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Rita Carmo

Capicua: “O vírus é mau mas o pânico é pior. A informação está pesada, a desinformação é insuportável”

“Temos de confiar nas pessoas que estão a liderar isto”. As declarações da rapper portuense Capicua sobre o impacto da Covid-19 na sua vida e na sua profissão. 2020 poderá ser um “ano perdido”

"Eu passo muito tempo em casa ultimamente, porque é aqui que trabalho, muitas vezes, e estou com o bebé. [Mais preocupante é] este ambiente de apocalipse com as notícias, as redes sociais, as rádios... As pessoas estão muito preocupadas e é muito difícil mantermo-nos focados, sem ansiedade e sem pânico, porque estamos, de facto, numa incerteza gigante, expostos a um medo do desconhecido enorme. E não é só a questão do vírus, é a crise económica que se avizinha. São muitas coisas que fazem com que a nossa saúde mental fique muito desprotegida. Há pessoas que vivem sozinhas e não têm a estrutura mental para aguentar esta sala de pânico em que estamos a viver".

As palavras são de Capicua, rapper do Porto que editou no início do ano o álbum "Madrepérola". Em conversa telefónica com a BLITZ, na manhã de segunda-feira, falou sobre a sua experiência de quarentena e na forma que encontra para aliviar o confinamento: "Ontem decidi pegar nos memes mais estúpidos e pus nas histórias do Instagram porque o pessoal tem que se rir. Se estamos só a partilhar informação sobre a epidemia vamos ficar todos piores. O vírus é mau mas o pânico consegue ser pior ainda. A informação já está pesada, a desinformação é insuportável. As pessoas têm todas que colaborar e manter o foco na informação que vem da Direção Geral de Saúde, do Ministério da Saúde ou da Organização Mundial de Saúde e ponto final. Acabou. Temos de confiar nas pessoas que estão a liderar isto".

Sobre a situação delicada em que os artistas ficam com os cancelamentos e adiamentos de concertos, afirma: "Isto é muito preocupante porque os nossos rendimentos dependem muito dos concertos. E não só os nossos... Os dos técnicos de som e de luz, todo o pessoal de estrada, os roadies, os músicos, os road managers, as agências, toda uma indústria que depende dos concertos".

Quanto à situação laboral dos músicos, a rapper defende: "todos nós temos cancelamentos que esperamos que sejam adiamentos. Nesse sentido, espero que consigamos controlar esta situação o mais depressa possível. A classe mostrou-se muito pronta a apelar às pessoas para ficarem em casa, a cancelar alguns concertos por livre e espontânea vontade e a acatar com toda a prontidão o cancelamento dos outros, porque achamos que quanto mais depressa a situação for controlada, menos mau para nós. No sentido em que a temporada mais ativa de concertos começa a partir de final de abril, maio".

O mais problemático, diz, é "se isto continua a entrar pelo verão adentro". "Mesmo que isto acabe daqui a duas semanas, o que é pouco provável - até ao final de abril de certeza que temos quarentena ou pelo menos as coisas muito condicionadas -, a partir daí há toda uma crise que é preciso tentar amenizar, com um verão que ele próprio vai ser marcado em cima do joelho. Agora, aquilo que eu espero é que os espetáculos, parte deles, não sejam efetivamente cancelados, que sejam adiados".

Além dos concertos, Capicua defende que isto prejudica também artistas que tinham edições de discos programadas para agora e se veem obrigados a adiar. "Isso interfere com a marcação de concertos porque já só conseguem marcar para o próximo ano. Portanto, este ano dá-se como perdido", continua, "há artistas que fazem digressões internacionais e que tiveram que desmarcar perdendo os voos, muitas vezes, que fazem com investimento próprio. Há pessoas que investiram em publicidade e em promoção e que perderam o dinheiro porque quando tudo for reagendado vão ter que fazer nova campanha de marketing para conseguir divulgar nova data. Há muito investimento perdido, quer de trabalho, de dinheiro, de parcerias que é impossível recuperar, obviamente. Agora, temos que pensar que a sobrevivência coletiva é mais importante e tentar arranjar novas formas de diminuir os impactos".

Sobre a forma como o governo e as instituições podem ajudar, a artista diz: "estive a ler que noutros países, quanto aos concertos que são feitos por instituições públicas, contratados por organismos públicos, auditórios municipais, câmaras, etc, estavam a estudar a possibilidade de pagar os cachês como se o concerto tivesse sido realizado, para as pessoas receberem o dinheiro agora, mesmo que só o façam daqui a uns meses. Isso para pessoas como os técnicos de som, roadies e músicos que se calhar dependem mesmo do concerto deste mês para pagar as contas e não têm um fundo de maneio".

"Os músicos que recebem um pouco melhor provavelmente têm poupança e um bocadinho de oxigénio, mas os músicos que recebem pior também estão como os roadies e o pessoal de estrada que tem cachês menores. É quase impossível algum dia fazerem uma bolsa de oxigénio porque, de facto, não é uma profissão fácil e é muito instável. Sempre soubemos que esta profissão era instável, mas nunca estivemos perante uma situação tão imprevisível, tão extrema e tão repentina", conclui, "agora, de facto, acho que é importante que o estado preveja formas de atenuar as nossas perdas... Nossas e de outras indústrias e setores de atividade que estão muito prejudicados".

Como sugestões, deixa a possibilidade de adiamento ou perdão de contribuições para a Segurança Social, durante estes meses, "compensações para trabalhadores a recibos verdes ou "tentar que alguns organismos públicos que adiaram os tais concertos pudessem, pelo menos, pagar uma parte dos cachês e depois pagar a segunda parte quando os concertos se realizassem, para as pessoas terem algum rendimento nestes meses de contenção". Sobre o que os músicos podem fazer: "arranjar novas formas, como estamos a fazer, de continuar a dar música às pessoas num momento tão difícil. Através das redes sociais, não ganhando dinheiro com isso, mas pelo menos fazendo o nosso papel de amenizar as dores da existência num momento em que isso é tão preciso".