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Adolfo Luxúria Canibal em Braga, dezembro de 2019

Rui Duarte Silva

“Ainda há intensidade no rock. Mas a música deixou de ser importante, passou a ser um acessório”. A entrevista com Adolfo Luxúria Canibal

Adolfo Luxúria Canibal, eterno frontman dos Mão Morta, deu-nos uma longa entrevista aquando do seu 60º aniversário. A sua banda de sempre foi um dos temas de conversa, tal como a intensidade (ou falta) dela do rock atual, Greta Thunberg e a lógica “perversa” do capitalismo, o filho rapper e muito mais. Leitura obrigatória neste fim de semana

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No ano passado, os Mão Morta lançaram “No Fim Era o Frio”, o mais recente álbum de originais num percurso longo e rico ao qual Adolfo Luxúria Canibal prefere não aplicar o termo “carreira”. Em dezembro, a escassas semanas de completar 60 anos, o músico e escritor, que trabalha como consultor jurídico no Instituto de Conservação da Natureza, recebeu o Expresso na sua cidade de Braga para uma longuíssima entrevista de vida. Do “outro lado” da conversa saiu uma nova entrevista, que a BLITZ publica agora.

Zé Pedro dizia que, na evolução dos Xutos & Pontapés ao vivo, a banda tinha assistido igualmente ao evoluir das infraestruturas para receber música ao vivo em Portugal. Os Mão Morta também sentiram isso?
Sentimos. Antigamente os concertos eram dados, na melhor das hipóteses, em pavilhões gimnodesportivos como o Pavilhão Dramático de Cascais, que era um símbolo da música em Portugal, graças ao Cascais Jazz mas não só - os grandes concertos eram lá. Outro local de concertos mítico em Portugal era o Pavilhão dos Desportos, atual Pavilhão Carlos Lopes. No Porto era o Pavilhão Infante Sagres! Hoje é impossível pensar dar concertos nesses sítios. Os sítios eram horríveis, em termos acústicos. Punhas uma banda portuguesa a tocar e não se percebia nada do que dizia o vocalista. Não havia know how, não havia instrumentos, não havia técnicos… ou técnicos suficientemente bons para se conseguir fazer um concerto tecnicamente bom ou razoável, sequer. Quando o Rock Rendez Vous surgiu, foi uma revolução enorme, porque de repente conseguia-se ter condições mínimas para ter uma boa acústica, e não era nada de extraordinário. Agora fazemos grandes concertos em salas, que na altura não existiam, ou estavam abandonadas ou circunscritas ao cinema… Hoje existem, por todo o país, e as pessoas queixam-se que estão sentadas. Eu prefiro mil vezes estar sentado a ver um concerto rock do que num pavilhão a ouvir uma barulheira de um suposto concerto rock. Eu vi os Can no Pavilhão Infante Sagres, e não me lembro de uma única música que tenha ouvido! Era uma massa sonora! E quem diz os Can diz muitas outras coisas. Hoje as condições não têm nada a ver. São dois tempos completamente opostos. Houve uma evolução enorme, não só de know how - dos próprios músicos, dos técnicos, de facilidade de acesso a bons instrumentos, amplificadores e PA - como também as salas mudaram radicalmente. É verdade que não há muitas salas onde as pessoas possam desfrutar de rock and roll no máximo, de pé, com bom som, mas há muitas salas onde se pode ouvir música e perceber o que se está a passar. Houve uma mudança enorme e nós sentimos isso, como espectadores mas também como músicos. Os Xutos provavelmente passaram [de tocar nos] atrelados dos tratores para os pavilhões, nós passámos dos pavilhões para os anfiteatros. (risos)

Foi no Rock Rendez Vous que protagonizou, em 1989, o famoso episódio das navalhadas na perna, do qual já disse recordar-se mais através do mito do que de memórias reais. Como seria se tivesse acontecido na era dos telemóveis e das redes sociais?
Há muito poucas fotografias disso. Hoje em dia vais a qualquer concerto e tens uma batelada de fotógrafos lá à frente, além dos fotógrafos todos com telemóveis que estão atrás. Na altura não havia telemóveis, nem fotógrafos profissionais. Havia o Cameraman Metálico, o Rui Vasco às vezes aparecia nalguns concertos, e o Peter Machado, que aparecia sobretudo nos concertos de rockabilly. Na altura, ou estavas lá ou não estavas.

