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Paulo de Carvalho no Festival RTP da Canção 1974

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101 canções que marcaram Portugal #6: 'E Depois do Adeus', por Paulo de Carvalho

Uma cantiga premonitória do final de um regime mas que era tão só uma canção de amor. Cruza calças à boca de sino com joelhos tiritantes, cabelo com laca, tatuagens e um baterista que trocou as baquetes apenas pela voz. Esta é a sexta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'E Depois do Adeus', Paulo de Carvalho
(1974)

José Niza licenciou-se em Medicina e foi como médico que foi mobilizado para um dos três cenários da guerra colonial, Angola. Músico já tarimbado, e também poeta tarimbado, escrevia cartas à sua mulher. Cartas de revolta pelo que estava obrigado a fazer, para onde tinha sido obrigado a estar e qual a sua utilidade naquele cenário do norte da maior colónia portuguesa.

José Niza questionava (que a guerra põe à prova a ponderação dos homens) afinal quem era ele próprio, próprio das saudades que sentia de tudo menos de estar ali. Cinco anos mais tarde, algumas daquelas frases iriam preencher o poema de uma das canções mais marcantes da música portuguesa. 'E Depois do Adeus' seria enfim uma canção de saudade – da saudade de José Niza do seu país, a saudade de um amor perdido na canção e a formulação de uma saudade que se poderia sentir de um regime em ruínas. Mas esta terceira saudade só se iria empreender depois dos militares afetos ao MFA terem encomendado a João Paulo Dinis, então aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, a senha que marcaria as movimentações do 25 de Abril.

'E Depois do Adeus' seria uma das duas canções, a par de outra bem menos inocente, 'Grândola, Vila Morena', a inscrever-se na história de um dos dias que mudaram Portugal. Paulo de Carvalho ganhara nesse ano o Festival RTP da Canção com uma performance segura, apesar de as suas pernas tiritarem dentro das calças à boca de sino. Era um produto do festival, mas não só do festival. Em 1971, concorrera com uma canção para ganhar, 'Flor Sem Tempo', mas nesse ano, o ano das melhores canções de sempre de um festival, quedou-se por um segundo lugar, atrás de uma loiríssima Tonicha – com ares de Brigitte Bardot, cândida, menina de olhar sereno mas voz firme.

'Cavalo à Solta' escolheu também mal o ano para se desperdiçar. Paulo de Carvalho passara por lá outras vezes, com outras canções que não seriam para ganhar, e passaria pelo festival outras vezes, ganhando uma delas inserido numa banda, Os Amigos, e outra como compositor, já umas décadas mais tarde, sob disfarce do seu primeiro e último nome, Manuel Costa. Nesse ano de 1993, a adolescente Anabela interpretaria um tema de Paulo de Carvalho, 'A Cidade Até Ser Dia', e ganharia passagem para a Europa. Mas 1974 era o seu ano e foi com ‘E Depois do Adeus’ que Paulo de Carvalho ganhou mais história.

Lá entra o Paulo confiante, cabelo com a laca a moldar a cabeleira desfrisada, jaqueta aprumada, gravata gorda, colarinhos esticados até ao peito, voz segura e meninas em suspiro naquele festival. O nervosismo levou-o a enganar-se na letra (José Niza não era Ary e, por isso, não tinha por costume repetir palavras em dois versos sequentes, como Paulo fez por engano). Mas siga. Que era uma grande canção, composta por José Calvário, e Paulo de Carvalho ia muito bem. Foi muito bem.

Ganhou um carimbo no passaporte para Inglaterra. O baterista do ‘Thilo’s Combo’, o baterista dos ‘Sheiks’, o cantor que era e que agora se firmava não se esgotaria aí. Mas seria aí que inscreveria com tinta permanente, como a das tatuagens que o seu filho Agir usaria décadas mais tarde, a data em que Portugal passou a ser à séria dos portugueses.

Passaria os anos 80 sempre a compor e a cantar cantigas (as ‘cantigas’ terminaram na década de 70; a partir da década seguinte, adotaram o nome de ‘canções’) de géneros tão insuspeitos como o jazz, o fado ou a música africana. Paulo de Carvalho é enfim um grande cantor. Abandonou as baquetes da bateria e desde há muito que toca um instrumento que requer bem mais genialidade do que os bombos e os chimbaus.

Toca voz. Paulo de Carvalho toca voz. E que voz toca. Toca a voz dos negros, de Al Green a Al Jarreau. Passa por vários continentes e bebe matéria em todos eles. Nos anos 80/90, juntou-se a dois dos seus grandes amigos, Fernando Tordo e Carlos Mendes, e juntos recordaram-nos as canções que todos tinham feito para nós. 'Só Nós Três' era uma receita feliz e com glória certa – de um tempo já passado em que se ouvia poesia em forma de canções. De um tempo em que a canção ligeira regia a rádio em onda média. Um tempo glorioso das cantigas, dos poetas e das grandes vozes – todos em sintonia.

Paulo de Carvalho fica para a história como a voz da revolução, mas deveria ficar para a história como um homem que viveu a vida (as vidas; tanta matéria não cabe numa só) que quis e que a soube aproveitar. De um homem feliz e que tudo fez e faz para fazer os outros felizes. Hoje, aos 72 anos, tem 26 – como naquele dia 7 de Março de 1974, em que defendeu a senha que abriria caminho aos homens de Otelo. A Salgueiro Maia. Tem hoje 26 anos na voz e na disposição para fazer de novo. Tudo outra vez, se tiver de ser.

Poderia sentar-se na sua torre de narciso e bastar-se a apreciar um vinho tinto – que tomou a vez, já muito tarde na sua vida, do sumo de laranja. Poderia sentar-se nessa torre de narciso e bastar-se a ver os seus 5 filhos crescer. Mas insiste em crescer também com eles. E a fazer-nos crescer com ele. Velha e cansativa formulação: o que poderia ter sido Paulo de Carvalho lá fora? O seu ‘irmão’ Ivan Lins arruma o assunto e afirma: se o Paulo não tivesse nascido em Portugal, se o Paulo se tivesse aventurado fora de Portugal, não seria o grande português que é.

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer renasci

Ouvir também: 'Olá, Então Como Vais?' (1979). Um diálogo em forma de canção com Tozé Brito acerca de um amor perdido.

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