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Lena d'Água

101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Demagogia', Lena d’Água
(1982)

Teria Helena 8 anos quando o seu pai, um dos maiores jogadores de sempre do Benfica, rumou a Viena para jogar a sua última época enquanto profissional. José Águas partiu com a família a contragosto para a capital austríaca – ele que nunca jogara futebol por puro prazer e que se equipava como um operário veste o fato-macaco. Jogar futebol era uma missão. O S.L.B. já tinha encontrado sucessor (Eusébio) para a elegância de José Águas e este aceitou uma última missão, curta, no frio desta cidade que o fazia, todos os dias, querer regressar às avenidas com os nomes de países sul americanos junto ao estádio do seu Benfica.

Lena era já tele-fotogénica aos 2 anos, quando surgiu na capa do Benfica Ilustrado, de casaquinho vermelho, a solo, como surgiriam depois grandes craques desse Benfica que passou nessa década a eternizar-se como glorioso. Ensaiava já o que iria ser anos depois, anos a fio: magnética, um furacão, a vedeta mais bela de toda a década de 1980. Teria muitos amores, amaria e seria amada mil vezes, mas haveria de ser um amor maior que criaria a Lena d’Água, já não a Helena Águas dos Beatnicks.

Luís Pedro Fonseca, fundador dos Salada de Frutas, fora despedido com Lena da sua própria banda – em consonância com o amor que os unia. Porque a banda era a Lena. Porque a Lena, de longos cabelos frisados, era a única voz que se queria ouvir no 'Olh’ó Robot'. Porque a música era aquilo que se queria ver e não só ouvir. A Lena era a única figura para quem se queria olhar. Porque a Lena roubaria a atenção de quem quer que fosse, involuntariamente – que é o que define o magnetismo.

Luís Pedro apressou-se a registar o ultraje que sofreram dos outros membros dos Salada de Frutas em 'Vígaro Cá, Vígaro Lá'. E apressou-se a escrever músicas doces para a voz melódica de Lena e para aquele olhar – que a música não se escreve só para a voz. E para aquele corpo. E para aquela elegância. Para aquela dança. Para aquela insinuação.

'Demagogia' ("feita à maneira") é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca (lá está) da saída dos Salada de Frutas, da revolta que provocou em Luís Pedro. 'Demagogia' assentava na voz de Lena d’Água – como poderia assentar uma chula, uma música psicadélica ou uma canção de ninar – e sente-se essa inquietação social na canção do vígaro (expressão que não sobreviveu aos anos 90) e em 'Nuclear, Não, Obrigado'.

O álbum tinha canções soberbas, muito Luís Pedro Fonseca, homem interventivo, alvoroçado e corajoso (prova maior: uma canção intitulada 'Liamba'). Tinha pouco de Lena – se é que um álbum da Lena pode ter pouco da Lena. Este álbum, 'Perto de Ti', que tem a Lena com o cognome & Atlântida não foi um ensaio para o que Lena d’Água iria fazer nos anos seguintes, sem os Atlântida. O que a Lena iria fazer nos anos seguintes foi uma inflexão àquilo que a Lena fizera. O que Lena d’Água fez nos anos seguintes foi a Lena que marcou a canção ligeira dos anos 80, que marcou a música portuguesa para sempre, que marcou Portugal.

Luís Pedro Fonseca escreveu para ela; Pedro Paixão escreveu por ela. Pedro Paixão escreveu por todos nós o que via na Lena - mais que mulher, a alegoria de uma mulher: "Querida Helena, ver-te não é como ver qualquer pessoa, é ver-me pelos teus olhos. Só o silêncio nos poderá agora ajudar. O silêncio preservar-nos-á dentro de nós, no sítio onde nos encontrámos e onde continuaremos juntos, muito quietos, a olhar-nos fixamente nos olhos. Nós não, mas as nossas almas saberão de nós".

Na fase de re-encanto pelo Festival da Canção, no ano de Salvador Sobral, no ano de Portugal, a Lena arriscou, aceitou o desafio de Pedro da Silva Martins (mais um premonitório Pedro) e avançou com um grupo de músicos jovens (de excelente raça) para uma participação que não foi mais do que isso – nem tinha de ser – que ainda é cedo para homenagens, porque há ainda muito caminho para trilhar. Atirou-se para um rejuvenescimento da carreira – porque a voz está imaculada, porque tínhamos saudades de ouvir a Lena na rádio, de a ver, de recebermos dela o seu amor por quem gosta de si e o seu amor pela música – porque o seu princípio é só isso mesmo, descarnado de convenções.

Uns anos antes desse festival, porque há sempre alguém que a define sem ensaio, sem ela pedir, num programa de rádio, "Fala Com Ela" (que sabe gerir as emoções da forma mais perfeita como se devem ouvir as emoções – pela gestão dos silêncios), a Lena d’Água, tendo de escolher uma das canções da sua vida, escolheu Melanie Safka e o ‘seu’ 'Ruby Tuesday'. Inês Meneses resolveu, golpe de acaso, não fechar o microfone, promovendo um dueto improvisado da Lena live com a sua diva em fundo. E porventura terá sido esta uma das únicas vezes em que a Lena d’Água não precisou de ninguém para se definir a si própria. Melanie Safka inspirou-a a definir-se em nome próprio, a embalar-nos: "Yesterday don't matter if it's gone / While the sun is bright or in the darkest night / No one knows, she comes and goes".

P'ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral

Ouvir também: 'No Fundo dos Teus Olhos de Água', originalmente do mesmo álbum, versão Hot Club 2007. Álbum soberbo rejeitado pela rádio (o jazz há muito que não faz planos para regressar às playlists)

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