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101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Canção do Beijinho', Herman José
(1980)

O destino troca os sonhos da gente. Para outros, quaisquer que fossem as voltas que a existência desse, traçariam o caminho quase da mesma forma como o fizeram. Herman José nasceu para ser maior. Se tivesse nascido na Alemanha, nos EUA ou no Burundi, e aí ficado, seria sempre maior. Ajudou a sua fascinação por universos tão próximos como a música, o cinema, o teatro e a rádio. Estava determinado que aquele ator de 5 anos de filmes amadores do pai começaria ali a grande aventura que iria partilhar com Portugal. Aproveitava as horas sem nada que o entretivesse (em tudo ajudou a Portugal ser filho único) para enfiar a cabeça no gira-discos para a voz sair mais densa e fazer entrevistas a personagens imaginários ou a si próprio.

Herman passou assim a ser o Jorge Alves, o Marques Vidal, o Artur Agostinho, o Fernando Pessa – de si mesmo. Mas também as irmãs Meireles e todos os Parodiantes de Lisboa. Foi essa a sua tarimba. O seu estágio durou 15 anos, em sua casa. Quando chegou aos palcos, ainda atordoado sobre que arte seguir (e servir), estas artes tinham todavia nuances que não se aprendem na solidão de um quarto. Porventura sem o antecipar, Herman sulcou o seu caminho com base na comunicação. Há 40 anos, Herman alumiou caminho na comunicação – como alumiaria nas décadas seguintes. Que sim, o talento é o maior seguro de uma carreira – mas portentosas carreiras se esfumaram por défice de comunicação. E Herman, como até hoje, aliou o seu talento a uma eficaz matriz de a comunicar.

O Herman não tem só talento, tem um talento gigantesco. Ainda assim, não teve, ninguém o teria, tempo para ser maior em todas as artes a que se disporia entregar e é maior em uma só, no humor – sendo há décadas um cliché dizê-lo. Em 1980, Herman trazia já tarimba de palcos de província, estradas secundárias sinuosas e esburacadas, furgonetas desconfortáveis, aparelhagens toscas e povo de bem consigo e indiferente para com o mundo que não vira. Trazia já tarimba de um Portugal muito maior do que é hoje – porque os metros se faziam quilómetros e o interior do país povoava-se de campo, indústria, festas com arquinhos floridos e disposição para dar ao pé.

De pouco dizia a esse Portugal o rock emergente ou a música de intervenção. E Herman, moldado por um colégio elitista, pelo domínio de uma língua de elite, por quintas de elite na Praia das Maçãs de colegas a perder de vista, foi sempre, enfim, um homem do povo. Que nunca aprendera a sê-lo mas que o fez sempre em maior do que todos. E o povo queria pão e vinho sobre a mesa, festa e afetos. Queria o verde vinho, queria o saca-Rolhas, queria Mário Gil a cantar os caminhos do seu Portugal. Acatou com alegria, por isso, a 'Canção do Beijinho' – uma canção descomplicada e cândida – como eram quase todas em que assentava o grande talento de Carlos Paião. A canção espevitou-se no tempo e ainda hoje se cantarola nos meios mais óbvios – mas também noutros mais insuspeitos.

Herman estava, em 1980, em vésperas de arrancar para a sua fase mais gloriosa, a fase da afirmação – ainda que tivesse menos de 30 anos. Ensaiaria na rádio as suas personagens mais famosas daí a pouco – na "Flor do Éter" – e preparava-se para a apoteose que foi "O Tal Canal", um humor nunca visto, tal como em 1969 Inglaterra não estava à espera dos Monty Python. Mas teria ainda de tirar senha e aguardar a sua vez – que "Sabadabadu" era uma aposta segura e entrar com Tony Silva antes do Agostinho e Agostinha seria uma analepse televisiva. Que a televisão, como as outras artes, têm de existir no seu tempo – ainda que perdurem ou não para além do seu tempo.

Portugal não estava à espera mas estava preparado – que a humanidade está sempre preparada para génios e nenhum génio, convenhamos, viveu antes do seu tempo. Herman sabia que era capaz de ser maior e sabia que "O Tal Canal" era ele próprio, Herman, em formato televisão. Tudo aquilo para que andara a preparar-se. Esse é, seria, o Herman que todos conhecemos. O Herman por que ansiávamos no final do Natal dos Hospitais. O Herman que imitava os nossos trejeitos com o carinho de quem é nosso e que por isso não levamos a mal. Do Herman que cantava a 'Canção do Beijinho' e que nos estendia os dedos e que nos olhava de igual para igual. Do Herman que soube enquadrar Portugal com uma lente invertida, como que a preocupar-se com os pequenos planos. A preocupar-se apenas com as cenas cortadas de um filme que já sabíamos de cor.

Se pudesse escolher uma arte maior que não a do humor? Talvez a canção, como Jerry Lewis, que trocaria todo o talento que tinha por uma voz melódica, como a de Sinatra. Herman tinha e tem bem mais do que Jerry Lewis e tem ainda uma voz melódica e por isso, aos 65 anos, continua de microfone empunhado a reinventar-se a cada ano, a levar o melhor de si a todos os públicos que o retiveram ao longo de décadas.

A 'Canção do Beijinho' continua hoje a fazer parte do alinhamento dos shows de Herman. Herman tornou-se mais elegante mas não menos povo. Passou várias vezes de moda e todos quisemos, aqui e acolá, deixar de o admirar. Mas o cliché de que é maior não serve apenas para ser um fenómeno kitsch atual. É o Herman, um homem do seu tempo, do tempo que passou, do tempo por que passou e do nosso tempo.

Se seria maior fora de Portugal? Se fosse maior fora de Portugal, o que seria de Portugal? Um país muito mais pobre e sem saber tão bem como rir-se de si próprio.

Analfabruta, pestilenta, hipocondríaca,
Avarenta, bexigosa,
Vou comprar um dicionário
Que só tenha nomes feios
Para eu te chamar todos
Até teres o ouvido cheio

Ouvir também: 'Podia Acabar o Mundo' (1994). Letra de Rosa Lobato Faria, sua sucessora de Carlos Paião. Herman convidou Rosa Lobato Faria para o seu ‘Parabéns’ e cantou-lhe esta canção ajoelhado e de mão dada. Uma surpresa para a autora – que até aí nunca ouvira a sua letra musicada.

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