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Pearl Jam

Chegou o novo álbum dos Pearl Jam. Será que vale a pena?

O primeiro álbum dos Pearl Jam em quase sete anos é o mais longo de sempre da banda de Eddie Vedder e faz uma síntese entre a “música tradicional de Seattle” e alguma inovação. Ouvimos e comentamos todas as canções. E no fim apresentamos um veredicto

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Chegou hoje, 27 de março, "Gigaton", o 11º álbum dos Pearl Jam e primeiro disco de estúdio dos gigantes de Seattle desde "Lightning Bolt", editado há quase sete anos.

Produzido por Josh Evans, e não pelo colaborador de longa data da banda, Brendan O'Brien, "Gigaton" apresenta letras estranhamente premonitórias, marcadas pelas preocupações ambientais e pelas críticas ao Presidente norte-americano, Donald Trump.

Na capa está a foto algo apocalíptica de um glaciar a derreter, na Noruega, tirada pelo fotógrafo e biólogo canadiano Paul Nicklen.

Naquele que é o seu álbum mais longo de sempre (57 minutos, contra os 55 de "Vitalogy"), os Pearl Jam oscilam entre temas muito próximos daquilo a que nos habituaram e alguma inovação, como a presente no primeiro single, 'Dance of the Clairvoyants'.

Faixa-a-faixa

1. Who Ever Said - arranque veloz e raçudo do álbum. "Whoever said it’s all been said gave up on satisfaction", canta Eddie Vedder, autor da canção, sobre a bateria impiedosa de Matt Cameron.

2. Superblood Wolfmoon - mantém-se a toada rock, num título inspirado pelo eclipse lunar de 2019. Tal como Who Ever Said, o refrão faz antever momentos de celebração coletiva, quando voltar a ser permitido vibrar numa grande multidão ao vivo. Solo de guitarra caprichado e refrão orelhudo são dois dos atributos de uma canção que a crítica tem descrito como podendo "estar em qualquer disco dos Pearl Jam dos últimos 20 anos".

3. Dance of the Clairvoyants - foi o primeiro single do álbum e deixou alguns fãs desconcertados. Escrita pelos cinco membros dos Pearl Jam - Eddie Vedder, Mike McCready, Stone Gossard, Jeff Ament e Matt Cameron -, a canção, de ritmo mais dançável do que habitualmente, remeteu muitos ouvintes para os Talking Heads, mas é uma 'experiência' isolada no contexto do disco.

4. Quick Escape - uma das favoritas dos fãs até agora. Escrita pelo baixista Jeff Ament, encontra a banda "em fuga" para um lugar que Donald Trump "ainda não tenha lixado". Eis as letras de Eddie Vedder nesse sentido: "Crossed the border to Morocco/ Kashmir then Marrakech/ The lengths we had to go to then, to find a place Trump hadn’t fucked up yet". Musicalmente, começa com um riff de guitarra à Led Zeppelin, pisca o olho aos heróis de Vedder, os veteranos The Who, e ainda tem espaço para uma referência a outra banda da realeza rock: "Queen cranking on the blaster/And Mercury did rise".

5. Alright - primeiro momento de acalmia do álbum, é uma canção semi-acústica e vagamente psicadélica, com um aura de mistério e uma mensagem reconfortante: "It's alright, to be alone/To listen for a heartbeat, it's your own
It's alright, to quiet up/To disappear in thin air, it's your own", canta Eddie Vedder, em mais uma (boa) canção de Jeff Ament.

6. Seven O'Clock - mais um tema desacelerado, com críticas ferozes a Donald Trump e referências aos nativos americanos: "Sitting Bull and Crazy Horse come forged the north and west / then there’s Sitting Bullshit as our sitting president". Numa melodia em crescendo, porém, o mote é otimista: “For this is no time for depression or self indulgent hesitance / this fucked-up situation calls for all hands, hands on deck".

7. Never Destination - regresso ao rock, num petardo rock competente mas sem surpresas.

8. Take The Long Way - entre o punk e a vertigem mais sexy dos Queens of the Stone Age, é uma canção da autoria do baterista Matt Cameron, que assinou música e letra, e uma das mais interessantes do disco, dentro da fação rock.

9. Buckle Up - escrita pelo guitarrista Stone Gossard, é um belo momento contemplativo e enigmático, que não destoaria num disco de Steve Gunn.

10. Comes Then Goes - uma balada acústica de Eddie Vedder, que se especula poder ser uma dedicatória ao amigo desaparecido em 2017, Chris Cornell, dos Soundgarden.

11. Retrograde - escrita por Mike McCready, começa por evocar os momentos acústicos de Jimmy Page, dos Led Zeppelin, antes de desaguar num oceano de cânticos cheios de alma, mostrando que há mais em Eddie Vedder do que 'aquele' rugido que, nos anos 90, ajudou a definir o grunge.

12. River Cross - mais uma balada acústica de Eddie Vedder, com mensagem ecológica e algumas particularidades, como o uso do instrumento africano kalimba. "Here and now/ Can't hold me down", despede-se Eddie Vedder, num momento de grande misticismo.

O veredicto:

servindo de montra aos méritos de todos os músicos da banda, "Gigaton" oferece de tudo um pouco - canções rock imediatamente reconhecíveis como pertencendo ao catálgo dos Pearl Jam, um ou outro tema mais atípico (com 'Dance of the Clairvoyants' à cabeça), baladas acústicas e uma mensagem política clara. Um trabalho sólido e invariavelmente honesto às suas próprias raízes de uma das derradeiras grandes bandas rock da atualidade.