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NOS Alive

Rita Carmo

Festivais de música em Portugal. Primavera Sound está negro. NOS Alive e Rock in Rio no cinzento. Os outros, logo se verá

Pelo menos até ao fim de maio nada acontecerá nos palcos de Portugal. O calendário coloca os maiores festivais de música em junho mas a incerteza que resulta da pandemia de covid-19 é grande. Nos próximos dias serão conhecidas decisões que vão marcar definitivamente a agenda de festivais em Portugal neste ano de 2020

A pandemia de Covid-19 operou em poucas semanas um efeito devastador sobre o mercado da música ao vivo em todo o mundo, desmontando o puzzle de digressões mundial que é alicerce vital da indústria. Em Portugal, as primeiras medidas restritivas impediram a realização de espectáculos com mais de mil pessoas em recintos fechados e cinco mil ao ar livre logo na segunda semana de março. Um dos últimos espectáculos de maiores dimensões a ter lugar foi o concerto dos Capitão Fausto no Campo Pequeno, no dia 7 deste mês de março.

O impasse reinante, com vários países a declararem posteriormente estados de emergência que tornam impossível a realização de espetáculos, o que motivou o reagendamento ou o cancelamento dos concertos previstos para os próximos meses, adensa um ambiente de incerteza que alastra aos festivais de música. Mesmo aqueles que, neste início de primavera, nos parecem ainda distantes no tempo.

Sobre estes eventos recaem, por estes dias, várias dúvidas que derivam da própria falta de conhecimento sobre a evolução da pandemia e da forma como a sua duração poderá condicionar o início do verão, altura em que os principais festivais se distribuem por toda a Europa. Os promotores de festivais não estão dependentes das medidas estatais impostas mas também da vontade dos artistas, com muitos deles a cancelarem de moto próprio as suas agendas.

Dois exemplos espaçados no tempo (e na geografia): o festival de Coachella, porventura o mais sonante em terras americanas, deslocou-se de abril para outubro; no Reino Unido, o gigante Glastonbury, previsto para o fim de junho, deu por cancelada a edição do 50º aniversário. Facto não alheio a estas movimentações, a Live Nation - a maior empresa de entretenimento ao vivo do mundo - perdeu parte considerável do seu valor de mercado.

Apesar de todos os grandes festivais portugueses se mostrarem confiantes na sua realização, é líquido acreditar que estão em risco aqueles que se realizarem em datas imediatamente posteriores às que se espera serem coincidentes com a descida da curva da pandemia: seja porque a logística será impraticável de se empreender (o referido puzzle das digressões está desmontado, o setor está parado, com os seus principais agentes e meios de produção paralisados), a retração (isto é, o receio em envolver-se em multidões) do público porventura muito presente ou as orientações dos governos (onde se inclui o português) ainda contrárias a autorizar ajuntamentos de largos milhares de pessoas. Ou porque, no pior dos cenários, a pandemia não terá sido suficientemente controlada ao ponto de permitir o regresso da normalidade.

Outras questões: poderá uma eventual fraca venda de bilhetes (três meses de bilhética, pelo menos, perdidos) suportar um cartaz gizado numa altura em que se perspectivava outro retorno? A previsível alteração de mapas de digressão não causará 'baixas' consideráveis em alguns cartazes, à medida que as contas forem sendo feitas? As próprias contas dos festivaleiros (entenda-se: disponibilidade financeira) serão as mesmas em junho? Ainda é cedo para responder, mas há um ponto de situação passível de ser feito.

NOS Primavera Sound

NOS Primavera Sound

Rita Carmo

Com poucos ou nenhumas hipóteses de se concretizar nas datas anunciadas, apesar do lacónico comunicado da organização, encontra-se o North Music Festival, que ostenta no cartaz, a 22 e 23 de maio, os nomes dos Deftones, The Script e Waterboys. O local é a Alfândega do Porto. Para trás também já havia ficado o ID no Limits, dedicado à música electrónica, agendado para 3 e 4 de abril e já adiado para o final do ano.

Em Portugal, porém, o primeiro grande evento festivaleiro acontece em junho no Parque da Cidade do Porto. Previsto para os dias 11, 12 e 13 de junho, o NOS Primavera Sound é um 'caso complicado' não só porque, no cenário mais otimista, é o primeiro a acontecer depois da 'tempestade' (com todas as dúvidas a isso inerentes, já atrás explanadas), mas sobretudo porque o seu cartaz é uma declinação do 'pai' espanhol, com palco em Barcelona, na semana anterior. Ou seja, Portugal aqui depende de Espanha, sendo o efeito dominó muito claro.

