Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Rui Reininho

José Carlos Carvalho/Expresso

Rui Reininho: “Já faço amor em tempo de guerra há muito tempo. Estou muito sereno”

O vocalista dos históricos GNR, diz sentir-se “muito apaziguado” e garante, entre risos: “ainda gosto de seres humanos”. “O que faz falta é abraçar a malta!”, remata, num depoimento inspiradíssimo que vale a pena ser lido

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rui Reininho falou à BLITZ sobre como tem lidado com a reclusão a que o surto de novo coronavírus tem obrigado a população portuguesa.

Na sua zona de Leça da Palmeira, Rui Reininho diz estar a viver esta situação com grande "serenidade".

"Estou habituado a estas circunstâncias, iria fazer agora em março um retiro, com gongos e taças tibetanas", conta. "Para mim é fácil desligar do mundo e viver com muito pouco. Quase até sem eletricidade", afiança.

Em casa, Rui Reininho tem aproveitado para ver "um filmezito por dia" ou para explorar a obra de "personagens" como Scott Walker. "Também tenho lido sobre técnicas vocais de música pansori, tenho andado a estudar isso".

Habituado a evitar constipações e gripes - "é o pânico de qualquer cantor acordar com dores de garganta ou afónico" - , Rui Reininho espera que com esta crise se aprendam algumas "lições: sobretudo para aquelas pessoas que se chegam ao pé de nós, a tossir e a dizer: 'estou com uma grande gripe!'. Eu isolo-me logo quatro ou cinco dias. Há muitos anos que não tomo antibióticos ou anti-inflamatórios, só em caso de urgência".

"[Neste momento] conduzo pouco, não faço muitas ondas... poupa-se imensa massa. Há mais de 15 dias que não meto gasóleo", revela ainda.

Ainda que considere a situação de isolamento "chatinha" e diga "ainda gostar de seres humanos", Rui Reininho olha para este momento "não como uma guerra, mas como uma grande mudança. Pode ser cínico ou desagradável dizer isto, mas acho que sou um revolucionário. Gosto de ver as coisas a mudar. E vai mudar muita coisa. Tenho aqui o aeroporto 'por cima' e tem estado silencioso".

"Eu gosto muito do silêncio e recolhimento e estava farto daquelas pessoas agitadinhas, do 'não pode perder isto e aquilo'... Como diz a canção, 'Tudo Passa'. E tudo passará, nada é imperdível. Este é um momento muito interessante nas nossas vidas: pode ser que se aprendam umas coisas sobre ganância e vaidade".

Quanto aos concertos adiados ou cancelados, o frontman dos GNR diz que o mês de abril "já foi ao ar", incluindo um concerto que a banda tinha marcado para os Estados Unidos.

O impacto na indústria musical portuguesa será gravoso. "Há centenas de pessoas que vivem disto ou para isto e estou completamente solidário para com a nossa equipa técnica", diz.

A título pessoal, Rui Reininho volta a sublinhar que lhe é simples viver de forma mais espartana.

"Gosto de andar às escuras, vou urinar lá fora, com a cadela... Sempre poupo uma descarga de nove litros. Mas já faço isso há muito tempo. Já faço amor em tempo de guerra há muito tempo", diz, entre risos.

Aproveitar roupas, "até roupas de palco", de há 20 anos, que ainda lhe servem e estudar os métodos de gravação de Howard Devoto e dos Magazine - "agora que trabalhamos com o Rui Maia [teclista dos X-Wife], é engraçado voltar a esses sons da new wave" - são outros dos pontos da abordagem de Rui Reininho.

"Não sinto nenhuma raiva, nem me sinto limitado. Sempre fui um homem de luta, que aceita o que tem e o que não tem. A minha esperança agora é que, quando houver outra vez multidões, nos possamos abraçar outra vez. Só sinto a falta dos hugs. O que faz falta é abraçar a malta!".