Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Fausto

101 canções que marcaram Portugal #12: 'A Voar por Cima das Águas', de Fausto

‘Por Este Rio Acima’ é o melhor álbum de sempre da música portuguesa. Uma narrativa inspirada em Fernão Mendes Pinto que é um manual de como um povo deve olhar para si: com orgulho, lamento e humor. Esta é a 12ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'A Voar por Cima das Águas', Fausto
(1982)

"Por Este Rio Acima" poderia ser meia dúzia de álbuns distintos – se atendermos a que um álbum (dos bons) não tem mais do que 3 a 4 canções intemporais. "Por Este Rio Acima" tem um punhado delas e Portugal deverá estar grato por este compositor as ter inscrito num álbum só. Escolhemos ‘A Voar por Cima das Águas’ ao acaso (talvez por ter ‘Zé Gato’, Orlando Costa, nos coros, tenha pesado na escolha), mas poderíamos ter escolhido qualquer uma das canções desta obra-prima em formato duplo.

Fausto Bordalo Dias nasceu no mar. Literalmente. Nasceu a caminho de Angola, num barco, e por lá ficou (em Angola) quase 20 anos. Aportou na província do Huambo, em Nova Lisboa, e pouco de lá trouxe – porque se zangou com Angola. Melhor: distanciou-se de Angola, desencantou-se há muito com Angola. Pouco mais trouxe que um poema de Viriato da Cruz, ‘Namoro’. O que iria viver suplantou o que vivera em África, sobrepondo-se-lhe. Rejeitou ser mais um dos retornados saudosos de um país que não existe mais, há décadas.

Fausto Bordalo Dias é português, de Portugal, não do Portugal ultramarino. Mas dizíamos que Fausto nasceu no mar e foi esse mar que deu origem a este álbum. A narrativa de "Por Este Rio Acima" transporta-nos para o mar que os portugueses conquistaram. Sim, porque as canções deste álbum são uma narrativa. São porém mais do que poemas em forma de canção. São soberbas canções com uma narrativa poética que não atrapalha a essência das canções.

As canções de Fausto não são um género literário de vanguarda, antes canções, ‘per si’, com narrativas subliminares. A índole de Fernão Mendes Pinto, que serve de mote a todo o álbum, é a legenda comum dos portugueses: um povo ambicioso mas que também falhou. Um povo de feitos e defeitos. Um povo de glórias e fracassos.

O português, em "Por Este Rio Acima", não é o povo de Camões. Não é o marinheiro que bravamente enfrenta o Mostrengo em nome d’El Rei D. João II. Não é o homem do leme que era mais do que ele próprio. Muito menos o mar que enfrenta é o mar de anémonas e corais belos de Sophia. O português e o mar que ele galga são uma sequela do seu sonho. Quase não muito mais do que isso. Do sonho. Do sonho que nos habita e que alimenta a nossa génese.

"Por Este Rio Acima’ poderia ser, antes do reforço de posições extremadas, as pazes de Portugal com Portugal. Dos portugueses com o seu passado. De Portugal a rir-se de si próprio.

Os livros de história sempre veicularam uma visão exagerada da nossa história – em abono ou detrimento. Portugal raramente soube rir-se do seu passado. Impera em 2020 a visão economicista, como se Vasco da Gama, D. João II ou Pedro Álvares Cabral fossem ases no Excel. Como se a expansão se esgotasse no seu payback. A expansão fez-se de sonho, acima de tudo. Mecanicamente. De homens que sonhavam. De reis para quem desbravar mares não era mais do que fazer as pazes com a génese do seu povo. África, o Brasil, o Oriente, tinham tanto de racional como uma ida à lua.

Fausto Bordalo Dias tem sentido de humor. Preserva-o e perpassa-o a quem o ouve. Gosta do lado cómico do passado e do presente de Portugal. Gosta de ignorar a visão engravatada e hipócrita da história do seu país. Não ignora todavia os dislates do que é o seu povo, do que foi o seu povo no passado longínquo – que não é tão longínquo assim. É aliás, atual.

Fausto busca sobretudo a desconstrução. A desconstrução de um passado sem dar respostas para o futuro. Tem uma visão humilde e arguta do que já aconteceu. Espreita pela fresta da condição de ser português. Interessam-lhe sobretudo os pequenos detalhes. Os nossos trejeitos. Mas interessa-lhe sobretudo fazer grandes canções. De amor, de raiva ou de contemplação.

Cansou-se de cantigas de intervenção. Cansou-se, a partir de certa altura, de cantar para o boneco. E embalou para a sua fase madura. Para a sua fase "Por Este Rio Acima". Para a fase em que serviu a Portugal um banquete de canções apolíneas e dionisíacas de uma assentada só.

Serviu-nos camadas de leituras das suas canções (repetindo a ideia: as canções, sendo narrativas, são isso tão só, canções; a poesia serve-se noutros meios que não letras acompanhando músicas). Pôs Portugal a cantarolar ‘Navegar, Navegar’, ‘O Barco Vai de Saída’ e a suspirar com ‘Lembra-me um Sonho Lindo’, como narrativas fora do contexto.

As canções de "Por Este Rio Acima" são para serem ouvidas. Lidas, com certeza. Mas sobretudo ouvidas. São grandes canções. Que reclamam por ignorância e por erudição. São canções para todos, para Portugal refletir ou apenas bater o pé. Para animar a malta ou para a pôr a ruminar passados. Tanto dá. É um álbum que ignora o contexto em que se ouve a música sem prestar atenção à letra e vice-versa.

"Por Este Rio Acima’ é um álbum democrático. Belo. Intenso. Que inflexiona tons, ritmos e palavras. Que insere instrumentos e sonoridades tradicionais com uma elegância que Portugal jamais assistira. Que respeita as raízes e nela se inspira. Que surpreende. Que arrepia. Que nos faz sorrir e lamentar. Que porventura nunca se tinha feito. É o álbum que mais bem nos resume. É a narrativa a que devemos recorrer quando nos quisermos realmente reconhecer.

Matei mouros malabares quem foi à guerra fui eu
Afundei grandes armadas nunca ninguém me venceu
Mas ao ver o cu de um mouro foi tal susto grande e forte
Qu'inté a bexiga mijei e de todo estive à morte

Ouvir também: ‘Como um Sonho Acordado’. A letra e a música a namorar, mais que bailando, em arqueamento harmónico. A canção que poderia ser um breviário de todo o álbum. A canção perfeita.

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

    Notícias

    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

    Notícias

    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

    Notícias

    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

    Notícias

    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

    Notícias

    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

    Notícias

    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

    Notícias

    João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

    Notícias

    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

    Notícias

    Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

    Notícias

    Tony de Matos foi ‘o’ grande cantor romântico de Portugal, um Sinatra à portuguesa. Tinha uma melena negra, fatos de bom corte e uma voz agigantada. Fez suspirar mulheres pelo seu jeito marialva e homens pelo seu carisma. ‘Vendaval’ é a história de uma grande canção. Esta é a 11ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa