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Foi um fenómeno, vendeu a sua alma e desapareceu. A história de Duffy, uma estrela 'interrompida'

Ao rebate de 'Mercy', em 2008 Duffy estava no topo do mundo. Campeã de vendas e airplay, a nova Amy Winehouse, como era à época apelidada, era também uma simples rapariga do País de Gales. Depois das revelações chocantes feitas pela cantora no passado fim de semana, recuperamos a história de alguém que já há doze anos dizia: “vendi a minha alma e já não sou anónima”

Marta F. Reis

Nefyn, um lugarejo na costa norte do País de Gales. Duffy tem cerca de 10 anos e está a ver uma cassete de vídeo com um «chart show» inglês. Na gravação aparece um homem «sexy e carismático», leia-se Mick Jagger. A menina que na altura respondia por Aimee Anne Duffy - rebatizou-se com o apelido aos 19 anos - lembra-se de ter pensado para os seus botões que, um dia, aquela «banda obscura» (os Rolling Stones, quem mais?) havia de ser importante.

Estava-se no início da década de 90 e Duffy achava que era uma das primeiras pessoas no mundo a descobrir The Rolling Stones, The Beatles, The Walker Brothers e Sandie Shaw, nomes que o pai tinha imortalizado na cassete quando resolveu gravar uma edição do programa Ready, Steady Go!, transmitida nos anos 60.

Duffy conta que a icónica gravação, uma vez desfeito o equívoco, foi vista até ficar gasta. Foi com ela que ficou com vontade de ser cantora. A loja de música mais próxima era bastante longe de casa e, depois do divórcio dos pais, quando se mudou com a mãe para Pembrokeshire, no sul, o facto de terem passado a ser 10 à mesa atirou a hipótese de começar a frequentar aulas de música para longe das prioridades.

Vir da adolescência até aos dias de hoje num parágrafo não é encurtar muito a curva de tempo. Titular de epítetos como «nova voz soul britânica», «sensação pop», «nova Dusty Springfield, misto de Lulu e Dolly Parton», Duffy garantia o segundo lugar na votação anual da BBC para o Artista a Ouvir em 2008, ao mesmo tempo que era atirada para a malfadada categoria das «Novas Amys» pelo Times, juntamente com Adele e Gabriella Cilmi. Esta é a mesma Duffy que há meia dúzia de anos nunca tinha comprado um disco.


Aos 24 anos, as histórias da menina galesa incluem ter sido expulsa do coro do liceu porque «cantava demasiado bem», ter servido à mesa num restaurante francês, trabalhado num oculista e numa loja de roupa para ganhar os primeiros trocos, e ter sido traída pelo último namorado, já em Londres, um produtor de música mais velho que, revela ironicamente, «a ensinou a acreditar nas pessoas». Ou à fama de gorducha que tem desde pequena.

Demorou quatro anos a moldar. Os últimos quatro. Aos 16 anos já tinha decidido que queria ser cantora, mas foi para a Universidade de Chester tentar um curso em Cultura. Certo dia um professor mostrou-lhe que estava lá a perder tempo. Foi o empurrão que faltava. De dia trabalhava e à noite começou a cantar num bar de jazz e blues em Nefyn. Pouco depois gravava um EP com três músicas em galês, Aimée Duffy (2004).

Rockferry saiu em Março. Os quatro anos de trabalho começaram quando finalmente Jeannette Lee, a manager londrina da editora Rough Trade, lhe abriu as portas para o sonho, três desde que o «padrinho» Bernard Butler, ex-guitarrista dos Suede e produtor de nomes como Libertines, The Cribs e Aimee Mann escreveu com ela o tema-título do primeiro disco e lhe mostrou All Green, Betty Swann, Ann Peebles ou Phil Spector como potenciais inspirações.

«Para ela, vir para Londres era digno de um conto de fadas. É difícil para a cínica indústria da música perceber o quão estava ela afastada do nosso mundo. Mas o resultado é alguém que atua e canta inconscientemente, do fundo do coração; é uma coisa mágica e rara», disse Butler ao Times.

A tremida decisão resultava num sucesso retumbante. Apesar de algumas críticas medianas - a Uncut referiu a falta de personalidade do registo, um «reaproveitamento» dos clássicos da soul em vez de lhes injectar século XXI como fizera Amy Winehouse e o Independent escreveu que o facto de Duffy não ter, aparentemente, «nada de mal» podia ser o seu «calcanhar de Aquiles» - com três milhões de cópias espalhadas pelo mundo, o registo é o mais vendido este ano no Reino Unido e noutros 10 países. Em Portugal já chegou ao segundo lugar.

Depois do tema-título «Rockferry», o segundo single «Mercy» também escalou as tabelas, arrecadando a primeira posição do airplay europeu em Portugal caiu recentemente para o segundo lugar e foi distinguido pelos Prémios Mojo na categoria «Canção do Ano», um momento que não terá passado da primeira apresentação de Duffy às passadeiras vermelhas: está novamente nomeada nas categorias de Melhor Artista Revelação e Melhor Single para os Prémios da revista Q, dia 6 de Outubro.