Ao vivo no Rivoli, em 1988

Ao vivo no Rivoli, em 1988

Paulo Duarte

“Neste momento, tocar em Lisboa é das coisas mais horríveis do mundo”

Os concertos de hoje já não têm a intensidade que um concerto como o da “facada” no Rock Rendez Vous tinha?
Continua a haver intensidade. Quando falamos em massificação, falamos em presença em concertos e na quantidade de concertos que existem. Essa é a massificação de hoje, não é a venda de discos. A música deixou de ser uma coisa importante. Passou a ser um divertimento, um acessório, um passatempo. Ainda há bandas que são de uma intensidade incrível. Muitos dos antigos continuam a ser de uma intensidade incrível: vemos o Nick Cave, ou os Swans, e são concertos super intensos. Não tem de haver violência para a intensidade acontecer. Depois vemos 90% das coisas que passam em Portugal, e na altura se calhar não passavam, e é entretenimento. Não aquece nem arrefece. Vais lá, reconheces as músicas que ouviste nas publicidades, ficas todo contente porque as reconheces, e na música seguinte já estás a falar com o colega do lado porque já não sabes do que é que se trata, e estás-te a marimbar. É pano de fundo, não há intensidade. E os músicos comportam-se da mesma maneira: fazem umas malhas lindas, umas melodias engraçadas, para encher o ouvido, e limitam-se a reproduzir o mais fielmente possível a musiquinha que gravaram para o disco, ou para a internet. Quando vês o Ty Segall tu sentes a intensidade, quando vês os The Oh Sees sentes a intensidade. Mas são exceções.

As pessoas estão menos ligadas ao que se passa em palco?
Neste momento, tocar em Lisboa é das coisas mais horríveis do mundo. Porque o público de Lisboa deixou de se interessar por música. Nós temos 35 anos de carreira, sensivelmente, e o público de Lisboa sempre foi o melhor. É o sítio onde tocamos mais, o que primeiro nos recebeu e deu importância e fez com que ganhássemos consistência. E tocar em Lisboa era sempre uma prova de fogo. [A cidade tinha] um público super exigente, muito forte, conhecedor - um público particular. Hoje vais tocar a Lisboa, tens a casa cheia e o público está ali como se estivesse num encontro social! Deixou de ir ver concertos! Está a conversar, a beber cerveja, a conviver. Não acontece isso no Porto! No Porto as pessoas vão ver o concerto! Os concertos transformaram-se numa coisa tão corriqueira, tão pouco intensa, que o próprio público reflete essa displicência. A culpa é dos músicos, acho eu. Se o concerto for mesmo a sério, o público não consegue ficar indiferente.

Falou de Nick Cave. Os Mão Morta chegaram a tocar com ele em 1988. E tanto os Bad Seeds como os Mão Morta continuam firmes e hirtos. O rock hoje não é para novos?
Em termos de género musical, com impacto social, o rock já teve melhores dias. Hoje não tem. Mas, enquanto expressão artística, sempre foi uma coisa minoritária, de exceção. Essas coisas intensas, que correspondem a uma expressão mais artística da música, continuam a ser minoritárias. Sempre foram. Não me admira que alguns dos antigos que sobreviveram correspondam a essa intensidade, mas há [artistas] novos que também são minoritários e que transportam e renovam essa bandeira. Este último disco do Iggy Pop [“Free”, de 2019] é extraordinário. Para mim é dos melhores discos que ele alguma vez fez: o melhor a seguir ao primeiro a solo, “The Idiot” [de 1977].

Em 1992

Em 1992

Rita Carmo

“A heroína desaparece quando atinge níveis de mortandade e degradação pública que afastam os novos potenciais consumidores, pelo susto que causa”

De que discos dos Mão Morta tem mais orgulho?
Começo logo pelo mais recente [“No Fim Era o Frio”, 2019], estou muito contente com ele. Mas há outros: o “Mutantes S. 21” [de 1992], é um disco de que me orgulho por vários motivos. Por um lado, o resultado final satisfaz-nos muito e também [o valorizo] pela história da gravação, pela relação que iniciámos a partir desse disco com o José Fortes. Um disco não é só a música. O primeiro [“Mão Morta”, 1988] também foi muito importante para mim. Porque é o primeiro, por aquela experiência de entrar a sério num estúdio. Não nos sentimos contentes com o som final, mas ainda assim é fortíssimo e continuamos a achar que não há outro disco português com aquela rudeza, com aquele massacre sonoro. O “Primavera de Destroços” [2011], em que voltamos às canções soltas, depois de muito tempo a trabalhar em discos conceptuais, é muito bem conseguido. E o “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” [1998], enquanto disco concetual correu muito bem. Foi um parto muito difícil, demorou muito tempo a fazer, mas o resultado deixou-me muito contente. O penúltimo [“Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”, de 1998], apesar de toda a polémica que o envolveu e que me irritou enormemente, e que não tinha a ver com o disco mas com o vídeo, está com um som do caraças. É dos discos com melhor som que nós temos, e gosto muito das músicas, apesar de serem soturnas e pesadas e representarem uma época muito negativa. Acho que as músicas e as letras são das melhores coisas que já fizemos. E gosto muito do “Nus” [2004], o meu disco francês. O meu disco de saudades por Braga e o que se calhar me fez regressar à cidade. E se há músicas que hoje é doloroso ouvir, não por estarem mal tocadas ou mal feitas, mas por representarem psicologicamente uma época que foi dolorosa para mim, está muito bem conseguido. O tema principal, o tema longo, é uma das nossas melhores obras. E [gosto também] dos dois discos que são ao vivo mas de originais, o Muller [“Müller no Hotel Hessischer Hof”, de 1997] e o Maldoror [2008], pelo que são: duas obras marcantes na nossa história. O “Müller” foi um risco enorme, nem sabíamos o que estávamos a arriscar, mas correu muito bem, e gosto muito do resultado. No “Maldoror” já sabíamos o risco; é um trabalho estranho, sobre um livro que me dizia muito a mim, pessoalmente. Achava que era impossível criar alguma coisa a partir desse livro, sem atraiçoá-lo, e acho que não atraiçoou. Apesar de o vídeo não ter ficado tão bom como eu gostaria -, em termos imagéticos não [conseguimos] revisitar o que terá sido o espetáculo - em termos sonoros a coisa ficou muito bem captada.

Como seriam as canções de “Mutantes S. 21”, se uma canção como 'Lisboa', por exemplo, fosse reescrita à luz da gentrificação?
[Ao escrever sobre] aquelas cidades, tentei pegar naquilo que era perene nelas. Na sua essência. E nesse sentido, Lisboa, apesar dos pormenores [da letra] já não estarem lá e de aquela relação com a droga, que era geracional e não da cidade, já não existir... e de aquela Lisboa de que falo lá, do Cais do Sodré, se ter transformado numa coisa turística, de divertimento turístico e entretenimento, que nada tem a ver com aquela Lisboa pesada em que se adormecia nos passeios... Apesar disso, há ali uma espécie de aura que percorre o tema e continua a ser a aura de Lisboa.

Mas não estará a heroína a voltar?
É normal, porque tanto quanto sei, pelos meus estudos sobre os fenómenos das drogas, as coisas são cíclicas. É uma droga que desaparece quando atinge níveis de mortandade e degradação pública que afastam os novos potenciais consumidores, pelo susto que causa. Seja pela morte ou desintoxicação, desaparece do público ou restam alguns velhos junkies, mas no recato. E depois vem uma nova geração que já não teve contacto com a geração mais próxima e é todo um mundo que se abre para elas. E tornam a cometer exatamente os mesmos erros, como se nada se tivesse passado. E a história da heroína no rock é esta. A primeira entrada foi no final dos anos 60; tinha havido uma cena de heroína nos anos 50, mas mais ligada ao jazz, de que os hippies e velhos freaks não tinham conhecimento. Os beatnicks, que tinham tido conhecimento, fugiram da heroína. Os hippies já não tinham conhecimento, por isso deixaram-se entrar. Os anos 70, até 1976 ou 1977, foram anos terríveis. Então desapareceu, os punks não entraram muito nela, a não ser na fase final, quando já não tinham conhecimento dos velhos hippies. Depois volta nos anos 80 e desaparece nos anos 90 e volta nos anos 00 e 10. É normal que os ciclos se sucedam.

Em 1994

Em 1994

Rita Carmo

“O meu filho faz trap, que é uma coisa que eu nem sabia que existia”

Em tempos disse sobre o seu filho mais novo que sabe mais música do que o pai...
Desde cedo que começou a aprender piano. Se bem que tenha deixado o piano, agora [tem 21 anos] e é rapper: escreve muito bem, tanto quanto me é dado a entender, porque escreve em francês. Está a fazer concertos em França, agora.

Qual o seu nome de rapper?
Druide. Lançou o primeiro EP, em 2019, e está todo contente, a fazer a sua carreira, a dar os primeiros passos, sem interferência minha. Está noutro mundo, no qual não sou ninguém, por isso não tenho qualquer hipótese de influir, mas ainda bem que assim é. Porque assim faz o seu percurso. Não sou consumidor desse género, não tenho grandes referências... para mim é muito interessante o que ele faz, mas eu sou pai! O lado afetivo sobrepõe-se ao lado analítico, até porque neste género o lado analítico é nulo. Ele faz trap, que é uma coisa que eu nem sabia que existia. A primeira vez que lhe dei um iPod meti-lhe [lá dentro] uma enciclopédia de pop-rock. E ele ouviu muita coisa, conheceu muita coisa. Mas começou a ouvir rap e agora quer é que eu ouça a música dele. É um martírio, porque há coisas que são mesmo terríveis! Eu não gosto nada do tecno de dança e esses subgéneros, ele obriga-me a ouvir cada coisa. São sessões de martírio, sobretudo no carro. Ele diz: “agora vou eu para a frente, sou eu que ponho música!” Há coisas de rap interessantes que ele põe… E diz: “já sei qual é o género que tu gostas”. E são grandes lavagens. Mas agora é ele que me faz a mim.

Consegue estar com os seus netos, filhos da sua filha mais velha, que vive fora do país?
Os meus netos agora vivem em Braga. A minha filha veio viver para Braga, está a trabalhar na Maia. Um deles viveu nos Estados Unidos, e depois viveram os dois na Irlanda. Agora vivem em Braga e felizmente já estou mais com eles.

Para os seus netos, o Adolfo é o avô?
Claro. Outro dia apareceu uma fotografia no jornal - eu com eles - e o mais velho veio ter comigo: “olha, estamos aqui no jornal!”. Todo contente.

Que idade têm eles?
O mais velho tem 5 anos, o mais novo tem 3.

Foto de capa na BLITZ, em 2009

Foto de capa na BLITZ, em 2009

Frederico Martins

Quando os Mão Morta fizeram capa da revista BLITZ, o diretor Miguel Cadete escreveu no editorial: “Foi nessa distante década de 80 que se forjaram aqueles que, ainda hoje, são os nomes que vão dominando o mercado português da música; falo dos discos mas, sobretudo, dos espectáculos. E assim é porque essa foi uma revolução lançada pela classe média, a mesma que tinha uma entidade paternal capaz de suportar os prejuízos de carreiras que nos primeiros anos não surtiam qualquer resultado”. Ainda é assim?
É verdade que, em Portugal, os músicos vêm quase todos da classe média, média-alta. É normal, primeiro porque os instrumentos eram caros, e ainda não são propriamente baratos, apesar da diferença abismal dos anos 80 para agora. Quando se fala em classe baixa, hoje em dia, é difícil falar do proletariado; o proletariado ascendeu quase todo à classe média, em termos de estratificação. As pessoas mais ligadas à pobreza, que vivem nos bairros de lata ou nos bairros sociais das grandes cidades, ou as pessoas no campo, não fazem música que pessoas como o Miguel Cadete ou eu ouvimos. Ou os jornalistas na generalidade, os melómanos. São muito mais ligados à música pimba, e a maior parte dos seus intervenientes vem das classes pobres. O rock and roll, nos países anglo-saxónicos, é uma música ligada à classe pobre, e nos Estados Unidos ligada aos negros, porque tem uma origem de certa forma racial. Nas suas origens, o rock e os blues são muito raciais, por isso é normal que a classe mais ligada à pobreza faça esse tipo de música, porque é a música que lhes pertence; a classe média é que faz essa aculturação. Em Inglaterra a mesma coisa: há uma escola de rock proletário, mas também a escola do rock ligado às artes e da classe média. O rock proletário é muito mais primitivo. Mesmo o punk não era uma música proletária: na sua essência era uma assunção artística, apesar de primitiva. E era classe média. Os punks originais, de 76/77, eram todos da classe média. O rock em Portugal é uma aculturação, por isso é normal que seja a classe média a fazê-la e não o proletariado. As pessoas ligadas à pobreza têm outro tipo de consumo musical e reproduzem esse tipo de música quando a fazem. Não é música que seja abarcada pela intellegentia urbana, apesar de o pimba ter feito o seu caminho nos meios estudantis e hoje em dia ser muito conceituado por alguns licenciados. E de ser consumido por licenciados que subiram na vida, que vieram do campo e chegaram à cidade... com origens em jornaleiros, hoje em dia doutores. O pimba está presente, faz parte da cultura dessas pessoas. Já não é tão depreciativo como quando era a música de sopeiras e donas de casa.

“Nunca se chegou a um ponto de degradação da conservação da natureza em Portugal como atualmente”

Continua a achar, como disse há alguns anos, que o panorama político em Portugal é de fugir?
Não sou grande interessado por política, no sentido tradicional, partidário. Há um dado novo que entrou no discurso político, que é o do ambiente. E eu acho muito interessante que tenha entrado, porque é importantíssimo e não fazia parte das nossas preocupações institucionais, políticas. É verdade que existe um Ministério do Ambiente, que existem áreas protegidas e que a conservação da Natureza está espelhada em termos de superestrutura. O ruído e a poluição são as grandes questões quando se fala de ambiente, mas na prática não havia nenhuma preocupação ambiental. Os partidos não tinham isso, de forma séria nos seus programas, no seu discurso. Não havia partidos, tirando os Verdes, que no fundo eram uma espécie de esvaziamento de possíveis verdes reais por parte do PCP… Podia-se fazer as maiores aberrações, a nível ambiental, que ninguém dizia alguma coisa. E o mais paradoxal é que os grandes ministros ou secretários de estado do Ambiente, e as [principais] políticas do ambiente, tinham sido feitas pelo PSD, o que era um absurdo! E as pessoas diziam que, quando o PS chegava ao poder, o ambiente deixava de estar na ordem do dia. E olhávamos para o Bloco de Esquerda, que era um partido fraturante a nível de questões sociais, muito ligado às preocupações do eleitorado urbano, e era completamente omisso em relação às questões ambientais. Olhávamos para o PCP e era a mesma coisa, mas com outras desculpas: o PCP defendia mesmo a energia nuclear, questões que já desde os anos 70 eram postas em causa pelos movimentos ecologistas. Era aberrante, como o é nas touradas; o PCP é profundamente reacionário em algumas questões sociais, que não sejam estruturalmente económicas.