A 16 de março, numa altura em que a pandemia no país vizinho não contava com a dimensão alarmante dos últimos dias, o festival sediado em Barcelona afirmava estar a "estudar todas as possibilidades para que os festivais [em Espanha e Portugal] se realizem este ano", abrindo desde logo a porta para a eventualidade de não ser possível fazê-los já em junho. Três dias antes, à BLITZ, José Barreiro, da promotora Pic-Nic, empresa responsável pela logística da edição portuguesa, disse que, num ano "atípico", poderão ser encontradas "soluções atípicas" para o NOS Primavera Sound. Tyler, The Creator, Lana Del Rey e Pavement são os cabeças de cartaz da edição portuguesa do evento da Invicta. O Primavera Sound catalão associou-se, recentemente, a uma plataforma de festivais europeus, a #FestivalsStandUnited, que visa salvar os eventos mas desde então não foi prestada mais informação. A dramática evolução da covid-19 em Espanha, com epicentro em Madrid mas também com um número de casos assinaláveis em Barcelona, não deixará muita margem de manobra a um evento que na sua versão catalã está marcado para 4, 5 e 6 de junho. Os efeitos de um cancelamento da edição de Barcelona far-se-ão sentir também no Porto.

Rock in Rio-Lisboa

Rock in Rio-Lisboa

Rita Carmo

No mesmo mês, em dois fins de semana, está agendado o Rock in Rio-Lisboa: 20, 21, 27 e 28 de junho. Uma primeira baixa está confirmada, com o cancelamento da digressão europeia de Camila Cabello, cujo início estava previsto para o fim de maio em Oslo, na Noruega, com passagem pelo Parque da Bela Vista no primeiro dia do festival, a 20 de junho. Foo Fighters (que cancelaram uma digressão nos Estados Unidos, mas ainda mantêm os 'planos europeus', que têm data prevista de arranque a 10 de junho na Alemanha), The National, Duran Duran e Post Malone são outros nomes perfilados pelo festival liderado, em Portugal, por Roberta Medina.

Contactada pela BLITZ, a organização do Rock in Rio lisboeta remeteu para um momento posterior esclarecimentos sobre a viabilidade da realização da edição deste ano, mas fez saber, através de uma nota enviada à redação, que está a "estudar cenários alternativos" caso mais artistas cancelem a sua presença no festival. O Rock in Rio é o festival que em Portugal dá azo aos maiores ajuntamentos de multidões, sendo facilmente previsível que, caso se realize, poderiam estar no Parque da Bela Vista mais de 200 mil espectadores, tendo em conta a afluência nos anos anteriores.

NOS Alive

NOS Alive

Rita Carmo

Os festivais de julho terão, à partida, uma folga maior na gestão da crise. A prudência manda aguardar pela evolução do estado de coisas, algo que os representantes máximos de NOS Alive, Super Bock Super Rock, RFM Somnii e MEO Marés Vivas assumem estar a fazer. Note-se que este ano foi também anunciado o festival Rolling Loud, com grande parte das maiores estrelas do universo do hip-hop, a realizar-se na Praia da Rocha, em Portimão.

A 18 de março, Álvaro Covões, da Everything Is New, confirmava à BLITZ o adiamento dos concertos que tinha elencado para o mês de abril (Nick Cave e Bon Iver na Altice Arena), mas manifestava confiança de que o NOS Alive pudesse ter lugar a 8, 9, 10 e 11 de julho. "Nós não podemos estar a desistir de projetos que são daqui a quatro meses. Não faz sentido nenhum". Questionado sobre se já teria sido contactado pelos grandes artistas internacionais do cartaz, como Taylor Swift, Billie Eilish ou Kendrick Lamar, no sentido de cancelar atuações, garantiu que não. Faith No More e Strokes são outros nomes em cartaz no festival de Algés.

Por sua vez, Luís Montez, diretor-geral da Música no Coração, mostrou-se convicto de que os festivais por si organizados, o Super Bock Super Rock (16 a 18 de julho no Meco) e MEO Sudoeste (4 a 8 de agosto, na Zambujeira do Mar) não estarão em risco. "Os nossos festivais acontecem em julho e agosto e espero que até lá o problema esteja estabilizado e resolvido", afirmou à BLITZ a meio de março. "Muitos concertos grandes vão ser adiados para o outono", acrescentou, apelando a que se veja o "lado positivo" deste momento: "depois da ressaca de estarmos sozinhos, vamos estar ansiosos por nos divertirmos". Porém, além da imprevisibilidade das medidas de restrição impostas pelo governo durante esses meses, da decisão dos artistas em participar em grandes eventos e ainda a "vontade" do público, há que juntar a disponibilidade das marcas patrocinadores para viabilizar estes festivais.

A$AP Rocky, Jungle e Foals são alguns dos nomes previstos para o festival do Meco, enquanto o MEO Sudoeste chama a si artistas como Bad Bunny ou Major Lazer.

Ainda em julho, em Gaia, o MEO Marés Vivas contempla vários cenários. À BLITZ, Jorge Lopes, diretor da PEV Entertainment, afirmou que, a quatro meses do evento, "ainda é cedo para tomar uma decisão", salientando que "o MEO Marés Vivas só não se vai realizar nas datas previstas se não for possível, ora por razões de saúde pública, ora por razões sociais - se os portugueses não estiverem com espírito para festivais, por exemplo".

Se for necessário "adiar o festival para setembro", Jorge Lopes revela ter já "a concordância de quase todos os artistas" do cartaz nesse sentido. Kaiser Chiefs, Liam Payne, Snow Patrol e Maluma fazem parte do cartaz da edição de 2020.

Vodafone Paredes de Coura

Vodafone Paredes de Coura

Rita Carmo

Além do MEO Sudoeste, agosto é também o mês em que se realiza o Vodafone Paredes de Coura que, à semelhança do também minhoto EDP Vilar de Mouros, dispõe de mais tempo para tomar decisões.

O festival da Ritmos, liderado por João Carvalho, mostrava a 13 de março confiança na evolução positiva da situação. "Quero que o festival aconteça, e tenho quase a certeza de que vai acontecer", afirmou à BLITZ o promotor do Vodafone Paredes de Coura, "mas também quero ter as pessoas seguras", ressalvou. "Claro que estou preocupado com o festival, mas acima de tudo estou preocupado com o mundo. Mas acredito que em agosto a coisa esteja resolvida", rematou.

Esta semana, o festival fez saber nas suas redes sociais que acredita que "estes cinco meses vão ser suficientes para juntos superarmos este momento difícil que estamos a passar" e continua "a trabalhar para que tudo aconteça como planeado". Pixies, IDLES e Ty Segall constam do cartaz do festival que se realiza em Paredes de Coura de 19 a 22 de agosto.

EDP Vilar de Mouros

EDP Vilar de Mouros

Rui Duarte Silva

O último dos festivais 'clássicos' do verão português é o seu decano, o EDP Vilar de Mouros, previsto para os dias 27, 28 e 29 de agosto nesta freguesia do concelho de Caminha. À BLITZ, a 13 de março, Paulo Ventura, um dos organizadores do evento, manifestava confiança na realização do festival, apesar de estar preparado "para entender que poderemos ter de pensar que não podemos fazê-lo". O facto de o mesmo se realizar no ainda distante fim de agosto não permite ainda tomadas de decisão. "Ainda está tão longe esse dia", disse-nos, falando de uma edição que tem Iggy Pop, Placebo e Limp Bizkit como artistas já anunciados.

Em paralelo, esta quarta-feira a Associação de Promotores de Espectáculos, Festivais e Eventos (APEFE) emitiu um comunicado no qual endereça uma série de reivindicações para o setor devido ao Estado de Emergência decretado pelo governo devido à pandemia de Covid-19. Entre as sugestões de medidas estão a necessidade de crédito imediato, acesso a lay-off e a disponibilização de um cheque-cultura de €10,00 para todos os portugueses.

"Várias entidades e autarquias estão diariamente a cancelar eventos. Os espectáculos à venda para final do ano e início de 2021 não vendem. Temos que trabalhar em conjunto numa política de reembolso de espectáculos adiados e cancelados que ajude a minimizar os prejuízos catastróficos do sector cultural", alerta a associação impulsionada em 2017 por Álvaro Covões (Everything is New), Jorge Lopes (PEV-Entertainment) e Paulo Dias (UAU).

A associação reivindica ainda a possibilidade de não devolver o valor dos ingressos caso os espectáculos sejam reagendados para outras datas.

Também à luz da atual situação, alguns dos maiores festivais da Europa (de Roskilde, na Dinamarca, ao Primavera Sound, de Espanha e Portugal) escreveram uma carta conjunta declarando que contam levar a efeito as edições deste ano dos seus eventos porque, ao fazê-lo, farão "uma parte crucial da sobrevivência desta indústria". A maior parte dos festivais tem lugar em países que, neste momento, se encontram em quarentena devido ao Covid-19.