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Halsey

Tentativa de suicídio, bissexualidade e obsessão. Halsey, a estrela pop que todos ouviram mas poucos sabem quem é

Aos 25 anos, Halsey parece já ter vivido várias vidas. Ao terceiro álbum, “Manic”, continua à procura de um equilíbrio que poderá nunca encontrar. Vimo-la ao vivo em Madrid

Foi com ‘New Americana’, um autoproposto hino de uma nova geração que se esfumaça com “marijuana legal” e foi criada ao som de Notorious B.I.G. e Nirvana, que Halsey se deu a conhecer, em 2015. Desde então, a artista de Nova Jérsia, hoje com 25 anos, seguiu um percurso errático até conquistar o sucesso mundial. Apesar de ser um dos nomes de topo da nova pop norte-americana, Ashley Nicolette Frangipane é daquelas artistas que muitos de nós já escutámos na rádio ou nas plataformas de streaming mas que poucos reconheceríamos se passasse por nós na rua. Sem querer fechar-se numa caixa, assinando com a mesma convicção uma canção pronta para a pista de dança ou uma balada country, a artista muda constantemente de visual, trocando as voltas a uma base de fãs devota. Com todos os prós e contras que essa postura enigmática acarreta, assume-se como a estrela mais difícil de catalogar da primeira liga da pop.

Diz-se influenciada por artistas tão díspares quanto Panic! At the Disco, Taylor Swift, Marilyn Manson (tem até uma tatuagem em sua homenagem), Bright Eyes, Kanye West, Beck ou Amy Winehouse e já por várias vezes recusou o rótulo de artista pop. O sucesso bateu-lhe à porta depois de uma adolescência complicada, período durante o qual tentou suicidar-se, lhe foi diagnosticada bipolaridade (condição que herdou da progenitora) e foi expulsa de casa devido à sua rebeldia. Virou-se para a poesia e a escrita de canções e, tal como muitos artistas da sua geração, começou a partilhar os seus trabalhos na plataforma de blogs Tumblr e no site de vídeos YouTube, eventualmente chamando à atenção da editora Astralwerks com a canção ‘Ghost’, escrita sobre um ex-namorado toxicodependente.

A oportunidade surgiu do dia para a noite e Halsey não teve pruridos em dizer, numa entrevista à revista Rolling Stone, que foi como se 19 anos da sua vida não interessassem: “podiam nem ter acontecido, como se fossem um estranho período de incubação”. Ashley ficou para trás e surgiu Halsey, um anagrama do nome de batismo. “Ainda bem que sou uma cabra doida, porque não sei se teria conseguido lidar com isto se não fosse”, defende, na mesma entrevista, sem meias palavras. A rebeldia que lhe corre nas veias é transportada para o palco, zero pudores, como a BLITZ já teve a oportunidade de assistir num concerto de mais de duas horas em Londres e, recentemente, em Madrid, naquela que foi a primeira noite da digressão de promoção ao terceiro e mais recente álbum, “Manic”.

Depois de “Badlands”, o disco de estreia, a ter tirado do anonimato em 2015, muito devido aos bem-sucedidos singles ‘New Americana’, ‘Colors’ e ‘Castle’, a artista começou a transformar o passado conturbado em mensagens positivas, juntando a sua voz ao combate ao suicídio, à causa feminista ou à comunidade LGBT+ (apesar de só lhe serem conhecidos namorados, a artista assumiu ser bissexual quer em canções – particularmente no dueto ‘Strangers’ com a cantora das Fifth Harmony Lauren Jaurengui – quer em entrevistas). “O mais engraçado é que a maior batalha que tive de travar na minha carreira não foi causada pelo facto de ser bissexual, de ser mestiça [o pai é negro, a mãe branca] ou de ser bipolar. Foi por toda a gente pensar que eu estava a explorar essas coisas”.

Quando, em 2017, “Hopeless Fountain Kingdom”, o seu segundo longa-duração, entrou diretamente para o primeiro lugar do top de vendas norte-americano, a promessa passou a certeza. No entanto, nenhum dos singles retirados do disco alcançariam o sucesso que, um ano antes, a sua colaboração com a dupla Chainsmokers, ‘Closer’, atingira, a nível mundial. ‘Bad at Love’, ‘Now or Never’ e ‘Alone’ ajudaram a mantê-la nas bocas do mundo mas faltava ainda um pouco para conquistar um êxito em nome próprio. Só no final do ano seguinte, com aquele que viria a revelar-se o cartão-de-visita de “Manic”, triunfou sem ajudas: ‘Without Me’ é a canção que lhe deu o verdadeiro empurrão para o estrelato e um dos sucessos mais badalados de 2019.

O álbum que acaba de editar é provavelmente o mais pessoal e sem filtros que produziu até ao momento, tendo sido escrito durante um episódio maníaco. “Muito deste álbum é sobre as minhas experiências obsessivas versus a perceção pública daquilo que é a obsessão”, explicou a artista em entrevista à rádio Beats 1, “nos media, aquilo que é apresentado como maníaco é uma mentalidade autodestrutiva, insegura, irresponsável, apavorada. Era o que eu pensava também, mas sentei-me a fazer uma espécie de inventário de todas as coisas que sou quando tenho um episódio: sou amorosa, sou apaixonada, aberta a quem quiser entrar na minha vida e fazer parte dela. Posso ser um bocado irresponsável e impulsiva, mas, principalmente, a cada minuto do meu dia deixo-me guiar pelas emoções e não pela lógica”.

Halsey em 2020

Halsey em 2020

Arrancando com um tema intitulado ‘Ashley’, “Manic” é uma espécie de montanha-russa de emoções e géneros musicais. Apesar de a produção de Benny Blanco ajudar a uma maior coesão, quando comparando com os registos anteriores, o disco vai gravitando sem grande rumo na direção de abordagens pop mais negras (casos de ‘Graveyard’ ou ‘Killing Boys’), baldadas confessionais (‘Clementine’ ou ‘Finally // Beautiful Stranger’) e momentos mais ritmados (‘Still Learning’ e a aventura country ‘You Should Be Sad’). “É hip-hop, é rock, é country, é literalmente tudo aquilo que eu quis fazer; não havia nenhuma razão para não o conseguir fazer”, explicou à Rolling Stone. Aquilo que se ouve em disco é, igualmente, o que se vê em palco: uma artista que ainda não encontrou o equilíbrio perfeito entre tudo aquilo que é, que quer e que gosta de fazer.

No palco minimalista que estreou no WiZink Center, de Madrid, Halsey deixou a olho nu todas as suas facetas e as cores que tem vindo a usar para pintar um percurso ziguezagueante. Insegura, talvez por estar a mostrar pela primeira vez um álbum tão íntimo, a artista saltitou entre o passado e o presente com menos garra do que na atuação a que assistimos em Londres. Entre os tradicionais elogios à plateia e juras de amor eterno, voltou a ‘Castle’, rebolou com chapéu de cowgirl em ‘You Should Be Sad’, gritou a plenos pulmões ‘I Hate Everybody’ e guardou ‘Without Me’ bem para o finzinho. Mais calculista em palco, e provavelmente na vida, Halsey parece andar ainda em busca de um pico onde se possa manter.