Esta vinda à ribalta das questões ambientais, que tem muito a ver com a questão do clima, vem a reboque dos incêndios… Independentemente dos pormenores e das especificidades - da proteção civil, dos bombeiros e da florestação que se fez em Portugal durante muito tempo -, os incêndios são uma consequência do aquecimento global e das alterações climáticas. Todo o avanço lento que tinha havido em questões ambientais em Portugal, nomeadamente nas que me dizem mais respeito a mim, da conservação da natureza, em governos sucessivos, nomeadamente do PSD, levaram uma grande rabecada com o Governo de Passos Coelho e com a Troika. E foram mais de 20 anos que se andou para trás. Chegou-se a pontos que nunca tinham sido sequer equacionados. Nunca se chegou a um ponto de degradação da conservação da natureza em Portugal como atualmente. Desde áreas protegidas completamente desinvestidas, até políticas perfeitamente aberrantes, tudo isto foi trazido pelo governo de Passos Coelho e [Assunção] Cristas, que foi a grande responsável pelo ministério que tomou conta do setor. São feridas que ficaram; há coisas terríveis. A destruição ambiental, o buraco do ozono, a extinção de uma espécie, a descida de níveis de proteção de áreas ou habitats.. podem ser prevenidas, mas é muito difícil serem repostas. Ou então custa tanto dinheiro que não são investimentos económicos reembolsáveis, ninguém os vai fazer.

Em 2014

Em 2014

Paulo Cunha Martins

“Acho a Greta Thunberg incrivelmente forte. Não é fácil aguentar esta guerrilha, esta pressão, este nojo que as pessoas lançam sobre ela. É preciso ter uns tomates do caraças! Eu não tinha”

Fica espantado com as reações de hostilidade que a Greta Thunberg desperta nas redes sociais, por exemplo?
Não me admira. É muito simples: a conservação do planeta é dificilmente conciliável com a lógica capitalista. A lógica do capitalismo é uma lógica de lucro desenfreado… pode ser mitigada pelo chamado capitalismo verde, ou pela social-democracia, mas é sempre a mesma. E as crises fazem parte desta lógica, são sempre saltos de mais lucro, de mais ganho, de maior concentração de riqueza. Quando há vozes que põem em causa essa lógica, em nome de uma sobrevivência qualquer, neste caso do planeta, do nosso próprio habitat de seres humanos, estas forças tendem a reagir. Quando essa voz encarna numa miúda, em que podemos pôr em causa a sua capacidade de raciocinar ou o seu conhecimento, dizendo que não tem idade para saber, que uma miúda com aquela idade devia estar na escola, que é menor deviam ser os pais a falar por ela… tudo isto são fragilidades facilmente utilizáveis para concentrar baterias e destruir essa voz que se torna incómoda e que é como a criança que grita que o rei vai nu! E se vai nu, há que imediatamente dizer: “é uma criança! Ela sabe lá se a pessoa está vestida ou está nua”. É normal e expectável que isto aconteça. Eu acho-a incrivelmente forte. Não é fácil aguentar esta guerrilha, esta pressão, este nojo que as pessoas lançam sobre ela. E ela deve continuar a dizer: “quem sois vós?”. É preciso ter uns tomates do caraças! Eu não tinha, nem nada que se pareça.

Alguma imprensa salientou, por exemplo, que Greta Thunberg veio a Lisboa de barco, mas que a embarcação custa alguns milhares de euros...
Tudo serve para denegrir o símbolo. Quando se vai atacar uma baleia, há vários flancos. Por muito forte que seja o bicho que tens pela frente, há sempre flancos por onde o podemos derrotar. E qualquer flanco é bom para enfraquecê-lo; o que é intolerável é que possa pôr em causa os lucros e a concentração de riqueza e o desenvolvimento normal do capitalismo, em nome seja lá do que for. A lógica já nem sequer é uma lógica pessoal: a maior parte dos milionários é simpática e boa pessoa. A lógica é a do sistema, que é absurda e perversa. Começa pela propriedade privada, que toda a gente respeita porque tem esperança de um dia vir a ser proprietário. Quando esse dia chegar, a pessoa quer é que ninguém a chateie, por isso também não vai chatear os proprietários. Mesmo que 99% dessas pessoas nunca venham a ser proprietários de nada, nem sequer do seu tempo. E é esta lógica perversa que faz com que o desenvolvimento do capitalismo e a ideia de criação de riqueza constante e permanente, à custa da depauperação e da destruição do planeta, não seja sequer equacionada. Porque há de chegar o dia em que elas hão de querer também ganhar dinheiro, há de chegar o dia em que também vão ter de depauperar o planeta, há de chegar o dia em que vão querer o seu naco de arroz ou as suas azeitonas alentejanas, apesar de elas virem cheias de sangue de pássaros. E isso é mais forte. Se alguém vem dizer que o rei está nu, as pessoas vão dizer: “não podes dizer isso, senão o meu azeitezinho não vem!”.

