Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Heróis do Mar

101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Amor', Heróis do Mar
1982

Foi uma cegada dos diabos, foi o que foi. 1981. Portugal em falência. Desemprego a subir em flecha. Inflação a rondar os 30%. A situação era tão calamitosa que o FMI entraria em Portugal 2 anos depois. Pior: muitos duvidavam já que muitas das conquistas de Abril pudessem ter sido uma miragem nas suas aspirações (é bem pior quando se goram expectativas do que o contrário). Portugal não perdeu todavia a sua militância política e era uma sociedade transversalmente politizada – apesar de a palavra de ordem não ser ‘no meu tempo é que era bom’ – porque o outro tempo tinha sido ontem e poucos por ele suspiravam.

As guitarras elétricas, as baterias secas, os baixos em destaque e as vozes guturais acendiam o novo rock que se fazia em Portugal. Dominavam as calças de cabedal, a pose bad boy e especialmente as letras, ainda que rebeldes, sem expressão revolucionária – as cantigas de intervenção dos anos 70 tinham perdido algum fulgor e ansiava-se por outro tempo novo. Tempo novo mas também nem tanto. Portugal não estava preparado para os Heróis do Mar. Foi uma cegada dos diabos, lá isso foi. Tudo nos Heróis era provocação. Era provocação o nome – numa época em que lembrar o passado glorioso era considerado fascista.

A Mensagem de Fernando Pessoa era fascista? Ter orgulho de ser português era fascista? Era, sim. Tudo servia para acusar fosse o que fosse de conspirações reacionárias. A censura parecia não ter acabado e os Heróis do Mar passaram a ser tabu em muitos meios. A iconografia dos Heróis do Mar lembravam o antigo regime – fosse o de Salazar, o de Franco ou o de Hitler, tanto dava. Para mais, as suas primeiras canções remetiam para um tempo passado – ‘Saudade’, uma delas – e para a glória que Portugal deixara esvair-se, ambas a constatar que Portugal já não tinha heróis. Era demasiada desfeita.

Certo é que a má propaganda não é uma boa propaganda. Ouvia-se 'Chico Fininho', 'Chiclete', 'Cristina (Beleza É Fundamental') ou 'Se Cá Nevasse (Fazia-se Cá Ski)' e vinham estes insolentes empunhar bandeiras de regresso a um passado que tanto trabalho tinha dado a libertar? Vinham. E em força. Tinham já sorvido muito punk, muito rock, muito new wave. Tinham já pisado palco com o ‘orpo Diplomático e com os Faíscas (os Faíscas que tinham como manager Zé Pedro – que estava longe de ter o cognome de ‘dos Xutos’).

Queriam fazer uma banda nova, com um som novo, com uma mensagem nova. E que obstinação tinham na música que queriam transmitir... Mas a má propaganda não é uma boa propaganda e os Heróis do Mar, apesar do outfit arrojado, apesar da excelente harmonia entre os músicos, apesar de ter um Rui Pregal da Cunha como cavalo à solta no palco, estavam à beira de um fim anunciado. Era preciso agitar as águas. Era preciso mudar de rumo para voltar ao rumo que tinham traçado com obstinado empenho. Era preciso uma pop levezinha que rasgasse com a imagem austera e implacável dos Heróis do Mar de 'Brava Dança dos Heróis'. Era preciso rivalizar com 'Cavalos de Corrida', 'Patchouly' ou 'Malta à Porta'. Era preciso o 'Amor'. E a história dos Heróis do Mar, apesar de não ter começado aí, começou sobretudo aí.

Pelas razões que fossem, erradas ou com razão de ser, certo é que os Heróis do Mar captaram a atenção – do público, das rádios, da TV, dos DJs das discotecas. 'Amor' era uma canção começada sem instrumentos, apenas com esgares de 'dráá-tá-tá-tá', que ficou na história da música em Portugal e que relembra os Heróis do Mar como uma das bandas mais consistentes daquele início frenético dos anos 80.

Os coros estavam a cargo de Né Ladeiras, ex-Banda do Casaco, banda igualmente de António Pinho, produtor dos Heróis do Mar. Atitude, visual cuidado e canções elegantes – mais ou menos polémicas – assim se escreveu a história da banda e também da história gloriosa de Portugal (tanto exaltaram feitos passados e acabaram por consegui-los eles próprios).

Os Heróis do Mar foram mantendo a pose e as canções vanguardistas por alguns anos. Tinham sobretudo músicos de excelência, letristas de excelência, uma voz e timoneiro de excelência. Era demasiada excelência para enquadrar dentro de egos que nem sempre se sintonizavam.

A partir de 1985, Pedro Ayres Magalhães ia alternando a sua farda ‘Augustus’ dos Heróis com o fato solene dos Madredeus. Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves aspiravam a uma carreira fora do Portugal pequeno. Cabia demasiada música em cada um deles. O grupo foi-se diluindo, espartilhando. A banda, essa, manteve até ao fim sinais de uma pop revigorante, viva, consistente, com décadas à sua frente de um futuro que não veio (Portugal sempre à espera de um ‘encoberto’, como na Mensagem de Pessoa, que tarda em chegar).

As long versions, as versões em outras línguas, a versão só Né Ladeiras e a versão original fizeram de 'Amor' uma canção intemporal de verdade – a lembrar aqueles tempos em que, como na mensagem que os Heróis do Mar cantavam, estava ainda quase tudo por descobrir na música portuguesa e no rock que se fazia, e faria, em Portugal.

Ai este caminho em flor
Cheio de sol
Perfumado com o nosso amor
Quando a tua mão e a minha
Trocam doçuras
No calor eterno de ternuras

Ouvir também: 'Fado' (1986). Os Heróis do Mar deslocaram-se a Macau (onde Pregal da Cunha havia nascido), prevendo ficar 10 dias. Acabaram por ficar um mês. Esta canção, do álbum ‘Macau’, é uma das mais belas criações da banda. Este álbum marcou uma nova comunhão entre os integrantes da banda e marcou, como contrassenso, o início do fim dos Heróis do Mar.

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

    Notícias

    João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

    Notícias

    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

    Notícias

    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

    Notícias

    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

    Notícias

    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

    Notícias

    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

    Notícias

    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa