressões mesmo estando já na casa dos 70 anos”.

No já referido artigo da Wax Poetics, assinado por Dan Nishimoto para o número 16 da revista, publicado em Abril de 2006, escrevia-se ainda, respondendo à pergunta imposta pela tal reacção generalizada de desconhecimento (“Bill quê?...), que talvez o artista preferisse as coisas assim: “O homem reconhecido por aquela voz de veludo e gravilha, pelo ritmo de fazer bater o pé e clássicos de rádio variados é, de facto, discreto e privado a um nível que nos deixa estupefactos. Quando é questionado sobre a sua vida, ele fala de forma oblíqua e vai tecendo longas tangentes. Expressa desdém pela indústria da música e pela atenção da imprensa. E no entanto, tal como a sua música, ele é caloroso e arrebatador”.

Bill Withers em fevereiro de 2020

Bill Withers em fevereiro de 2020

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Da Virginia rural à Los Angeles urbana

Bill Withers nasceu em Slab Fork, Virginia Ocidental, a 4 de Julho de 1938, em vésperas, portanto, da entrada da América na Segunda Guerra Mundial. Mais novo de seis filhos, Bill cresceu atormentado por uma gaguez severa que o levou a isolar-se e a desenvolver uma personalidade introvertida. A perda do pai quando tinha 13 anos e a procura de uma estrutura em que se pudesse integrar levaram-no a ingressar na Marinha quando contava apenas 17 anos, tendo passado os 9 anos seguintes embarcado, período que usou para procurar dominar a gaguez e ultrapassar as inseguranças associadas a esse problema. Bill Withers foi desmobilizado quando a década de 60 ia a meio e, de acordo com os seus próprios relatos, mesmo não tendo qualquer tipo de inclinação musical prévia, considerou a música como possível carreira quando ouviu um gerente de um bar a queixar-se dos dois mil dólares semanais que pagava a um músico delinquente para tocar todas as noites no seu estabelecimento. Ganhar a vida com uma guitarra nas mãos parecia um caminho bem mais recompensador do que os empregos como mecânico de aviões ou distribuidor de leite que tinha arranjado após abandonar a carreira militar.

Foi em 1967 que Bill chegou a Los Angeles, quando contava já 29 anos, idade provavelmente um pouco tardia para quem procurava ainda dar os primeiros passos na música. Conhecimentos feitos entretanto, nomeadamente Ray Jackson, membro da Watts 103rd Street Rhythm Band comandada por Charles Wright, e Forrest Hamilton, filho do baterista de jazz Chico Hamilton, levaram-no até Clarence Avant que se deixou convencer pelas maquetes que Withers foi gravando no intervalo dos seus empregos e enquanto ia aperfeiçoando os seus skills com pontuais apresentações em bares e clubes nocturnos. Uma das canções nessas demos era “Ain’t no Sunshine”, o que talvez ajude a explicar o facto de Avant ter encomendado a produção do trabalho de estreia de Withers ao grande Booker T. Jones, histórico líder dos M.G.’s, grupo que definiu o som da soul de Memphis e que funcionou como house band em incontáveis sessões da Stax.

Booker T reuniu uma equipa de luxo para dar corpo às canções simples que Bill escrevia à guitarra: membros dos M.G.’s como o grande baixista Donald Dunn, ou o incrível baterista Al Jackson Jr, conhecido como “o metrónomo humano” e um dos bateristas mais samplados de sempre, ou a percussionista Bobbye Hall cujos créditos incluíam, antes desta sessão com Booker T., trabalho em “Me and Bobby McGee” de Janis Joplin e, logo depois, das suas contribuições para a estreia de Withers, sofisticadas pontuações rítmicas em “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” de Marvin Gaye ou “Sweet Seasons” de Carole King. Outras “feras” presentes na sessão foram: Chris Ethridge, baixista dos Flying Burrito Brothers que escreveu bastante com Gram Parsons e que pertencia à realeza dos músicos de estúdio recrutados para sessões country de gente como Leon Russell, Delaney Bramlett, Ry Cooder, Randy Newman ou Linda Ronstadt e Willie Nelson, entre tantos outros; o baterista Jim Keltner, que tocou com toda a gente. de Dylan e Joe Cocker a George Harrison, John Lennon e até Ringo Starr; e ainda um tal Stephen Stills, companheiro de Neil Young nos Buffalo Springfield e mais tarde nos Crosby, Stills, Nash & Young que acedeu a preencher a ausência de Steve Cropper dos M.G.’s nestas gravações. Músicos de elite, portanto, que ajudaram a fazer Just As I Am, o álbum de estreia de Bill Withers que incluía, além de “Ain’t No Sunshine”, clássicos como “Moanin’ and Groanin’”, “Do It Good” ou, pois claro, a fabulosa “Grandma’s Hands” que Dr. Dre imortalizou usando o seu intro para o mega-clássico “No Diggity” dos Blackstreet.

