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Covid-19 deixa indústria da música nos cuidados intensivos. O que vai acontecer aos festivais de verão?

Festivais cancelados, digressões adiadas, toda uma indústria em pausa. Nos Estados Unidos, os efeitos do novo coronavírus no negócio da música ao vivo já são uma realidade

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Depois de, esta semana, ser considerado uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde, o novo coronavírus continua a ser analisado de vários ângulos. O impacto que a disseminação da doença irá ter na indústria dos espetáculos, a nível mundial, é uma dessas abordagens.

Desde as primeiras notícias relativas ao novo coronavírus, inicialmente prevalente na Ásia, várias bandas e artistas anunciaram o cancelamento dos seus concertos naquele continente. Green Day, The National, Avril Lavigne ou Slipknot foram apenas alguns deles. Nos últimos dias, também os Pearl Jam cancelaram a sua nova digressão, onde iriam apresentar o próximo álbum, com saída marcada para dia 27 de março, e Madonna anulou as últimas apresentações da Madame X Tour em Paris.

Mas as medidas chegaram também aos grandes eventos, nomeadamente àqueles que se realizam na Europa e na Ásia. Em França, o festival Tomorrowland ficou sem efeito, e em vários países - incluindo, nos últimos dias, Portugal - foi recomendada a suspensão de concertos para um determinado número de espectadores, pelo menos até 3 de abril.

Desde o registo dos primeiros casos de coronavírus em Portugal, numerosos espetáculos têm sido cancelados ou adiados. De igual forma, a programação de teatros municipais do Porto, Lisboa e Braga, entre outras cidades, foi suspensa. Também a sala de espetáculos ZDB, na capital, estará fechada até abril. Todas estas decisões seguem-se ao anúncio do plano de contingência da Direção-Geral de Saúde.

Nos Estados Unidos, onde a época dos grandes festivais começa mais cedo do que na Europa, já é possível ter uma noção do impacto financeiro que o cancelamento de grandes eventos como o South by Southwest, no Texas, ou o festival de Coachella, que habitualmente se realiza em abril, e que foi adiado para outubro, deverá causar.

No caso do South by Southwest, que anualmente serve de montra para bandas emergentes de todo o mundo, estima-se que as perdas excedam os 300 milhões de euros. Embora tivesse seguro para intempéries e outros imprevistos, o festival de Austin não se encontrava segurado para este tipo de surto (de resto, as seguradoras terão retirado essa circunstância das suas apólices em janeiro, quando o novo coronavírus se tornou mais ameaçador).

Na sequência do cancelamento, a organização do South by Southwest teve de despedir um terço dos seus funcionários. A anulação de um festival desta dimensão tem também um impacto significativo nas economias locais; considerando que muitos espectadores viajam para certa região ou país com o fito de ver um concerto ou festival, os prejuízos abrangem proprietários de bares, restaurantes, hotéis e outros estabelecimentos.

No caso de Coachella, adiado para outubro, não é certo que, nessa altura, o festival consiga manter o cartaz que anunciara para abril, com nomes como os regressados Rage Against the Machine. Um dos festivais mais populares do mundo, o evento de Indio, na Califórnia, serve muita vez de arranque de digressões e de "cartão de visita" para vários artistas que, depois de lá atuarem, tentam "vender" concertos noutros festivais e noutros países. Em 2018, o festival foi transmitido em direto na net e visto por 41 milhões de pessoas, em mais de 200 países. Este ano, o adiamento deverá ter causado um prejuízo de quase 900 mil euros.

Ouvidos pelo NME, especialistas desta área explicam que, mesmo que nem todos os eventos venham a ser cancelados, a ansiedade entre os espectadores fará com que muitos fiquem praticamente sem público.

No artigo desta publicação britânica, refere-se que, como no Reino Unido os grandes festivais começam mais tarde do que nos Estados Unidos, há ainda tempo para ponderar se eventos como Glastonbury irão para a frente (eventualmente com recurso a tecnologias que permitem medir a temperatura dos espectadores, percebendo se se encontram contaminados).

Além do medo dos compradores de bilhetes, as restrições de viagens - ontem, Donald Trump proibiu as viagens dos Estados Unidos para a Europa durante um mês, e todo o espaço aéreo europeu encontra-se fortemente condicionado - poderão também prejudicar a indústria dos espetáculos.

Em Inglaterra, diz o artigo NME, o Sindicato dos Músicos pediu já ao Governo que lhes seja atribuído um subsídio, uma vez que, não podendo dar concertos, a sua situação se assemelha à de desemprego. A mesma publicação refere que, para complementarem o seu vencimento (de cerca de 22 mil euros por ano, abaixo da média do país), muitos músicos dão aulas, atividade que também terá de ser interrompida.

Em Portugal, a situação está também a preocupar músicos e agentes, muitos dos quais trabalham de forma precária, com recurso a recibos verdes - e sem representação sindical. A BLITZ sabe que nos últimos dias as vendas de bilhetes para os festivais de verão abrandaram muito. Porém, o facto de terem início apenas em junho deixa uma luz ao fundo do túnel para os promotores portugueses. Ainda assim, há que contar também com a colaboração dos artistas internacionais, cuja vinda é obviamente necessária para que os eventos aconteçam.

Mas a crise que se avizinha não afetará apenas os músicos e agentes, mas sim todos os que trabalham nesta área, nomeadamente equipas de som, luz ou merchandising, lembra o New York Times.

Nos Estados Unidos, o surto não afetou a digressão de Billie Eilish, que começou há poucos dias, ou a de Lady Gaga, para a qual já há bilhetes à venda. Mas Neil Young e Pearl Jam puseram, por enquanto, os seus planos em pausa.

Ontem, depois do anúncio de pandemia, as ações da Live Nation, a maior empresa de espetáculos do mundo, caíram 16,6%.

"Geralmente, agimos de forma reativa", disse Jonathan Daniel, da agência Crush Music, ao New York Times. "Se houver um furacão, adiamos os concertos. Agora estamos numa posição proativa, razão pela qual há tanta incerteza".

A situação é especialmente grave dado que, atualmente, é às digressões que os músicos vão buscar receitas, e não às vendas de discos.

Por enquanto, também em Portugal, muitos dos concertos previstos para as próximas semanas estão a ser adiados para o outono, na esperança de que, nessa altura, o avanço do novo coronavírus esteja mais controlado.