Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Vasco Sacramento

Vitorino Coragem

“Vai demorar anos até que a indústria da música em Portugal se reerga”, diz Vasco Sacramento, agente de artistas e programador do Capitólio

Vasco Sacramento é diretor da Sons em Trânsito, agência de concertos que representa nomes como Ana Moura, Pedro Abrunhosa, António Zambujo ou Carolina Deslandes, promotor do Festival F e detentor da concessão da sala de espetáculos Capitólio, em Lisboa. Em declarações à BLITZ, não tem dúvidas: as consequências do Covid-19 para a indústria da música em Portugal serão “monstruosas”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Vasco Sacramento, diretor da agência de espetáculos e agenciamento Sons em Trânsito (representante de nomes como Ana Moura, António Zambujo, Pedro Abrunhosa e Carolina Deslandes, entre muitos outros), promotor do Festival F, de Faro, e detentor da concessão da sala de espetáculos Capitólio, em Lisboa, considera que o impacto do novo coronavírus na música será "monstruoso".

"A nossa abordagem, numa primeira fase, foi cancelar tudo", afirmou. "O que estava agendado para março foi cancelado, abril para lá caminha. Vamos ver o que acontece depois", acrescenta, com cautela.

"Passar-se-á muito tempo, provavelmente anos, até que a indústria se reerga. O que está a acontecer não vai passar, vai ficar, com traumas e dor de todo este processo", alerta.

Lembrando que o setor dos espetáculos "dá trabalho a muita gente", Vasco Sacramento mostra-se preocupado com "centenas de empresas de palco, luz, som, agências, editoras e técnicos", prevendo "consequências dramáticas para o setor. Por melhor que reaja, o Estado não vai conseguir chegar a toda a gente", diz. "Inicialmente pensava-se que esta crise ia afetar sobretudo o turismo, mas será transversal".

Responsável pelo Festival F, em Faro, Vasco Sacramento confirma estar preocupado com o futuro dos festivais, mas acima de tudo "com a sustentabilidade da indústria da música portuguesa. Mesmo que seja possível salvar o verão, com festas, feiras e festivais, haverá uma diminuição do investimento e o público, a braços com o desemprego e um menor poder de compra, também se vai retrair".

Prevendo uma crise "pior que a de 2008" e uma "pancada inimaginável no setor", Vasco Sacramento alerta para duas situações: a necessidade de apoiar os músicos portugueses, quando o surto for debelado, e muita atenção a uma outra crise, "a social e psicológica".

"Com as famílias reunidas em casa, numa espécie de Big Brother constante, e com outras pessoas sozinhas em casa, durante semanas sem verem ninguém", os problemas de saúde mental deverão escalar, considera.

Quanto ao apoio à música portuguesa, explica: "Quando voltarmos à normalidade possível, terá de haver por parte de promotores, patrocinadores, câmaras, festivais e teatros a preocupação de proteger o produto nacional. Isto sem qualquer intenção xenófoba ou nacionalista. Levar aos festivais músicos portugueses, em vez de uma banda indie [internacional] que, dali a dois anos, já ninguém sabe quem é. É uma obrigação cívica [desses agentes] cumprirem o seu papel na sobrevivência da indústria".