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João Maria Tudella num pormenor da ilustração da capa do número 8 da revista “Álbum da Canção”, de 1959

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101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Kanimambo', João Maria Tudella
(1959)

As histórias de vida parecem não deixar que se fuja ao destino. Esse mesmo destino entrecruza-se como se fosse um acaso – que não é. Nos anos 1920, Reinaldo Ferreira (pai) foi um repórter único, como únicas eram as suas reportagens – que tinham tanto de inverosímil como de originais. Mas foi a sua vida de aventuras (vividas sobretudo apenas nas suas folhas e na sua caneta) que o fizeram personagem mítica. Assinava como Repórter X. Algumas décadas depois, o seu filho (também Reinaldo Ferreira) sentava-se à mesa de um café de Lourenço Marques com outra personagem que haveria de viver mil aventuras – desta feita vividas à séria. O autor de "Mínimo sou / Mas quando ao nada empresto / A minha elementar realidade / o Nada é só o resto" ofereceu a letra de 'Kanimambo' a João Maria Tudella . A letra consistia em pouco mais do que um agradecimento em várias línguas. A música e sobretudo a grande voz de Tudella fariam o resto. O açúcar do ‘obrigado’ em dialeto local, os coros em jeito tropical e a remissão para a pérola do índico fizeram de 'Kanimambo' um sucesso imediato e, 60 anos depois, intemporal. Outra canção na voz de Tudella, 'Moçambique' ("Moçambique/ Que palavra tão bonita / Fique lá onde ela fique / Diga lá quem a disser") revestiriam de mística a colónia portuguesa – numa época de grande êxodo para Angola e Moçambique, ainda que a guerra estivesse à porta.

Os territórios ultramarinos passaram, a partir dos anos 1960, a fazer parte das conversas na metrópole. Ou porque havia consciência política ou apenas por receio de que os seus filhos pudessem ser chamados a defender um território das investidas dos ‘turras’. E Tudella era uma das grandes pontes culturais entre o fado, Coimbra, um país cinzento e o tropicalismo de uma colónia burguesa e quimérica. Ouvir ‘Xicuembo’, ‘Piri-piri’ ou ‘Kanimambo’ acendia o ímpeto de pegar na trouxa e rumar a África; de vestir uma balalaica e não sentir frio 12 meses ao ano; de melhorar a vida, de ser respeitado e subir (um posto que fosse) na hierarquia social; de tomar café na esplanada de calças cremes, óculos escuros e panamá; de comer marisco e fazer menos contas à vida. Lá longe, em Moçambique, ia-se à praia todo o ano e todo o ano havia luz, progresso e fé. Tudo era novo: os edifícios, os carros, a vida, até os musseques.

A norte, na grande cidade da Beira, havia um espião. Chamava-se Jorge Jardim e tinha encontrado em África a sua vocação. Um homem tem de assentar num lugar e a Beira e Jorge Jardim acolheram-se mutuamente. Cedo teve ganância de intervir num país que passou a ser seu e conjurou décadas por uma solução que o servisse. A solução que servia as suas convicções passava por um equilíbrio british-born, à boleia de Malawi, Rodésia do Sul ou Tanzânia: uma solução multi-racial, de pendor africanista e irmandade entre ‘tugas’ e locais. Mas as conspirações, para se materializarem, exigem meios físicos, bélicos e humanos. Tinha tudo isso, Jardim. Faltava apenas um elemento na equação: um braço direito, um homem de mão, um capataz de fato completo e lenço na lapela. Faltava um príncipe. Faltava João Maria Tudella.

Nas veias de Tudella nunca correra água choca e sobrava-lhe em coragem o que não tinha em poder de intervenção. Tudella era um diplomata com trejeitos de dandy, um Sinatra tropical, um africano que procurava um meio de servir o seu país. Agente secreto, pois então, servia-lhe como uma luva de pelica. Nem uma década durou o seu vice-reinado, o suficiente para se sentir cheio, vivo, ator principal de muitas histórias. Ganhava uma fortuna para percorrer o mundo em encontros secretos, em raptos, em conspirações. Ganhava uma fortuna a fazer aquilo para que tinha nascido ou que a sua genética o ditava: copos de cristal com champanhe à descrição; bancos de couro de carros caros ou de chesterfields de lobby de hotel; falar baixo e forçar uma gargalhada elegante; perceber códigos e mensagens; amar mulheres deslumbrantes; olhar, na beira de piscinas panorâmicas, o futuro da África colonial depositado nas mãos de um homem que tinha tanto de carismático como de interventivo: Jorge Jardim. Sentiam-se ambos preparados para o que pudesse acontecer – ainda mais se aquilo que pudesse acontecer tivesse sido detalhadamente planeado por Jardim.

Mas o 25 de Abril apanhou-os desprevenidos e trocariam o posfácio de um livro que tudo tinha para ter sido escrito de outra maneira. De nada valeram a Tudella, na prisão de Caxias, o brevet de aviação ligeira ou os saltos de paraquedas. As medalhas de intervenção a favor da pátria nunca foram concedidas: foi mais um dos bodes expiatórios no calor do PREC. Serviram os 5 dias em Caxias para ostentar, isso sim, uma medalha de perseguido do novo regime.

Mas a vida de cantigas, a aristocracia de modos, a elegância de trato, o cultivo de amizades antigas e novas, a fibra de um homem felino, com muitas vidas vividas e por viver, teria de ter serventia. Fez-se empresário do espetáculo – que quem nasce direito tarde ou nunca se entorta. O dinheiro ganho nos tempos dos Rolls Royce e das conspirações no quartel de Jardim na Beira já voara – sem arrependimentos. Para mais, era tempo de assentar. Com os 60 anos à porta e com o primeiro casamento e filho a nascer, buscou os seus atributos para os transformar em cash-flow para pagar sobrevivência. Nem sempre conseguiu. Mas sempre conseguiu manter a sua educação, os seus valores e nunca se prendeu a um passado. Era um homem do seu tempo, dos muitos tempos que vivera. Vivera muitas vidas numa só e estava grato por isso. No quarto ato da sua história, o último (que em quase nada deveu aos anteriores), esforçou-se para cultivar as infindas amizades que fizera. Os objetivos de vida, antes agigantados (do tamanho de um continente), passaram a ser os mais simples: ser um bom marido, tratar bem a mulher e deixar bons valores aos filhos.

'Kanimambo', esse, ainda é banda sonora oficial da África portuguesa. João Maria Tudella aparentava não ter saudades desse tempo, mesmo tendo a convicção da sua importância nessa época de transição. Ele, que se comovia com coisas simples, talvez fosse indiferente quando, na rádio ou na TV, ouvia os primeiros acordes de 'Kanimambo': os coros saídos de uma terra vermelha, os batuques, a cadência dos ritmos africanos, e a sua voz possante a uivar ‘Kanimambo-óóóóóóó’. O seu tempo já não era aquele. Mas dizia 'kanimambo' a tudo o que tinha vivido.

O feitiço me faz tão feliz
E me obriga a que eu diga
Kanimambo, como o negro diz

Ouvir também: 'Moçambique' (1959)

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