Duffy em 2008
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Depois de uma história que se conta em poucas linhas, fica a pergunta: como é que ela conseguiu? Visita-se o site oficial da cantora à procura de respostas, de um blogue pessoal, não há nada, mas o lugar na internet chama-se «I am Duffy», o que se a princípio não ajuda, biograficamente vai fazendo algum sentido. Numa entrevista à MTV respondera algo parecido: «Eu sou só uma rapariga do País de Gales».

À menina loirinha, perante a prazenteira escuta dos seus temas e declarações adolescentes, não se ousa perguntar, diretamente, se não estará a vestir a pele de uma Amy Winehouse boazinha.

Para lá do sentimento de dejà vu que a cantora disse à Uncut ser uma «completa coincidência», até porque o álbum de estreia já estaria, alegadamente, gravado antes de Winehouse ter lançado o segundo trabalho - a voz soul com uma pose natural em que se abraça a si própria como quem está à espera de mimos (mas capaz de expor o seu lado mais crescido no fogoso single «Mercy», fogoso o suficiente para alinhar na banda-sonora da adaptação para cinema da série Sexo e a Cidade) - fala sem complexos de tudo o resto.

«Só fiz na vida o que a maioria das adolescentes faz: apaixonei-me, tomei algumas decisões erradas e fui mal tratada por algumas pessoas. Passamos todos pelas mesmas coisas, não nascemos fortes. O que nos torna fortes é aquilo que vivemos», reconheceu recentemente ao jornal inglês The Mirror.

Numa entrevista à BBC, a estrela galesa - é a artista feminina do País de Gales mais cotada nas últimas décadas - permitiu ao jornalista tomar nota da sua histeria ao receber uma caixa de bolos com cobertura por ter entrado directamente para o número 1 norte-americano com Rockferry.

«Normalmente enviam champanhe aos artistas. Eu é mais bolos. O que é que isto diz mim? Que sou doce?», perguntou. Depois, pegou num, deixou-o cair desastradamente no chão «de uma limpeza questionável», apanhou-o e levou-o à boca, continuando enquanto saboreava: «ninguém viu».

«Nunca quis ser famosa», adianta no artigo, «as portas ficam todas abertas. Podes ir onde queres, fazer o que queres e ter tudo. Mas eu não quero nada disso. Não quero ter tudo sem limites. A minha ama costumava dizer: "Quando deixas de desejar coisas, deixas de querer viver". Por isso, quando as portas estão todas abertas, tenho de recuar porque não quero que a minha vida fique cheia de coisas insignificantes».

A menina que em escassos meses saltou das primeiras partes dos Coldplay para um verão intenso pelos festivais europeus, com direito a ser cara da nova campanha publicitária da Nívea no Reino Unido pelo meio, parte este mês em digressão pelos Estados Unidos.

Na estrada, faz questão de dizer que ninguém a trata como «princesa» apesar de ser a única rapariga na equipa. Recusa tratamentos de beleza e prefere arranjar-se sozinha em casa. Acredita que a qualidade ainda é mais importante do que a imagem, porque não pode ser forjada. Se há quem a veja como mais uma, a motivação será suficiente para, passados seis meses, já estar a trabalhar num segundo álbum e afirmar que não tenciona «reinventar-se» de trabalho em trabalho.

«Não estou à espera que as pessoas me venham dizer que sou fabulosa. Não faço isto para ser amada faço porque sou uma apaixonada pela música».

Em julho, Alison Goldfrapp afirmou à imprensa que via em Duffy um mero clone de Amy Winehouse. «Boa, temos a Amy Winehouse, vamos arranjar mais 10 e treiná-las. A Duffy é basicamente isso. Acho que ela tem uma voz magnífica mas está a ser treinada para soar assim», adiantou. Já John Lydon pôs a cantora galesa a chorar na entrega dos Prémios Mojo quando esta o tentou abraçar para uma fotografia. O líder dos Sex Pistols, que mais tarde disse não ter percebido quem era, terá empurrado a cantora com um «Sai daqui, sua cabra. Nunca mais me toques».

Em 2010, Duffy lançou o seu segundo álbum, «Endlessly». Apresentado pelo single 'Well, Well, Well', o disco não teve o mesmo sucesso que a estreia e, a partir de 2011, a galesa praticamente deixou de dar concertos (cancelou vários espetáculos) e de lançar música nova, apesar de em 2012 Albert Hammond - que produzira «Endlessly» - ter anunciado que iria voltar a trabalhar com a cantora.

Em Portugal, Duffy atuou uma vez: no Super Bock Super Rock, em julho de 2009, quando o festival se realizou no Estádio do Restelo, em Lisboa.

Em 2020, numa altura em que os fãs acalentavam a esperança de que voltasse à música, escreveu no Instagram ter sido violada e sequestrada durante vários dias, prometendo desenvolver esta revelação chocante numa entrevista, em breve.

A difícil relação de Duffy com a fama ficou registada numa entrevista com o Daily Telegraph, na qual confessou estar à beira de um “esgotamento nervoso” e sentir-se tentada a tornar-se uma “reclusa. Vendi a minha alma e já não sou anónima”, lamentava em 2008.

Publicado originalmente na revista BLITZ de outubro de 2008, atualizado em fevereiro de 2020 por Lia Pereira à luz das notícias mais recentes