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ARQ. A CAPITAL/IP

101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

'Recordar É Viver', Victor Espadinha
(1978)

Que cómodo é quando se tem um só talento. Um talento marcado. Em que todos os outros talentozinhos que todos temos se diluam naquele que mais se destaca. Se a um talento definido se juntar a serenidade de se firmar num lugar só, pouco é preciso para assentar felicidade. Victor Espadinha é a discrepância deste ser humano de mono-talentos. Nasceu pluri-talentoso. Transporta a predestinação na genética, nos gestos e na voz. A sua paixão é a representação, diz ele; e não será de acreditar piamente. A sua paixão é, tem sido, estar onde não está. É um ser inquieto. Faz quase tudo bem, exceto ser quem é, às vezes inimigo de si próprio, do seu próprio desconforto. Assim o provou na vida de cantigas, de palcos, de televisão, de rádio, de dança. O encanto que provocou em mulheres e homens sobrepôs-se, contas de deve e haver, em iras de parceiros, de autoridade. Provocou ciúmes. Forçou ciúmes. Poderia ter sido infindas vidas, infindos Victor Espadinhas. E escolheu ser só um; saberá só ele, porventura, o que poderia ter sido de verdade. A verdade é que as luzes o chamaram. Chamaram-no muitas vezes na vida.

Vasco Morgado era um empresário da noite. Da noite de Lisboa que começava no (seu) teatro Monumental, no qual brilhava uma estrela maior, com quem era casado, Laura Alves. Viviam na Avenida Praia da Vitória, ao lado do Cine 222, a dois passos do grande teatro na Praça do Duque de Saldanha. Parecia ter o seu perímetro delimitado à proximidade do Monumental porque duas ruas atrás ficava a sua discoteca, ‘a’ discoteca, ‘o’ lugar da noite - o ‘Porão da Nau’. Cliente habitual, quando passava por Portugal, era Victor Espadinha, o Porthos do espetáculo. Encontrava-se no ‘Porão’ com a fauna da noite elegante da Lisboa dos anos 60 e 70 e nessas noites só mesmo quando não lhe apetecia é que não encontrava companhia para partilhar lençóis. Sonhava, já não era nenhum garoto, em integrar uma peça do Vasco Morgado, mas este não tinha muitas paixões e consagrava atenção a figuras escolhidas a dedo.

Lá conseguiu - graças a artimanhas que meteram uma greve de fome a todos os alimentos com exceção de croquetes - como conseguia tudo o que queria. Conseguiu esgotar salas no Parque Mayer. Conseguiu estar ao microfone do Rádio Clube, na Sampaio e Pina, com o seu mítico 'Europa' – e bater com a porta quando lhe cheirou a harmonia e a estabilidade. A seguir zarpava para lavar pratos em Londres (com o brio de quem sabe ser o preço a pagar pela inquietude). Como conseguiu apresentar um programa na televisão e ditar o bordão "roda o palco" e ainda trazer (exigir) Herman José no último programa – quando o Herman José era figura maldita na RTP de 1957 (perdão, de 1989). Ele mesmo, Victor Espadinha, por essa provocação, não mais lá pôs os pés com um programa seu. Como conseguiu estar em palco durante dois anos no Capitólio a representar um homossexual rodeado de manequins sem roupa – todos enfiados numa piscina. Quê? Isso mesmo, em 1975, desafiado a vir de Londres quando a sua carreira estava no limbo entre o ocaso e a glória. Todos estes ‘conseguiu’ entrecortados por muitas trouxas feitas e zarpanços para Inglaterra – que uma carreira firme em Portugal polvilha-se de silêncios não forçados e contas em atraso.

O pós-piscina-Capitólio apanhou-o a partilhar uma casa larga com o seu parceiro Tozé Brito, génio de bons conceitos e génio de bons conceitos comerciais. Nunca se atrapalhara em realizar cash-flow com o seu talento - na sua voz e na de outros e na de outras ou tudo à mistura. Na intimidade, eram um pastiche um do outro: cada um com a sua mulher inglesa, cada um com um par de crias loiras. E já que o pastiche vem à baila, apresente-se a canção que vem a propósito neste relato

Pegou-se em Joe Dassin e em 'L'été Indien', colou-se à descarada, juntou-se uma letra cliché de um amor perdido, de um homem a sofrer a recordar um amor que perdeu. A recordar o que viveu no seu passado. Uma letra sentimental, triste, com uma história contada vezes sem conta, que comoveu Portugal, que fez vender mais discos que bolachas Belinhas. A voz quente de Espadinha fez um figurão – nas rádios, na Polygram, no seu A&R Tozé Brito (autor da canção), no público, na algibeira do cantor – que não sabia que o era e nunca assumiria que o era. O bordão ‘Recordar É Viver’ perdura até hoje e é uma bandeira kitsch.

Victor Espadinha anda a reinventar-se há 80 anos, todos os anos. Como ator – sério ou parodista, consoante o desafiem para não estar onde está. Quem já não está é o cineteatro Monumental; já não está o ‘Porão da Nau’, que, depois de entregue a Ruy Castelar, já só perdura como uma memória da noite de Lisboa. Já nem sequer está o prédio na Avenida Praia da Vitória onde viveu Laura Alves e Vasco Morgado. Mas ainda lá está o Cine 222. De cada vez que Victor Espadinha passa naquelas ruas – onde viveu de passagem, rir-se-á do seu passado, de si, provocador (até para consigo), como sempre fez – e à pergunta interior "que sonhos tens ainda, Victor?" responderá: todos.

Amei como nunca amei
Fui louco? Não sei; talvez.
Mas por pouco, muito pouco,
Eu voltaria a ser louco
Amar-te-ia outra vez

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