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Bob Dylan: 22 de março | Altice Arena, Lisboa

17 minutos deste mundo, dos Beatles aos assassinos. Bob Dylan, como é que foste capaz?

Dos Beatles a Marilyn Monroe, de Stevie Knicks ao fora-da-lei Bugsy Siegel: a nova e épica canção de Bob Dylan, 'Murder Most Foul' é um mural e um gigante labirinto. Músicos e cantores, bandas e festivais, canções e filmes, gangsters e assassinos: a história moderna da América cabe dentro deste puzzle. Desmontá-lo é um prazer

Sem que nada o indicasse, Bob Dylan interrompe o silêncio de novas canções que se prolongava já há oito anos com a edição de 'Murder Most Foul', um tema épico de quase 17 minutos (!) que se apresenta como uma espécie de balada sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy em 1963, mas que se desenvolve como um grande mural que referencia músicos, canções, filmes, escritores, acontecimentos e figuras do folclore americano. Numa declaração citada pela Rolling Stone, Dylan esclareceu que se trata de “um tema inédito gravado há algum tempo que vocês poderão achar interessante” antes de manifestar o desejo de que os seus fãs se mantenham “seguros e atentos”.

O tema, um longo mantra, sustenta-se num simples arranjo com piano, violoncelo e violino e uma subtil base de percussão. E é com essa tranquila “cama” instrumental que o homem que não editava desde Tempest, de 2012, vai desenrolando um espantoso poema que é no fundo um imponente retrato da América que referencia, directa ou indirectamente, uma enorme quantidade de músicos - The Beatles, Patsy Cline, The Who, Etta James, Nat King Cole, Don Henley e Glenn Frey dos The Eagles, Carl Wilson dos Beach Boys, Lindsey Buckingham e Stevie Nicks dos Fleetwood Mac, o músico de country Dickey Betts, figuras gigantes do jazz como Stan Getz, Art Pepper, Thelonious Monk, Oscar Peterson, Charlie Parker, Jelly Roll Morton ou Bud Powell e míticas figuras dos blues como John Lee Hooker, Pretty Boy Floyd ou o rei da harmónica Little Walter.

Há igualmente um imponente desfile de canções, boa parte referenciada directamente pelo título, outras desvendadas por citações à letra, por exemplo. “Wake Up Little Susie” dos Everly Brothers, “Dizzy, Miss Lizzy” de Larry Williams, “What’s New Pussycat” de Tom Jones, “What’d I Say? de Ray Charles, “Only The Good Die Young” de Billy Joel, “Tom Dooley” do Kingston Trio, “St James Infirmary” que foi gravada por Louis Armstrong, “I’d Rather Go Blind” de Etta James, “Scratch My Back” de Slim Harpo, "Please Don't Let Me Be Misunderstood" a que Nina Simone e os Animals deram vida, “Take it to the Limit” dos The Eagles, “Desperados Under The Eaves” de Warren Zevon, “Twilight Time” dos The Three Suns, “Another One Bites The Dust” dos Queen.

“The Old Rugged Cross”, que é um conhecido hino evangélico, “Mystery Train” de Junior Parker, “Blue Sky” dos Allman Brothers, “All That Jazz” do musical Chicago, “Cry Me a River” que Julie London tornou famosa, “Revolution 9” dos Beatles, “Nature Boy” que Nat King Cole popularizou, “Down in the Boondocks” de Joe South, “Stella By Starlight” de Victor Young, “Old Devil Moon” que Petula Clark cantou, “Memphis in June” de Hoagy Carmichael.

Chega? Não. “Lonely at the Top” de Randy Newman, “Lucille” de Little Richard, “Deep in a Dream” de Chet Baker, “Driving Wheel” de David Wiffen, “Moonlight Sonata” de Beethoven, “Key to the Highway” do “king of the harp” Little Walter, “Marching Through Georgia”, uma canção popular da era da Guerra Civil, “Dumbarton’s Drums”, canção tradicional escocesa, e “Love Me or Leave Me” de Bud Powell. Além das canções referem-se ainda os álbuns Tommy dos The Who ou One Night of Sin de Joe Cocker. Ufa!

O estonteante mosaico não se fica por aí e em “Murder Most Foul”, além do presidente John Fitzgerald Kennedy e da sua “First Lady” Jacqueline Kennedy, nomeiam-se outras importantes figuras da história cultural e política americana como o mítico radialista Wolfman Jack, a actriz Marilyn Monroe ou o pintor Karl Wirsum, os actores e cineastas pioneiros Buster Keaton e Harold Loyd, o sucessor do malogrado presidente na casa Branca, Lyndon B. Johnson, e até o gangster Bugsy Siegel merece uma menção. “Terry Malloy”, personagem de Marlon Brando em Há Lodo no Cais, é igualmente digno de inclusão, bem como Scarlett O’ Hara, personagem que a actriz Vivien Leigh imortalizou em E Tudo o Vento Levou.

O tema tem ainda espaço para referir Anything Goes, musical de Cole Porter, os clássicos de Shakespeare "Merchant of Venice" e "MacBeth", e os filmes "It Happened One Night" de Frank Capra, "Play Misty For Me" de Clint Eastwood , "Lonely are the Brave" de David Miller e até "Nightmare on Elm Street", clássico da cinematografia de terror, é citado.

Os festivais de Woodstock e de Altamont são directamente referenciados, bem como a simbólica figura do Uncle Sam. O suposto assassino de JFK, Lee Harvey Oswald e o homem que o abateu quando este já estava à guarda da polícia, Jack Ruby, também têm os seus nomes adicionados à extensa letra, tal como Abraham Zapruder, o homem que assistia em Dallas ao desfile presidencial e que fez o mítico filme em que se vê o presidente americano a ser mortalmente atingido e que é ainda hoje um dos mais importantes documentos da história moderna daquele país.

O lendário prisioneiro de Alcatraz, Robert Franklin Stroud, condenado por assassinato e que ganhou notoriedade por se ter dedicado ao estudo das aves ficando conhecido como Birdman of Alcatraz, os banqueiros que financiaram a I Guerra Mundial no início do século XX e que na cultura popular americana ficaram para a história como Merchants of Death e o mágico Houdini são outras das referências da canção em que ainda se escuta a expressão “Blood Stained Banner”, ou seja a bandeira confederada.

A América em Dylan.