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The Gift

Sónia Tavares dos Gift: “Eu acho que nós, músicos portugueses, pelo menos os que andam por aí a queixar-se, devíamos ser mais altruístas”

Posição crítica da vocalista dos Gift sobre a forma como o mundo da música em Portugal tem abordado a crise do Covid-19: "A preocupação devia estar mesmo em quem anda a trabalhar todos os dias, a apanhar os transportes públicos"

Sónia Tavares, vocalista dos Gift, disse à BLITZ, em conversa telefónica: "eu acho que nós, músicos portugueses, pelo menos os que andam por aí a queixar-se, neste momento, devíamos ser mais altruístas. Ou seja, acho que é tempo de nos preocuparmos com o mundo e não com a arte ou com problemas de primeiro mundo".

"Eu sei que a arte, a música, entretém as pessoas, que é preferível levarmos as coisas de uma forma bonita e tal e vamo-nos entretendo todos uns aos outros aqui à distância. Nós, os burgueses, que podemos e fazemos essas coisas", continua, "mas acho que a preocupação devia estar mesmo em quem anda a trabalhar todos os dias, a apanhar os transportes públicos, que não tem outra maneira de sobreviver. Preocupo-me mais com isso do que com o que é que vou fazer com o IVA, ou se a SPA me ficou com não sei quanto... Não é por aí, agora".

A artista reforça a sua argumentação dizendo que "isto é uma crise mundial, uma coisa que nós nunca vivemos, pelo menos a minha geração acho que nunca viveu. Estamos a levar as coisas demasiado para o nosso umbigo. A nossa preocupação mais do que enquanto músicos devia ser enquanto indivíduos e devíamos colaborar para deter esta pandemia".

Confrontada com a situação económica dos artistas mais pequenos ou outros profissionais da área que estejam mais desprotegidos, Sónia Tavares acrescenta: "cada um tem que gerir as coisas da melhor forma possível. Nós também sofremos dessa preocupação e ainda hoje o meu colega Miguel [Ribeiro, guitarrista e baixista dos Gift] reuniu com toda a gente que trabalha connosco para saber a situação de cada um e em que é que podíamos ajudar. É mais nesse sentido que as coisas devem ir, mais como indivíduos. Tem a ver com a forma como se trabalha e não com aquilo que se faz, seja na música seja na carpintaria".

Relativamente à forma como, a nível pessoal, está a viver a pandemia do novo cornavírus, a artista revela que está em casa com o marido, Fernando Ribeiro, dos Moonspell, e o filho de ambos, e que não está a ser dura a "quarentena". "Ou sou uma das privilegiadas, e acho que sou, ou então organizei-me. Estou bem, sei que o vírus não nos vai trazer grandes consequências a nós, enquanto família, porque estamos a cumprir as regras".

"Não sabemos o que vem daí, obviamente, nada é garantido, mas enquanto indivíduos estamos a cumprir e a fazer com que o nosso filho cumpra também as regras que nos são postas", continua, "muito mais do que estar aborrecida sem fazer nada, 'ah, que horror, não sei se vou ler Proust se vou ler a Mónica'. Está um bocado por aí e, sinceramente, isso não interessa mesmo nada. Portanto, não, não é duro estar de quarentena. Nada duro".