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Carlos do Carmo

101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Rua da Saudade, n.º 23, R/C, 1975. Ary dos Santos vivia a vida acompanhado, com pavor de solidão. Gostava de pessoas, de artistas, trabalhava para eles, nasceu para trabalhar para eles. Era alma gémea de Natália Correia, de Fernando Tordo, de Vinicius de Moraes, de Carlos do Carmo, de Amália, de Oscar Wilde, de Keats, de Pessoa, de Camões. Vivia-se o período de maior deslumbramento da história coletiva de Portugal. Portugal vivia fechado dentro de si, agora que os sonhos já não se alargavam por África, o Brasil e o mundo. Ainda longe da União Europeia. O que temos então? Temos o lugar onde estamos – que os horizontes não dão para mais.

E na rua da Saudade, n.º 23, R/C, em 1975, estava Ary e os seus devotos. Estes não eram os mesmos de outras noites. Os amigos de Ary iam-se revezando consoante se iam zangando com ele, com as suas canalhices de linguagem, com a sua acidez implacável. Mas iam voltando. