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Tony de Matos, “Vendaval”

101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

Tony de Matos foi ‘o’ grande cantor romântico de Portugal, um Sinatra à portuguesa. Tinha uma melena negra, fatos de bom corte e uma voz agigantada. Fez suspirar mulheres pelo seu jeito marialva e homens pelo seu carisma. ‘Vendaval’ é a história de uma grande canção. Esta é a 11ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Vendaval', Tony de Matos
(1962)

Luís Guilherme aguardava na rua, ao lado da sua mãe, a chegada da filha para o transportar até ao hospital. Tivera um AVC e o destino escolhera-lhe Portugal para passar o último tempo que lhe restava, de passagem que estava pelo seu país depois de andarilhar por outras terras. Tinha vivido com os decibéis muito altos e o organismo não aguentou mais. Tinha tragado a vida intensamente. Tinha, como disse Teresa Guilherme, a sua filha, queimado o pavio dos dois lados. Quando Teresa chegou, atropelou a sua própria avó, uma fatalidade trágico-cómica. Há dias que não deveriam teimar em existir. Viveria Luís Guilherme o tempo que lhe restava em prostração.

Teresa Guilherme desistira há muito de ter um pai convencional e aceitou a sua condição de filha de um fadista virtuoso e errante. A sua mãe, Lídia Ribeiro, não resistiria às investidas do maior cantor romântico de Portugal, a voz do dandismo português – e viveria com Tony de Matos por 10 anos, até à morte deste. Teresa Guilherme sempre considerou Tony de Matos (que grande nome, caramba!) um segundo pai, apesar de ter já 24 anos quando o cantor abriu a porta daquela casa de mulheres e o coração da também fadista Lídia Ribeiro.

Tony de Matos teve uma grande canção que passou como um vendaval por Portugal. Tony, ao tempo do 'Vendaval', era já homem de horizontes largos e fixara já residência por vários anos no Brasil, onde tivera pouco tempo para gozar as praias de Copacabana ou a boémia da Lapa. Tony de Matos trocou o short de banho por microfones e deu ao Brasil o melhor que Portugal tinha – e que grande voz tinha Tony de Matos.

Mas Tony de Matos determinou um limite no país tropical e decidiu voltar ao seu país. Não foi ao acaso que decidiu voltar para Portugal, mas poderia ter sido outro país qualquer, que Tony de Matos tinha voz à Sinatra e o dobro do charme. As vozes grandes não são de país nenhum.

Começou bem este seu comeback a Portugal, depois de anos no Brasil, com o 'Vendaval'. Uma canção à Tony: charmosa, sofrida, intensa. A sua figura franzina contrastava com a sua voz profunda – e a voz nem é tudo. Mas Tony tinha mesmo tudo. Tinha uma melena escura. Tinha fatos de bom corte. Tinha mulheres a suspirar na plateia ou coladas ao rádio ou à televisão. Tinha homens a quererem a imitar o it com que se nasce e pouco se conquista. E tinha subversão.

Tony de Matos nunca fez a carreira que quiseram que ele fizesse. Tony de Matos teve a carreira para a qual fora fadado e que só precisava de não estragar. E não estragou. Por cá andou sempre. Sempre? Nem sempre. Em 1975, cansou-se do Portugal de barbas, do Portugal que de supetão passou a ter asco aos cantores românticos e zarpou para os Estados Unidos, onde ficou largos anos – porque tinha uma voz à Tony Bennett e o triplo do charme. E só regressou porque o povo, porque Portugal, precisava dele, porque tinha ainda muito que dar ao povo e a Portugal.

Não teve já tempo de dar tudo aquilo de que Portugal precisava – mas deu o suficiente para se inscrever como o maior nome na canção romântica que tomou Portugal de vendaval. Tony precisava de Lisboa, do fumo das casas de fados de Lisboa. Precisava do mar do Algarve e de ouvir falar na sua língua. Os últimos anos foram passados a namorar com a vida – não o sabia fazer de outra forma. A namorar com a mulher da sua vida, a namorar com o público que o ovacionava. E a namorar com as câmaras e com os altifalantes dos rádios do carro ou da telefonia lá de casa.

Era virtualmente uma má aposta, Tony de Matos. Quem apostasse que aquela figura arfante e frágil não conseguiria sublevar-se a cantar, perderia poupanças e palpites. Tony em palco não era o Tony da intimidade – um Tony de dedos e pulmões corroídos pelo tabaco. Mas o fumo pouco se intromete no alento e Tony de Matos superava-se a cantar. Cantava com a voz fresca e intensa de há 40 anos e tinha ainda instinto para franzir o sobrolho a paquerar a memória de quem o ouvia.

José Cardoso Pires dedicou-lhe por isso um livro sem o saber, a "Cartilha do Marialva". Que não, Tony de Matos não era um libertino, era um marialva. E que bem ficava um marialva como Tony de Matos com um cigarro entre os dedos e a cantar sílabas e versos suspendidos. E a dizer que sim com a expressão. Sempre sim. Tony de Matos era um homem do sim.

Em 1988, lançou o seu último álbum. O álbum que tinha o nome que poderiam ter tido todos os seus álbuns, "Cantor Latino". E apresentou-o no "Piano-Bar" de Simone de Oliveira e em outros programas de televisão – já demasiado frágil mas ainda com demasiadas esperanças. Se Portugal sabe homenagear os seus maiores depois da vida, Tony de Matos foi homenageado ainda em vida – durante 40 anos e com esse seu último álbum. Todas as homenagens que vieram depois não serviam a Tony de Matos – porque já cá não estava e porque a sua maior ovação fizemo-la nós todos quando o ouvíamos então e fazemos nós todos quando o continuamos a ouvir.

Elvis Presley, como integrante do movimento rock&roll, que incluía brilhantina, fatos de cabedal, batida cadenciada e sobretudo vozes possantes, assumia que Roy Orbison era o melhor de todos eles. Talvez a melhor homenagem que os cantores românticos pudessem fazer hoje era reconhecer que Tony de Matos será, sem discussão, o melhor e mais completo cantor romântico que Portugal já teve.

P'ra onde vou, não sei
O que farei, sei lá
Só sei que me encontrei e que eu sou eu, enfim
E sei que ninguém mais rirá de mim

Ouvir também: 'Eu Sou Aquele' (1967)

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