Nos Prémios BLITZ, em 1995

Nos Prémios BLITZ, em 1995

Rita Carmo

Quando os Mão Morta receberam o prémio Carreira do jornal BLITZ, em 2001, disse: “Nenhum de nós pensa os Mão Morta em termos de carreira. É o nosso percurso que nos faz sentir que valeu a pena continuar, porque estamos a fazer aquilo de que gostamos”. Continua atual?
Continua super atual! Nós nunca pensámos as coisas em termos de carreira. Temos uma carreira porque o tempo passou. O que [partilhamos] verdadeiramente é uma paixão pela música. Os motivos podem ser diferentes para cada um de nós, mas por qualquer motivo a música entrou na nossa vida e, a partir do momento em que entrou, passámos a gostar dela e a querer conhecê-la melhor, a ter uma relação o mais diversificada possível com ela, a aprender coisas novas. É isso que nos move, essa busca constante de bem-estar com a música. É esta ânsia, esta busca, este conviver que vai criando o nosso lastro. Olhamos para trás e efetivamente temos uma grande história. Mas não a fizemos porque queríamos, ou com a consciência de que estávamos a fazê-la.

O universo dos Mão Morta é considerado sombrio. Há um lado de humor que escapa a muitas pessoas?
Há um lado de humor negro muito grande na banda. Nas letras e no nosso quotidiano. Divertimo-nos imenso, estamos sempre a mandar boquinhas, private jokes… A primeira pessoa que apontou esse lado do humor sub-reptício na nossa música e nas letras foi o Luís Maio, há muitos anos, no jornal BLITZ. Mas muito pouca gente se dá conta que existe uma grande dose de humor e brincadeira no que nós fazemos, já nem digo valorizá-lo ou referi-lo.

É preciso esperar muitos anos, até ao punk, para as mulheres começarem a ganhar algum respeito no rock”

Há pouco referiu a polémica causada pelo vídeo de 'Horas de Matar'. Que consequências teve?
Houve alguns políticos que se insurgiram. Cancelaram-nos alguns concertos por interferência de políticos, mas foram sobretudo as redes sociais e os jornalistas. Há muitos jornalistas que são cães de fila: de políticos, de partidos, de interesses económicos. A pessoa tem aquela noção romântica do jornalista como defensor da liberdade, como uma espécie de cavaleiro andante da pureza social, mas a maior parte são uma cambada… é [uma ideia] assustadoramente falsa.

Sessão fotográfica do álbum “Nus”

Sessão fotográfica do álbum “Nus”

Como frontman de uma banda que tem uma mulher na sua formação - a baixista Joana Longobardi -, como vê a situação das mulheres no rock? Continua a ser um mundo sobretudo masculino?
Outro dia a Marta [Abreu, sua mulher] contou-me, furiosa, que anda aí um documentário aí sobre as mulheres no rock. E falavam de várias bandas - atuais, outras do passado -, mas não falavam das Voodoo Dolls, às quais a Marta pertencia. E ela: “como é que uma coisa destas pode ser séria se não fala das Voodoo Dolls? Não se documentam minimamente para perceber qual é a origem disto tudo?”. A Marta foi baixista das Voodoo Dolls e saiu, foi substituída pela Joana Longobardi. Ela nem tem especial orgulho [nisso], mas quando vê um documentário e o escamotear dos factos, ficou furiosa! E com toda a razão. Havia outra banda com miúdas, de Benfica, que também não estava nesse documentário. Pensar nas Anarchicks como expoente máximo do rock feminino é esquecer que já houve bandas muito mais inéditas e fortes - e num ambiente muito mais hostil! Mas [é verdade que o] ambiente do rock, em Portugal ou lá fora, era quase como o exército. É um ambiente de homens, de testosterona. Na história, vemos que as mulheres surgiam como vocalista de adorno ou num género muito específico, que era a folk. Não havia mulheres no rock a sério. E as histórias [com mulheres] que se contam são histórias de sexo. Além de não haver groupies masculinos, as mulheres do rock, como a Janis Joplin, aparecem nos filmes e nos livros em histórias de rebaixamento. O filme do Oliver Stone põe a Nico no elevador com o Jim Morrison, o que é que sai dali? A biografia do Leonard Cohen no elevador do Chelsea Hotel com a Janis Joplin, o que é que sai dali? Era para isso que serviam a Janis Joplin, a Nico?

