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Rita Carmo

Sérgio Godinho: “Que um destes dias possamos dançar livremente neste muito mundo que, quer se queira quer não, continua a ser só um”

Uma mensagem de Sérgio Godinho. E uma canção antiga para uma “nova e tremenda ameaça

Sérgio Godinho partilhou uma mensagem no Facebook, aludindo à ameaça do Covid-19 que, por estes dias, obriga a um afastamento social entre os indivíduos, e ligando-a a um novo sentido para a sua canção 'Dancemos no Mundo', que lançou há 20 anos.

"O sentido de uma letra de canção vai-se actualizando conforme os tempos. Quando compus o 'Dancemos no Mundo', falava dos casais separados por barreiras rácicas, políticas, religiosas, ideológicas. E o seu desejo continuado de poderem simplesmente dançar juntos, neste mundo que é só um (diz-se…). Esse desejo está agora coartado por esta nova e tremenda ameaça. Mas continua a ser um desiderato actual, legítimo, e mais – premente. Que um destes dias (quando?) possamos dançar livremente neste muito mundo que, quer se queira quer não, continua a ser só um".

Recorde a letra da canção integrada no álbum "Lupa", de 2000, assinada por Sérgio Godinho:

Isto é como tudo
não há-de ser nada
a minha namorada
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas
separam-nos credos
e creio que medos
e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos
são pântanos, lodos

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado
(que seja maldito)
amor favorito
não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo
o sol-posto de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço
Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatwas
pai-nossos e datas
e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua
luz na minha rua

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só