Editado em Maio de 1971, Just As I Am era quase um manifesto de individualidade, com Withers a afirmar-se igualmente à vontade como parte do então nascente movimento de soul autoral sintonizado com o sentimento geral emanado pelo Movimento dos Direitos Civis, recolhendo ainda assim basta inspiração no gospel, na folk, nos blues e na country (“Everybody’s Talkin’” soa muito mais a Nashville do que a Los Angeles...). Mas o que é hoje visto como um incontestável clássico não teve uma gestação fácil: Clarence Avant podia acreditar em Bill Withers, mas isso não significava que a Sussex nadasse em dinheiro e o budget de produção de Just As I Am fosse generoso. Na entrevista para a Wax Poetics em 2006, o cantor revelou como é que o álbum aconteceu: “Em primeiro lugar, eu estava com uma pequena companhia que na verdade nem tinha dinheiro suficiente para fazer o álbum. E de tal maneira era assim que íamos a meio dos trabalhos, ou seja, duas sessões de três horas, quando fomos expulsos do estúdio porque as contas ainda não tinham sido pagas. Cerca de seis meses mais tarde, recebi uma chamada do Booker T. e tivemos que fazer toda a segunda metade do álbum, cerca de seis canções, numa sessão de três horas. Por isso não tive tempo para grandes reescritas de material. O álbum foi todo feito em três sessões de três horas cada...”

Na mesma entrevista, Bill Withers confessa que não sabia realmente tocar guitarra ou piano, mas que usava os instrumentos intuitivamente para escrever as canções, “arranhando-os” apenas o suficiente para se conseguir expressar. Mas essa é, porém, uma característica que ajuda a entender o carácter transparente e genuíno da sua arte, capaz de quebrar regras simplesmente porque as ignorava, como em “Ain’t No Sunshine”, canção marcada com a repetição incessante e quase desesperada da expressão “I know”: “Quando mostrei a canção a Booker T. no meu apartamento”, recordava Bill nas notas impressas no booklet da já mencionada caixa The Complete Sussex and Columbia Albums, “pedi-lhe desculpa por ainda não ter escrito as palavras para a bridge e por repetir ‘I know’ vezes sem conta. E ele disse: ‘Deixa ficar assim’. Percebi aí que nos iríamos dar bem”.

Bill tranquilo, o Springsteen negro

Ainda assim, o álbum seguinte, Still Bill, foi feito em condições muito diferentes: gravado no famoso Record Plant, em Los Angeles, um claro upgrade em relação às nove horas passadas no Sunset Sound para registar a estreia, este álbum contou com a banda que Bill tinha montado para o acompanhar ao vivo – o lendário James Gadson, responsável por alguns dos mais memoráveis breaks de bateria de sempre e que tem um currículo que inclui sessões para os Temptations, Herbie Hancock ou Quincy Jones, e ainda gente da Watts 103rd Street Rhythm Band como Ray Jackson nos teclados, incluindo o icónico Clavinet, Melvin Dunlap no baixo e Benorce Blackmon na guitarra. Além desses músicos só mesmo a percussionista Bobbye Hall transitou das sessões do registo de estreia. A produção foi assegurada pelos próprios músicos, com Withers à cabeça, dispensando-se assim uma visão exterior: “O meu segundo álbum foi, provavelmente, a minha experiência de gravação favorita porque estava a tocar com amigos e tínhamos basicamente delineado tudo na garagem do James Gadson. Foi só uma questão de duplicar o que tínhamos ensaiado na garagem. Foi a experiência mais relaxada que tive porque provavelmente completámos o álbum todo em duas semanas”.

E que álbum: inclui os clássicos “Who Is He (And What Is he To You)”, “Use Me” e o verdadeiro hino “Lean on Me”, tema que, tal como escrevia Daniel Kreps ontem na Rolling Stone, funcionou como uma espécie de bálsamo para alma em múltiplos momentos trágicos: depois dos “devastadores terremotos do Haiti em 2010”, “após os furacões Irma e Harvey, tal como assumido por Stevie Wonder.” O autor prossegue: “E à medida que a nação enfrenta a sua maior crise num século – a pandemia coronavírus – ‘Lean on me’ volta a marcar presença, um hino para as massas auto-isoladas e uma celebração dos profissionais de saúde que arriscam as vidas para salvar outros”. O artigo indica depois vários exemplos de como a canção originalmente lançada há quase meio século tem sido usada para expressar essa solidariedade.

