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Filipe Sambado

Rita Carmo

Exótico, tropical e popular. Filipe Sambado fez sensação no Festival da Canção mas é muito mais do que isso

Acaba de lançar o terceiro álbum, no qual se inclui 'Gerbera Amarela do Sul', a canção que leva na noite de sábado à final do Festival da Canção. Conversa serena com um artista capaz de despertar reações extremas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Acaba de se tornar mais conhecido do grande público, graças ao apuramento para a final do Festival da Canção, mas há mais de uma década que Filipe Sambado - nascido em Lisboa em 1985 - se dedica às canções. Em entrevista à BLITZ, falou sobre as grandes inspirações do novo “Revezo” - de José Afonso a Rosalía - e da influência “inconsciente” das suas origens alentejanas e algarvias na música que faz. Autorretrato de um músico que se considera “exótico e tropical”.

Neste disco é palpável e assumida a influência da música popular portuguesa. Mas a sua adolescência foi marcada por sons mais contemporâneos. Quem eram os seus favoritos, na altura?
Ouvia sobretudo [o que passava] na MTV, na Antena 3 e no Sol Música. Quando ia ter com o meu pai é que ele me mostrava os Mercury Rev ou os Arcade Fire... coisas que estavam a acontecer. O meu pai não me mostrava muito música do tempo dele, mostrava-me música que andava a ouvir naquela altura, e nesse período da minha adolescência era isso que estava a acontecer. Mas o que eu acabava por ouvir mais era Dr Dre, Eminem, Britney Spears, Justin Timberlake… uma amálgama de coisas que passavam na MTV e que me entretinham.

Já é de uma geração para a qual as fronteiras entre géneros musicais não fazem sentido?
Já perdi um bocado isso, sim. A mistura já é tão grande e a inovação passa [sempre] pela colagem, pela repetição, pela influência…

Aquela ideia das “tribos” musicais já não se aplica...
Na escola ainda apanhei isso. Havia malta mais ligada ao rock, ao punk e ao metal de forma genérica. Depois havia os que não ligavam muito a música e os que ligavam a música mas como eu, dentro de uma perspetiva do que era acessível. Eu não tive internet até vir para a faculdade; o acesso que tinha [à música] era mesmo muito limitado. Havia pessoas que já sacavam os seus discos na internet.

Veio para Lisboa quando veio para a faculdade?
Sim, em 2005. Fui estudar para a Amadora, para a Escola Superior de Teatro e Cinema.

A sua formação em Teatro e Dramaturgia reflete-se, hoje, no impacto cénico das suas atuações?
O meu interesse pelo teatro já vinha [da vontade de] ter algum tipo de voz e expressão criativa, fosse com a música, o teatro ou outro tipo de expressão. Acabei por ir estudar para lá e atualmente utilizo mais daquilo que possa ter sido o meu conhecimento mais aprofundado desse período. Quando comecei a fazer música, não ligava tanto a isso. À medida que fui fazendo isso no dia a dia, passou a ser uma coisa que podia ter mais impacto nos concertos, e a exploração tem sido meio logarítmica, em ascensão. Sempre a crescer, hiperbolicamente.

Quando começou a escrever canções?
Canções que interessem? (risos) Já foi relativamente tarde. A primeira canção que escrevi tinha 8 anos. Mas só comecei a perceber a importância do que digo e das palavras [com a banda] Cochaise [que fundou em 2010]. Antes disso, tinha só um desejo desenfreado de fazer qualquer coisa. Não sabia o que estava a fazer, era tudo muito ingénuo. Não sentia responsabilidade nenhuma no que estava a escrever ou a compor.

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Ao vivo toca com banda, e o disco anterior era assinado com os Acompanhantes de Luxo... mas a sua lógica é mais de cantor-compositor?
Por não ter tido nenhuma formação musical, fui-me dedicando a vários instrumentos ao mesmo tempo. E fui sempre compondo a pensar no que o outro instrumento faria. Comecei a aprender a tocar guitarra e bateria quase ao mesmo tempo, e aventurei-me nos pianos e nas teclas um pouco mais tarde, mas já imaginava o que queria que o outro instrumento fizesse. Isso também me atrasou bastante na minha técnica e no aprimorar de algum instrumento, que mais tarde começou a ser a guitarra.