É preciso esperar muitos anos, até ao punk, para as mulheres começarem a ganhar algum respeito. Saiu agora uma [revista francesa] “Rock & Folk” dedicada às mulheres do rock, e eu olho para ali e vejo logo duas falhas terríveis: uma é a Joni Mitchell, que contrariamente ao que as pessoas pensam não era só uma cantora folk. Foi das coisas mais importantes que aconteceram no pop-rock anglo-saxónico e não está lá. Está lá a Joan Baez… Mas não está a [Mama Cass, dos] Mamas and the Papas. Nem a Kim Gordon, dos Sonic Youth. Independentemente do livro horrível que ela fez, de lavagem de roupa suja [“Girl in the Band”], o disco que editou agora [“No Home Record”, 2019] é o disco mais interessante de todos os ex-Sonic Youth! O mais experimental, o mais esquisito. Podem falar do Thurston Moore... o disco dele, ao lado do da Kim Gordon, está mil léguas atrás. Só há muito pouco tempo é que as mulheres começaram a ser referenciadas no pop-rock, mas ainda com algum paternalismo. As mulheres nunca são postas em postos de igualdade. Aliás, continuam a fazer-se revistas a dizer: mulheres no rock! É um absurdo! (risos)

Sente que existe algum grande mal-entendido a seu respeito?
Habituei-me desde adolescente a não me deter muito na imagem externa sobre mim. Na altura , na cidade conservadora que era Braga, tinha uma imagem muito sui generis: de cabelos compridos, loiro... Tinha passado há pouco tempo aquele filme do “Jesus Cristo Superstar”, que também era loiro de cabelos compridos e tinha uma barbicha aloirada, como eu. Por isso associavam-me facilmente ao Jesus Cristo Superstar.

Mas pintava o cabelo?
Não, eu era loiro! Depois havia a ideia de que os gajos do MRPP, da extrema-esquerda, eram todos cabeludos e friques, quando era o contrário. Tinham por modelo o cabelo curtinho e o operariado; vestiam todos samarras do operário, botas tipo operário, passavam perfeitamente despercebidos pela rua, de maneira que eu passava na rua e tinha reações de violência terríveis. As reações que existem nas redes sociais eram, naquela altura, violências orais contra mim. Aconteceu-me uma vez ou outra oferecerem-me porrada, mas a maior parte das vezes eram só insultos. Ficavam a olhar quando eu passava, mandavam-me trabalhar. Eu aprendi a não ligar. A não ouvir. E ainda hoje me acontece: estou a passar no meio de uma multidão, as pessoas falam e eu não ouço. Quem vai comigo é que me diz: “aquele disse aquilo, aquele disse aqueloutro”. Eu aprendi a ter uma espécie de campânula à minha volta. Para ser sincero, não sei se há algum mal entendido em relação a mim. Já me contaram que, há alguns anos, os jornalistas tinham medo de me vir entrevistar, porque achavam que eu os comia vivos! Eu fiquei espantado quando me contaram. “Vais entrevistá-lo, cuidado!” Mas porquê? (risos) Fico sempre muito admirado quando me contam alguma coisa sobre projeções que eu tenha no imaginário das pessoas, porque a mim passam-me completamente ao lado.

“No Fim Era o Frio”, o disco mais recente dos Mão Morta e um dos melhores álbuns de 2019 para a BLITZ, está nas lojas e nos serviços de streaming. A 28 de março, tocam no Theatro Circo, em Braga.