Outro dos grandes momentos do álbum, a introdução de James Gadson na bateria para o tema “Kissing My Love”, foi igualmente estruturante no hip hop, tendo sido samplada para inúmeras canções de artistas como Dr. Dre, J Cole, Eric B. and Rakim, Jungle Brothers, Redman, Scarface, Goodie Mob, 2 Pac ou, noutras zonas musicais, Thievery Corporation e Kruder & Dorfmeister, prova definitiva de que esse disco constava nas colecções de várias gerações de produtores. E, talvez até de forma surpreendente, o próprio Bill Withers reconhecia a validade artística deste gesto de transformação de excertos do passado em algo de novo: “É uma forma de arte interessante. E pessoas como Dr. Dre, Kanye West ou Teddy Riley são muito criativas. Há que dar-lhes crédito”. Questlove, o icónico baterista dos Roots que é visto como um dos porta-vozes desta cultura, em declarações para o obituário da Rolling Stone não teve dúvidas e classificou-o como uma referência incontornável: “Ele foi o último homem comum afro-americano. O salto vertical de Jordan tem que ser mais alto do que todos os outros. Michael Jackson tem que desafiar a gravidade. Mas no reverso da medalha, somo sbastas vezes vistos como animais primitivos. Raramente nos ficamos a meio. Bill Withers é o que de mais próximo os negros tiveram de alguém como Bruce Springsteen”.

Essa dimensão humana podia ser arrebatadora, como tão bem demonstrado no concerto no Carnegie Hall, em Nova Iorque, registado em Outubro de 1972 com a mesma banda que gravou Still Bill e editado em Abril de 1973. O famoso crítico norte-americano Robert Christgau, escreveu que “escutando Withers a encorajar o público enquanto o baterista James Gadson e o pianista Ray Jackson conduzem o seu estupendo combo realmente destrói a aura middle of the road do homem – mais ninguém na música combina ritmos duros e uma sensualidade calorosa de forma tão sabedora. Um gritador natural que só levanta a voz quando é necessário e um falador ironicamente moralista saltam à vista mesmo quando não o conseguem ver a franzir subtilmente o sobrolho nas suas discretas roupas desportivas de sábado á noite. Duas das cinco novas canções apoiam-se em temas de amizade o que talvez seja um pouco demais, mas as mais antigas são vivas de facto. Momento de arrasar: o encore, “Harlem/Cold Baloney”, em todos os seus gloriosos 13 minutos”.

Da indie Sussex para a major CBS

Bill Withers ainda lançou mais um álbum para a Sussex, +Justments, que tinha produção repartida pelo próprio com Melvin Dunlap e James Gadson e que incluía o modesto hit “The Same Love That Made Me Laugh” e, no tema que encerrava o alinhamento, “Railroad Man”, um pequeno cameo do cantor Jose Feliciano que assim retribuía a presença de Withers no seu álbum de 1973 Compartments. Seguiu-se a ligação à CBS/Columbia, iniciada em 1975 com o álbum Making Music, cuja ficha técnica, que listava contributos de Ralph McDonald, Paul Riser e Ernie Watts, Harvey Mason, Dave Grusin, Ray Parker Jr. ou até James Jamerson (o mítico baixista que se escuta em quase todos os êxitos do período clássico da Motown). Com arranjos a apontarem a um território mais “adulto”, com expansivos arranjos de cordas e uma aura “light jazz” (“I Love You Dawn”) apontada à programação nocturna de rádios Top 40, este álbum não gerou hits assinaláveis. Ainda assim, Bill Withers prosseguiu caminho, com o material que escrevia a continuar a beneficiar do seu particular toque, bem como de um olhar sincero sobre o mundo e sobre as questões do coração, como bem demonstrado em temas como “Where You Are” ou “If I Didn’t Mean You Well”, incluídos em Naked & warm, de 1976, mais um trabalho de smooth jazz para as FMs para que, entre outros grandes músicos, contribuiu a harpista Dorothy Ashby.