É um processo solitário?

Não é solitário, estou sempre com pessoas à minha volta. Neste disco, não contei na totalidade com os Acompanhantes de Luxo, mas todos eles estiveram perto do disco. O Alexandre [Rendeiro], Alek Rein, ia ouvindo frequentemente [o que eu ia fazendo], pois tínhamos ensaios entre concertos, mas foi ao estúdio em três dias específicos para dar umas ideias. O Primeira Dama coproduziu o disco, fez os arranjos de vozes e as harmonias; o Chinaskee ajudou-me muito, sobretudo com o lado mais percussivo. Eles acompanharam-me na mesma, há é um trabalho de pesquisa que tem de ser mais solitário, porque não posso obrigar ninguém a bater com a cabeça nas paredes. Tenho de ser eu a bater com a cabeça nas paredes sozinho.

E quando nasceu o seu gosto pela música popular portuguesa?
Foi por gosto e por necessidade de descoberta. Sinto que já [está presente] no “Vida Salgada” [disco de estreia, de 2016], mas nos “Acompanhantes de Luxo” tenho [as canções] 'Dono da Bola', 'Dá Jeitinho', a 'Só Beijinhos' também puxa um bocado à chula… Mas neste disco houve uma pesquisa instigada. Quis tirar dúvidas com os mestres, perceber de que maneira é que posso aplicar isto ou aquilo. É um trabalho mais de escritório, de investigação.

A que fontes recorreu para tirar essas dúvidas?
De forma muito transversal, ao Zeca [Afonso] e ao “Por Este Rio Acima”, do Fausto, que me deu vontade de fazer este disco. E a Rosalía, que também me ajudou muito. Não tendo nada a ver com a portugalidade, mas por estar tão bem trabalhado esse lado tradicional com música mais moderna. Cá em Portugal outras pessoas também já o têm feito: o B Fachada fez esse trabalho muito bem, o Luís Severo, o Éme… o Conan Osiris, já com aqueles laivos de fado, o [Pedro] Mafama… Quis criar um espaço geográfico na minha música que não fosse só a língua.

O que mais admira na Rosalía?
Eu não senti que ela me tenha ensinado a ouvir flamenco, senti é que me ensinou a ouvir a música dela. O flamenco está lá; é óbvio que essa é a raiz daquilo, mas o que estou a ouvir é Rosalía e isso é super interessante, porque é o que lhe dá a data. Dá-lhe o tempo. Ouves aquilo e percebes que não tem 150 anos, nem 200, é mesmo de agora. E é dela por causa disso.

Afirmou que falta a alguma música portuguesa “identidade”. Refere-se à colagem aos modelos anglo-saxónicos?
Isso vai acontecendo, de períodos em períodos. A identidade não tem de ser uma coisa obrigatoriamente portuguesa. Já falei num caso em que é fácil de rever isso, embora seja bastante anglo-saxónico: a [editora] FlorCaveira tem uma identidade muito própria, por [os músicos] estarem ligados a um lado religioso, por serem batistas. E isso também lhes dá uma identidade muito própria. É nesse sentido que falo da identidade. É não soarmos a uma banda australiana, ou americana, ou inglesa. Não estarmos a ouvir o Tim Bernardes ou os Tame Impala e soar tudo [como se tivesse sido] feito na mesma cidade; esse é um aspeto globalizante menos interessante.

Participou na primeira eliminatória do Festival da Canção, sendo apurado para a final. Como está a ser a experiência?
Sinto que está a correr bem, estou agradavelmente surpreendido com o festival: é um sítio bastante protegido e permite-nos conhecer pessoas numa situação diferente, criando empatia com artistas que não conhecemos. E que se calhar não conheceria de todo, porque são distantes daquilo que eu faço. Isso já foi uma experiência ótima.

