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Duffy

“A minha vida parece uma peça de Shakespeare”. A entrevista de Duffy à BLITZ, há nove anos

A cantora de Gales, conhecida pelo êxito 'Mercy', revelou há poucos dias que foi violada e sequestrada. Em 2011, falava à revista BLITZ sobre o segundo disco e a sua vida. Recuperamos agora a entrevista

“Rockferry” era um disco saudosista. Este novo álbum chama-se “Endlessly”. Qual a importância do tempo na sua música?
Nunca ninguém me perguntou isso, mas é bem visto. A melhor resposta que posso dar a isso é esta: não vivo neste momento. Estou sempre à frente de mim mesma. É como se não tivesse noção de que estou aqui hoje. Estou sempre a sonhar, a pensar no futuro e não tanto neste tempo e espaço.

Diz que quer pôr toda a gente a mexer com as novas canções. Costuma ir a discotecas?
No sábado passado fui a uma corrida de cavalos e depois a uma discoteca. Foi muito bom! Mas a música mudou, é muito mais eletrónica e mais agressiva do que era. Já não é propriamente uma discoteca, é uma rave. Tenho saudades de discotecas. Talvez tenham morrido.

Disse recentemente que pensou em afastar-se da música porque a sua vida se tinha tornado demasiado complicada. De que sente mais falta de quando não era conhecida?
Sinto falta de não ter de me preocupar. Era muito inocente... A minha vida, em certos momentos, parece uma peça de Shakespeare. As obras de Shakespeare eram um enigma e temos de as dissecar para perceber, por exemplo, o que Mercutio [personagem de Romeu e Julieta] tenta dizer. A minha vida estava cheia de enredos e eu sou uma pessoa bastante direta. Acredito que as palavras que dizemos são a única forma de mostrar às pessoas aquilo em que estamos a pensar.

Olhou para Bernard Butler [produtor do primeiro álbum] e Albert Hammond como professores?
Mentores... Sim. O Bernard estava a descobrir-se enquanto produtor quando nos conhecemos. Nunca tinha produzido um disco portanto foi um processo mais inocente. Ele dava-me CDs para ouvir e ofereceu-me um ou dois conselhos que vão ficar para sempre. Era uma espécie de
irmão porreiro. O Albert foi mais como um pai ou um avô. É muito parecido comigo, o que é bastante bizarro. Encontramos bastante conforto na
honestidade. É uma pessoa muito boa.


Como é que o descobriu?
Ele viu-me no Saturday Night Live. É um programa de televisão norte-americano de que eu nunca tinha ouvido falar aqui no Reino Unido, mas
que tem muito sucesso nos Estados Unidos. O Albert sentiu que eu era diferente e isso fê-lo querer pegar no telefone para me ligar. Não fazia
nada há 10 anos, desde que trabalhou com a Diana Ross.


Também é fã do filho e dos Strokes?
Sim, sou. Curiosamente, escrevi «Warwick Avenue» a caminho de um concerto dos Strokes, há alguns anos. Ia a caminho do concerto, saí na
paragem errada do metro e acabei na Warwick Avenue.


Estreou-se no cinema com um papel no filme “Patagonia”...
Foi fantástico fazer parte desse filme. O realizador telefonou-me e escreveu-me uma carta muito amável a dizer que queria muito que eu
desempenhasse aquele papel. Foi um ótimo momento de escape para mim, tornar-me aquela outra pessoa durante três semanas. Não senti
pressão, foi muito fácil.


De todas as coisas que já leu sobre si, qual a deixou mais furiosa e qual a fez rir a bom rir?
Alguém escreveu que eu parecia muito solitária. A minha mãe ligou-me a contar isso e a dizer que ficou muito triste. Eu perguntei-lhe: «mas como é que alguém pode parecer solitário?». Não é uma cor, não é uma pose, não é um penteado... Não percebi o que queriam dizer e fiquei

bastante zangada. É demasiado pessoal! Por outro lado, nos Estados Unidos pensavam que eu era filha do Tom Jones... Achei isso muito
engraçado.


Tem uma flor com o seu nome... Porquê?
Certo dia ligaram-me a dizer que tinham dado o meu nome a uma flor. Foi bastante estranho, admito (risos). Infelizmente não tenho nenhuma no meu jardim, mas sei que algumas pessoas foram comprar e estão muito felizes por ter uma Duffydil [variação do narciso amarelo] no seu jardim (risos). É bastante surreal.


Tal como Adele, chegou a ser comparada a Amy Winehouse...
Para ser sincera, não dei muita importância. Estava tão ocupada com a minha própria vida que não tinha tempo para pensar nisso. São coisas que os media fazem para poder criar movimentos. Neste momento, estou aqui e isso já não acontece. [Mas] quero ouvir novos trabalhos delas para ver de que forma as carreiras delas evoluíram. Estou curiosa e muito orgulhosa por serem ambas artistas britânicas.


Entrevista: Mário Rui Vieira

Publicado originalmente na revista BLITZ de fevereiro de 2011