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101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Estou Além', António Variações
(1983)

Escreveu uma música para a sua mãe. Não sabia que nome lhe havia de dar. E deu-lhe o nome mais bonito que para si havia: 'Deolinda de Jesus'. Já depois de ter feito a 4.ª classe e a comunhão solene. Já depois de ter cumprido os preceitos de uma terra arreigada a costumes. Já depois de ter percebido que Amares era pequeno para si (o universo era pequeno para si) disse a Deolinda de Jesus, sua mãe, que ia para Lisboa.

Depois de ter assentado praça, assentou no Imaviz e aí fez vida entre tesouras. Um dia, Júlio Isidro entrega-se às mãos de António Ribeiro e este, enfadado com o corte tradicional que o mago da ‘Febre de Sábado de Manhã’ pedira, sussurrou-lhe: 'sabe que eu canto'. 'E escrevo'. E não cantava. Nem escrevia. Melhor: não cantava nem escrevia nada do que se tinha cantado ou escrito até então.

A voz acompanha-se tradicionalmente à guitarra, ao piano, ao baixo, mas a voz de António marca-se com bateria. Bateria? Era a única forma de cadenciar a voz de quem não sabia cantar mas tinha uma orquestra em si. António precisava de uns Variações, António e os Variações. E os Variações seriam depois alguns dos GNR e dos Heróis do Mar. Que souberam perceber a música do António antes dele. E fizeram do António o António Variações. E produtores. Que fizeram do António Variações um fenómeno.

E quem era António Variações? Alguém entre Amares e Amesterdão? Entre Braga e Nova Iorque? Entre Lisboa e Marte? Entre Amália e David Bowie? Porventura não. Porventura alguém que era coerente com a sua própria loucura. António Variações era uma personagem de si mesmo, coerente. Um homem para quem a excentricidade era o seu rame-rame. Para quem vestir collants amarelos e turbante era a sua rotina entediante.

Porque António Variações era um excêntrico de uma só vida. Porque a vida que ansiava era o de uma Lisboa (Amares, Braga, nunca comportarão collants e turbantes) com uma noite semelhante à de Nova Iorque, semelhante à de Amesterdão. Uma noite mais do que o Frágil de Manuel Reis, uma noite mais do que o ‘Noites Longas’ do Palácio Almada Carvalhais. Uma noite mais do que a noite do Zé da Guiné ou da Guida Gorda. Essa não era a sua noite mas tinha de assentar rotinas numa noite qualquer. A sua noite era a do ‘Estar além’.

Sabia onde queria estar e não podia estar lá, porque lá, apesar de se sentir entre os seus, não era o Variações. A sua noite perfeita seria passada entre Lou Reeds, Candy Darlings, Nicos, Basquiats ou Pallembergs. Mas aí seria apenas mais um dos loucos da Factory de Andy Warhol e passaria despercebido. E António Variações não passava despercebido nem queria passar despercebido.

Quem olhava para aquela diva de plumas e barba oxigenada aguardava por um ser condicente com aquele glamour, com aquela excentricidade. Mas Variações não conseguia corresponder em pleno. Tinha chegado ontem de Amares. Trazia ainda a pronúncia sibilada da gente do Minho. Tinha-se despedido ontem de Deolinda de Jesus. Tinha ainda no bolso um terço, um santinho e um livro de orações. Não pretendendo regressar, trazia muito daquela terra, daquela gente.

E trazia simplicidade. E era boa gente, boa pessoa – e isso umas plumas, uma voz ondulante e uma dança estrambótica não disfarçam. Pediu humildemente a Amália para cantar ‘Povo que Lavas no Rio’ do seu álbum ‘Busto’. E emocionava-se de cada vez que se sentia Amália. Todos nós temos Amália na voz.

António viveu 39 anos e António Variações varreu Portugal em dois. As velhinhas de negro, acostumadas a ouvir Dino Meira nas festas da terra, gostavam de António Variações. A Lisboa pseudo-avant-garde de Miguel Esteves Cardoso, de Anamar, de Maria João Sopa, de Pedro Cabrita Reis, de Leonaldo de Almeida, que era uma Lisboa provinciana, fechada, elitista – suportava Variações. Faltava a Variações, no entender dessa Lisboa, intelectualidade, menos povo. Mas Variações era povo e pirava-se para Braga ou para Nova Iorque de cada vez que desdenhavam dele.

Variações estava mesmo além. Como na canção que o definia. Variações era o Variações do ‘Estou Além’ (sempre esta sensação que estou a perder) mas era também o Variações da ‘Canção do Engate’, da ‘Erva Daninha’ e do ‘Sempre Ausente’. Talvez fosse isso que o definia. Alguém sempre ausente, mas sempre genuíno e de olhos serenos.

Já no hospital, já muito doente, recebeu a capa do seu último álbum pelas mãos dos músicos que o tinham compreendido. Gostou. Jurou que se iria recompor. Que havia muito ainda que fazer. Não teve tempo para mais cantar nem para se bambolear nos estrados das festas do povo, para o povo. Morreria cedo e Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Era um homem à frente do seu tempo? Nada. Variações não era homem de tempo algum. Mas o nosso tempo, todavia, ainda não chegou a António Variações.

Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só
Estou bem aonde eu não estou

Ouvir também: 'Visões-ficções (Nostradamus)' (1982).

A voz de Variações acompanhada só com a mestria de Vítor Rua num sintetizador complexo que nunca ninguém até aí se atrevera a tocar (e nunca mais ninguém porventura se atreveria a tocar a partir daí)

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