Menagerie, o álbum seguinte, lançado em 1977, beneficiava de mais um pequeno toque do génio de Bill Withers, a belíssima “Lovely Day”, um hino ao amor e ao optimismo que consegue ser a banda sonora perfeita para manhãs de domingo carregadas de sol. Que tenha sido alvo de versões por parte de gente tão distinta quanto os Maroon 5, Luther Vandross, Jill Scott, Alt-J, o Robert Glasper Experiment, Diana Ross, José James ou Lee Ritenour, entre tantos outros, mostra bem como Withers teve essa rara capacidade de escrever material de “reportório”, canções a que outros artistas gostam de se entregar, sem reservas.

Em 1978, Bill Withers lançou ‘Bout Love, disco comprometido por uma produção mais genérica que não procurava a diferença, antes a integração no mais inócuo espírito da época através da produção assinada por Paul Smith (ainda assim, o importante guitarrista Wah Wah Watson foi um dos que foi chamado para as sessões). O cantor só voltaria a gravar mais um álbum, Watching You Watching Me, lançado apenas em 1985, após uma longa pausa que foi decisiva para o seu posterior abandono dos palcos e dos estúdios. “Não fui eu que quis fazer essa pausa”, contava Withers em 2006 à Wax Poetics. “A verdade é que não conseguia voltar ao estúdio. Não conseguia que ninguém me atendesse o telefone. Costumava ligar a Mickey Eichner, que era um dos A&Rs da CBS. Liguei-lhe por dois anos e ele nunca me atendia. Mas habituei-me a não gravar. E, portanto, esse foi o fim da minha carreira regular de estúdio. Pensei que já não valia a pena”.

Quando o jornalista contrapôs que ainda assim esse período rendeu algumas canções de enorme optimismo, como “Lovely Day” ou “Let me Be The One You Need” (os temas de abertura e fecho de Menagerie, respectivamente), Withers não poupou no desalento quando deu a sua resposta: “Sim, mas tem que compreender uma coisa: ‘Lovely Day’ demorou 20 anos a escrever. Nessa época já ninguém estava satisfeito com o que eu andava a fazer. A única reacção que eu recebia era de desapontamento. O A&R chateava-me para eu fazer uma versão do ‘In The Ghetto’ do Elvis Presley. Consegue imaginar tamanha porcaria? Foi quando eu me deparei com esse grande impasse cultural. Um monte de gente que tinha crescido no Vale de São Fernando, na Califórnia, ou em Scarsdale, Nova Iorque, a tentar dizer-me como é que eu devia ser este tipo rural do Sul”.

Nessa longa resposta, provavelmente de uma das últimas grandes entrevistas que Withers concedeu, ainda ressalta a mágoa que o artista desenvolveu em relação à indústria em que se viu envolvido quando pegou numa guitarra: “E por outro lado, nunca me socializei como uma pessoa da música. Eu estava integrado num mundo muito prático. E depois aparecem estas pessoas que começam a olhar para nós. Eu chamava-lhes ‘blacksperts’, tipos que eram supostos ter alguma espécie de afinidade com homens negros, que pensavam que todos falávamos com aquele jargão cheio de pinta. Isso dava-me cabo da cabeça. Por isso, eu não me desliguei por não gostar de música ou por ter deixado de ter ideias. Eu estava apenas chateado. Desapareçam-me da frente – deixem-me em paz. Quem me dera ter sido mais tolerante ou mais forte nessas áreas, mas não fui. Tirou-me todo o gozo... parecia que essa parte do meu intelecto não interessava a essa gente. Eles queriam apenas que eu fizesse algo que os levasse a dançar. E eu nunca fui assim”.

No passado dia 30 de Março, num hospital de Los Angeles, o coração do homem que sempre o teve na garganta parou de funcionar. E o génio que demasiado cedo se cansou das maquinações desta indústria desapareceu, aos 81 anos, deixando para trás uma discografia imaculada que compreende apenas 8 registos de estúdio, mais um gravado ao vivo. Mas a sua obra é bem mais ampla e espraia-se pelas discografias de tantos outros artistas que nele reconheceram um genuíno par, alguém capaz de escrever para as gerações, para o que foi o seu presente e para o futuro que, entretanto, chegou. De Gil Scott-Heron a Mick Jagger, de Aaron Neville a Michael Jackson e Joe Cocker, dos Temptations e Isaac Hayes a Gladys Knight, de John Legend a Sheryl Crow, de Joe Bonamassa a Shirley Bassey e de Aretha Franklin a Queen Latifah incontáveis foram os artistas que fizeram questão de juntar a sua voz à deste discreto homem comum que um dia se cansou da indústria, mas nunca esqueceu o seu amor pela música.