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Pedro Barroso

101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Menina dos Olhos d'Água', Pedro Barroso
(1984)

Pedro Barroso pertenceu onde queria pertencer. Pertenceu ao grupo que o poder cobiça: o dos que seduzem e são aplaudidos. O poder político, esse, tentou fazê-lo sempre, tenta fazer sempre, forçadamente, e sempre foi aplaudido apenas em meros fogachos, com convicção efémera, sem extensão no tempo.

Pedro Barroso foi aplaudido cinco décadas e perpassou gerações – nunca as tomando de supetão. Foi um homem de contradições: professor de Educação Física e obeso; doce e indignado; um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Era um homem doce, Pedro Barroso, se o pudéssemos resumir num só atributo. E o público, o seu público, deixava embalar-se por esta sua doçura – ainda que transfigurada de raiva.

Chegou tarde ou cedo – ambos demais – em etapas da sua vida. Chegou cedo demais ao ‘Zip-Zip’, em 1969, num tempo em que por pouco muitas das emissões do programa de Carlos Cruz, Solnado e Fialho Gouveia não foram emitidos a preto, com nada por emitir, porque as palavras convidadas eram madrastas para a censura. E Pedro Barroso foi, nesse tempo, alvo desse lápis (não tanto assim, ainda assim) radical.

Ficou-lhe do ‘Zip-Zip’a raiva indisfarçada. Para sempre. Ficou-lhe desse tempo, ao qual chegara cedo demais, a indignação incontida contra a falta de liberdade – mesmo quando, décadas mais tarde, já de pouco servia agitar a mentalidade dos portugueses aburguesados. Chegou tarde quando, chegada a liberdade, não havia lugar para todos. Porque em Zeca, Adriano e Ary cabia um país inteiro. Um país, uma liberdade – que eram alimentados pela opinião popular – no qual passaria a não haver lugar no palco para tantos trovadores, para tantos atores principais, apesar de o palco da liberdade não se ter feito só de vedetas maiores.

Cada um teve de trilhar o seu caminho nos anos que se seguiram. E Pedro Barroso faria o seu trilho; começaria todavia a trilhar o seu caminho apenas na década seguinte à alvorada da liberdade, nos anos 80, – com a ‘Menina dos Olhos d'Água’ – ele que já trilhara muito sulco na poesia feita de canções.

Pedro Barroso não foi um músico. Não foi um poeta. Pedro Barroso foi um esculpidor de cantigas. Manteve-se impassível a modas e foi sempre um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Escolheu os melhores acordes, os acordes certos, para fazer o seu povo indignar-se, para fazer o seu povo olhar para si, para os outros, e revoltar-se. Para fazer o seu povo voltar a olhar para trás, para o seu brasão de intranquilidade. Usava a palavra como arma, como no tempo do ‘Zip-Zip’, em que a arma tinha de ficar retida à porta da repressão. Mas não sabia usar a palavra só como arma. Porque isto de ser homem apaixonado e vibrante não tem só serventia em instigar à coragem do povo.

Homem apaixonado e vibrante, Pedro Barroso dedicou muita da sua arte ao amor, às coisas belas, à mulher – em sintonia, portanto. A ‘Menina dos Olhos d'Água’ é um poema de amor: de amor às coisas belas e de amor à mulher. Um poema quase cândido, apesar das referências à intranquilidade indisfarçável do autor. Um poema feliz e de bem consigo e com os outros.

A mulher, em Pedro Barroso, sempre foi tema de veneração nas suas letras, na sua música, até na sua expressão corporal quando se lhes vergava com admiração. A mulher, enquanto arquétipo de beleza, de sensualidade, de sedução, de veneração, foi sempre para Pedro Barroso uma ‘Menina dos Olhos d'Água’. Ironia ter escolhido o mês da mulher para partir. Esta canção, a canção mais obrigatória na sua carreira, é das criações mais perfeitas do trovador apaixonado, contemplativo e inspirado. Palavras cirúrgicas, sem um tom fora do lugar, sem uma sílaba fora do lugar.

Se D. Dinis não tivesse sido precursor das cantigas de amigo, Pedro Barroso ter-se-ia encarregado de as criar. Nele, ainda que estando séculos de poesia entranhados nas veias, corria o sangue dos que olham para o passado, sentam-se no presente mas sobretudo olham o futuro e o agitam. Pedro Barroso foi um homem de cada um dos tempos por que passou e naqueles em que viveu – um homem que se apaixonava com a mesma verve com que se desapaixonava. Um homem que lutou por Portugal, pelos portugueses, mas que disse durante 40 anos que não tinha sido para isto que cultivara o sonho da portugalidade.

Um homem que cultivou a revolução, o inconformismo, a luta, a indignação – sobretudo na consciência das pessoas, de todas as pessoas, de todos os portugueses. E, não o tendo conseguido, passou a pertencer onde queria pertencer: ao nicho, ao público menos padronizado, aos que pugnam por uma indignação começada mais pela substância e menos pela aparência. Trovador mainstream? A sua mensagem perpassa o sucesso que pudesse alguma vez ter tido.

Se pudesse voltar atrás? Decerto continuaria a usar a palavra como arma. Decerto se voltaria a indignar. Decerto teria chamado, como chamou, para tocar consigo os melhores músicos, reinventando as suas criações com arranjos cada vez mais belos. Decerto teria sido, como foi, um grande português. Decerto teria feito tudo da mesma forma – porque era convicto de que era essa a fórmula certa de ser um trovador com a arma certa. Lutando pelo seu país.

Pedro Barroso nunca quis olhar para si. Deixou a sua obra e quis que olhássemos para ela – então, agora e no futuro. Quis que gostássemos de gostar – não dele, mas das suas palavras, das suas cantigas, das suas criações. É esse o seu legado. O único que quis deixar. Ao escutarmo-lo, olhá-lo-emos olhos nos olhos, como nos fez a nós, e diremos: valeu a pena, Pedro Barroso. Obrigado.

Aprendi nos 'esteiros' com Soeiro
E aprendi na 'fanga' com Redol
Tenho no rio grande o mundo inteiro
E sinto o mundo inteiro no teu colo

Ouvir também: 'Cantarei' (1982). Todo o poema poderia ser o seu epitáfio.

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