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Selma Uamusse: “As minhas filhas estão em Bruxelas com o pai e é difícil estar longe”

A fé e a meditação têm ajudado Selma Uamusse neste tempo de isolamento social devido ao Covid-19. “Todos os dias faço uma ronda de telefonemas para amigos com quem estou preocupada e com quem também quero manter contacto, para não ficar maluca”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Como está a lidar com esta situação causada pelo novo coronavírus?
Com os cuidados que todos devemos estar a ter. Estou em isolamento social desde sexta-feira de manhã e tenho estado em casa. Só saí uma vez, ontem, para ir buscar umas compras que um amigo me fez. Tentei fazer encomendas online [em grandes superfícies] e estava tudo esgotado até dia 20 de março. Mas temos estado em família: estou com o António, o meu marido, que além de músico é professor e também não tem estado a dar aulas. Mas tem sido um bocadinho angustiante, porque as minhas filhas estão em Bruxelas [com o pai], e é difícil estar longe. Elas também estão em isolamento social, a ter aulas online, e é difícil ter família fragmentada nestas alturas. Os meus sogros estão em Coimbra, também é difícil, já começam a sentir saudades. A minha família em Moçambique estava um bocadinho afastada disto, mas agora já há suspeitas de pessoas infectadas por lá... Têm sido tempos de reflexão, acima de tudo. Sou uma pessoa de fé e acredito que este é um tempo de meditarmos sobre o que é realmente importante na vida. Há uma grande mudança de paradigma. No meio do isolamento que optámos por fazer, está a ser um excelente tempo de família, com telefonemas a amigos com quem já não falávamos há muito tempo, durante muito tempo... Tem sido um tempo de, apesar de estarmos separados, estarmos juntos. E na minha vizinhança criámos um grupo a que chamámos Bons Vizinhos, para nos entreajudarmos, até mais no sentido da disponibilidade para conversarmos e estarmos em contacto uns com os outros aqui no prédio. Este é um tempo desafiante, que estou a viver com inquietação mas também com a paz de que, se todos nós fizermos a nossa parte, as coisas vão correr bem.

Tem sentido alguma ansiedade?
Não me sinto ansiosa. Às vezes fico um pouco assustada, com as consequências de tudo aquilo que está a acontecer - económicas, para a cultura, na nossa forma de estar. Estamos todos a aprender a estar isolados e próximos por via dos telefones e da internet. Mas vamos mudar a nossa forma física de estarmos uns com os outros. Eu sou uma pessoa muito física, de abraços, de beijos, e acredito que esta pandemia também traga mudanças a nível comportamental. Mas não posso dizer que esteja ansiosa, e não é por estar despreocupada, porque efetivamente estou preocupada, mas porque acredito que venha aí algo de novo. Tenho de encontrar esse lugar de paz.

Como tem sido o seu quotidiano, desde que está em isolamento social?
Acordamos e temos sempre o nosso tempo devocional, em que fazemos as nossas leituras e temos o nosso tempo de meditação, mais espiritual. Exercício físico, tentar alimentar-nos o melhor possível, tentar não beber vinho todos os dias. (risos) Em termos de rotina, tentamos ter este tempo - que já tínhamos, no nosso dia-a-dia - de exercício físico e mental/espiritual. E estou a tentar arrumar coisas aqui em casa, a escrever coisas... Enquanto casal, tínhamos começado um projeto - KNOT3 - no qual estamos a tentar trabalhar, já que temos a oportunidade de passar mais tempo juntos. Estamos mais empenhados em compor e escrever para este projeto, uma vez que o meu próximo disco já está pronto. Estou a escrever a nível pessoal, porque é uma altura que nos inspira muito, mas sem nenhum drive específico. Só para guardar e memorizar este tempo. Parte da minha rotina passa também por, todos os dias, falar com as minhas filhas, tentando estar o mais próximo possível dela. E todos os dias faço uma ronda de telefonemas para amigos com quem estou preocupada e com quem também quero manter contacto, para não ficar maluca.

Imagino que os seus concertos estejam a ser cancelados ou adiados. Os concertos on-line poderão ser a solução?
Alguns concertos foram adiados, outros cancelados... A ideia dos concertos on-line custa-me muito, porque como já disse sou uma pessoa muito física e gosto de olhar para as pessoas. Para mim, é estranhíssimo ter de olhar para uma câmara e ter de fazer um concerto assim, ou imaginar que isso vai ser o conceito de concerto no futuro. Aceitei o desafio deste festival Ficar em Casa, mais no sentido da consciencialização, de apoiar o movimento social de dizer às pessoas para ficarem em casa, mas não porque seja um formato com o qual me identifique. Penso que vai ter de passar a ser uma ferramenta de trabalho, tal como ir para estúdio. Mas para mim não é, de todo, a solução ideal. Espero que consigamos combater este vírus e encontrar uma vacina, para podermos voltar a ter contacto físico e humano. Creio que esta ferramenta vai ter de ser usada nos próximos tempos, porque as pessoas estão a viver o medo. Mas espero que não seja solução.

Quer deixa alguma mensagem para quem a lê?
A minha sugestão: acho que é muito importante mantermo-nos informados sobre o que se está a passar, mas também temos de nos afastar do excesso de informação que nos prejudique mentalmente. A minha sugestão é que as pessoas se alimentem de coisas boas, que tenham fé, que tenham esperança. Que sejam amorosas umas com as outras. Telefonem às pessoas de quem gostam e não se esqueçam de dizer que as amam.