Não teve receio de ter um 'acidente', quando se levanta da poltrona e tira o manto?
Nos ensaios correu bem, na prestação foi quando correu pior! Temos umas coisinhas por baixo do manto, para dar textura, e o meu pé pisou uma coisa dessas e deslizou. Eu vacilei um bocado e assustei-me. (risos) Com medo que pudesse dar um trambolhão, sim.

Ler os comentários à sua atuação, no YouTube, é encontrar comparações a figuras tão díspares como David Bowie, Ney Matogrosso ou Cristina Ferreira. O que acha desses comentários?
Tenho gostado e têm sido sempre referências das quais me aproximo bastante, até a própria Cristina, por ser uma pessoa que é suficientemente ousada para tentar fazer qualquer coisa. À exceção daqueles que são gratuitamente homofóbicos, os comentários têm sido bastante simpáticos e mesmo as pessoas que não gostam [da canção] têm sido bem educadas. Há uma fação que é só desagradável gratuitamente e preconceituosa; os outros, mesmo que tenham opiniões diversas, estão a saber tê-las. Até estou bastante surpreendido.

Há também comentários de pessoas fora do país. É grande o impacto do Festival da Canção nesse sentido...
Mal o meu nome apareceu, recebi logo duas mensagens de compositores suecos que queriam trabalhar comigo: e eu ainda nem sequer tinha posto a música cá fora! Foi logo pelo Instagram. O impacto que isto tem, só por o teu nome aparecer, é impressionante.

De regresso ao seu disco novo, várias letras têm um caráter doméstico... é um reflexo da fase da vida que está a atravessar?
Sim, estou numa altura bastante consciente e menos fervorosa do que no disco anterior, em que estava a precisar de gritar algumas coisas más. Agora há um acerto maior, uma assertividade na maneira como vou falando dos assuntos. E uso sempre esse lado como contraponto do assunto real da canção, que tem na casa e na família, no bairro, nesse espaço de conforto, o seu sítio de paz. A sua meta.

A sua casa agora já é Lisboa?
Sim, demorou um bocado, mas já sinto isso. E eu nunca senti que fosse de sítio nenhum onde morei. Porque quando sais de um sítio, chamam-te sempre [natural do] sítio de onde vens, e quando regressas a esse sítio já não és de lá. Embora eu tenha nascido em Lisboa, não tinha morado cá antes. Mas agora sinto que é a minha casa.

O tempo que viveu no Algarve e no Alentejo influencia a sua música?
De forma mais inconsciente. Nunca pertenci a nenhum rancho, no Algarve, mas o corridinho era habitual num sarau de fim de ano, na escola, quando o grupo do rancho folclórico ia lá fazer uma demonstração de corridinho. Na altura do verão, também tínhamos mais acesso a isso. Não era algo que procurasse, mas estava lá. Da mesma forma que em Elvas - ou melhor, quando ia para Santa Eulália - era fácil passar num tasco e estarem quatro senhores a cantar. Há certos aspetos da musicalidade tradicional que acabavam por estar presentes, com um copinho de vinho. As pessoas dispunham-se logo a isso.

Recentemente cancelou um concerto no Hard Club, no Porto, depois de a sala receber um encontro do partido Chega. Foi estranho ver o deputado André Ventura escrever o seu nome, nas redes sociais?
Não estava à espera que tivesse aquela repercussão toda. Eu queria comunicar um cancelamento, explicar a razão e oferecer uma solução a quem já contava ir ao concerto - e foi isso que fizemos. Depois pegou-se naquilo e, como o próprio tem tido tanto tempo de antena, qualquer pessoa que por essa razão faça algum tipo de comunicado acaba por extrapolar para uma ligação maior.

Mas não é muito comum haver este tipo de tomada de posição por parte de músicos, em Portugal...
As posições vão sendo tomadas. É uma questão de não ter muito medo das repercussões que isso possa ter no teu trabalho. Eu quis fazer ver ao Hard Club que falharam naquilo que é a génese da casa. E eles fizeram um comunicado, a aperceberem-se disso e a fazerem uma tomada de consciência e de posição frente ao erro que assumiram ter cometido. Eu não fico de birra com o Hard Club. A posição deles foi tomada, se calhar tardiamente, mas foi. Agora as coisas estão resolvidas. O Hard Club também tinha todo o direito de dizer: “não, o Filipe é que está errado e nós queremos continuar a receber cá o partido x ou y”. Teriam todo o direito, e eu aí teria todo o direito de dizer: “OK, nesse caso vou continuar a não ir”.

