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Conjunto Académico João Paulo

101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

Portugal não compareceu na Eurovisão em 1970, mas Sérgio Borges, o vencedor, inscreveria com autoridade outra das canções desse festival. O seu Conjunto Académico faria de ‘Canção de Madrugar’ um sucesso. É uma canção que, cantada de mil formas, soará sempre nova. Esta é a 13ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Canção de Madrugar', Conjunto Académico João Paulo
(1970)

Qual a canção portuguesa mais bonita de sempre? Porventura ‘Canção de Madrugar’. Nessa época, o Festival RTP da Canção ditava falatório por meses – antes e depois. Numa época em que ninguém se apresentava a concurso com um fio de cabelo fora do sítio ou um colarinho com goma a menos. Numa época em que não ganhar o Festival era a fronteira entre a medalha de ouro da canção e os outros lugares do pódio. Foi nessa época, em 1970, que terminou a primavera de Marcelo Caetano. Em que Salazar voltava a estar presente, em que a ala liberal começava a ter dissidentes. Em que, apesar de tudo, se agigantavam direitos, ainda que pequenos, de contestar o sistema vigente.

A administração da RTP apontou à Europa a sua frustração, frustração essa que nada tinha a ver com a Europa. 1969 tinha sido um ano esgotante. O homem pisara a lua. Ary conseguira que Simone assumisse que quem fazia um filho o fazia por gosto. Raul Solnado expusera fraquezas do regime em rábulas atrevidas no Zip-Zip. Nesse mesmo programa foram convidados de honra muitos dos que poderiam ter sido convidados de honra cinco anos mais tarde em qualquer programa subversivo do pós-25 de Abril. Portugal enlouquecera e Marcelo iria perder a paciência mais rapidamente do que se pensaria. O festival de 1970 foi por isso um festival de ressaca. Era preciso dar tréguas até se esticar a corda outra vez. Desta vez não houve cá letras para a censura decifrar. Tudo morno. Até a cantiga vencedora.

Sérgio Borges viera do Funchal. Tinha um conjunto (hoje seria vocalista numa banda; na altura era crooner num conjunto) que não tinha o seu nome. Que carisma deveria ter João Paulo Agrela para ditar o nome deste conjunto com o seu nome - não sendo ele nem vocalista, nem autor das músicas, nem compositor das canções. Sérgio Borges era o vocalista, era ele que fazia suspirar o público pela sua figuraça e pela sua voz potente e afinada. Fazia desmaiar meninas nas primeiras filas e fazia encher teatros na capital. O conjunto já não era apenas um grupo de baile madeirense; era agora um dos maiores conjuntos nacionais – ainda que sem um nome 'tcharan' capaz de ombrear com um Vítor Gomes e os Seus Gatos Negros ou um Fernando Conde e os Eletrónicos. Mas um conjunto não se faz apenas de nomes de arrasar - e este tinha Sérgio Borges, que dava e sobejava.

1970 fora um ano agridoce para Sérgio Borges. Ganhara o festival em Lisboa, mas fora impedido de ir à Holanda defender o seu ‘Onde Vais, Rio que eu Canto’. Nunca se saberá se teria sido capaz de ultrapassar (nem que fosse) Julio Iglesias, que defenderia nesse Eurofestival a sua canção e a Espanha com um fato sem bolsos (tanto que estes lhe fariam falta décadas mais tarde, como a sua imagem de marca).

Agridoce porque ganhou o festival RTP mas veria Hugo Maia Loureiro cantar com voz poucochinha a canção portuguesa mais bonita de sempre, 'Canção de Madrugar'. Que letra, que música, que encadeamento, que escalada, que revolta. E terá pensado o porquê de Ary dos Santos e Nazareth Fernandes não o terem escolhido a ele para cantar aquela obra prima. Uma cantiga de amigo trovadoresca, um amor impossível, idealizado, um amor de raiva, de guerra interior, de invenção de afetos.

Se Ary, a quem nunca faltou verbo, soubesse cantar e se só pudesse escolher uma das suas criações, seria a 'Canção de Madrugar'. Mas deu-a a Hugo, que não soube fazer dela o que ela realmente merecia, seja franca a história e as evidências. Ter-se-ia redimido Sérgio Borges nesse mesmo ano quando pediu ao seu Conjunto João Paulo que a tocasse e a botasse em EP? Não. Não redimiu a cantiga nem redimiu o seu sorriso forçado de glória incompleta. Ainda assim, a canção ganhou mais alma, mais força, mais lh’s em vez de l’s - de l(h)inho te vesti; uma fogueira de sol(h) e de fúria; uma l(h)ança de mágoa; amor que não l(h)ogrei. Ganhou em elegância instrumental, ganhou vida, ganhou o vigor que merecia.

Ary escreveu este poema imenso descrevendo-se a si, aos seus amores não cumpridos e não concretizados. Era uma canção que fazia o que faria sempre: contar a história de outros. E o poema, porque Ary tinha verbo em sobejo, poderia ter não algumas páginas A4 mas volumes de encher estante. Mas Ary zangou-se com o amor neste poema, insurgiu-se contra ele (o poema e ele próprio) e termina a oitava final com uma estocada. Com várias estocadas, aliás: rápidas, implacáveis. Farpando o que sentia com os nomes mais bonitos de que se lembrou para descrever o amor.

Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas

Ouvir também: 'Milena (a da Praia)', 1965

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  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

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  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

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  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

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