Ainda o surpreendem os comentários homofóbicos que ouve, por se apresentar maquilhado ou de saia?
Surpreendiam mais na altura do disco anterior, em que para mim também era novo [apresentar-me assim]. Agora continuo a ficar desconfortável, mas já faz tão parte que é menos assunto. Claro que, se forem desagradáveis comigo na rua, eu vou ficar a ferver por dentro, meter a cabeça para baixo e seguir caminho, fugir da situação, que é o que normalmente faço. Mas já não [reajo] da mesma forma, ao ponto de escrever uma canção sobre isso, a precisar de falar do assunto. Se acontecer uma coisa maior, se houver um episódio mais agressivo, se for esbofeteado no meio da rua, pode acontecer precisar de escrever outra canção.

Mas já foi abordado na rua, por essa razão?
Já aconteceu abordarem-me na rua, mas nunca passa do comentário foleiro. O que acontece mais são os olhares. Pode haver um sítio ou outro onde são mais desagradáveis, se estiver de bâton ou de saia. No atendimento... mas nunca me aconteceu nada mesmo agressivo, tenho tido sorte.

Voltando ao seu gosto pela obra de José Afonso e outros grandes cantautores portugueses: a canção de intervenção ainda faz sentido?
Faz sentido a intervenção, porque é um apontamento ao erro, ao desconforto. Tal como a luta continua a ser pertinente. Há uma intersecionalidade de lutas, que se resumem a direitos básicos humanos que ainda estão por garantir. Nesse sentido, é importante continuar a ter esse cuidado. Não estamos é num período de resistência. [Esta época é] diferente daquela fase pré-25 de Abril, em que havia toda uma ditadura a acontecer. Temos lutas a fazer, mas não estamos num período de resistência.

De onde vem a sua ligação ao Brasil? Neste disco fala da pitaia, da paçoquinha...
A pitaia é por eu me chamar a mim próprio de tropical. De exótico. E porque é uma fruta muito bonita e rimava muito bem com praia. A poética às vezes também rouba pontos à verdade. (risos) A paçoquinha é um snack brasileiro de que gosto muito e que me fazia muitas vezes companhia, e faz, nos serões lá em casa, quando estamos a ver uma novela ou uma série, eu e a Cecília [sua namorada].

E são palavras engraçadas...
E criam imagens, isso é importante. Gosto de transportar as pessoas para a situação e a imagem tem essa capacidade. Não é obrigatoriamente a metáfora, é criar um espaço em que visualizemos em conjunto e consigamos perceber ou sentir melhor o que quero dizer.

No disco refere algumas vezes o caminho de casa para o trabalho e vice-versa. Tem um emprego além da música?
Não tenho há um ano, mas
as letras foram escritas nesse período.

O que fazia então?
Era perchista na televisão, trabalhava em novelas.

Agora dedica-se exclusivamente à música?
Agora estou só a fazer música, desde janeiro de 2019.

E dá para viver?
Agora está a dar. Tem estado a correr bem. Se for preciso voltar a trabalhar, não há problema. Se calhar os discos teriam de ser mais espaçados, porque já começo a sentir mais o cansaço. Dantes fazia um esforço para, depois do trabalho, ainda ir fazer música. Agora acho que, se tivesse um trabalho, não ia ter tanta capacidade física.

Filipe Sambado atua a 20 de março no Arraial da Jameson (no Espaço Todos, em Marvila, Lisboa); a 27 de Junho no CCbeat, no Centro Cultural de Belém, também em Lisboa, e a 3 de maio no Sonoridades, no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves. O seu terceiro disco, “Revezo”, já está nas lojas e nos serviços de streaming.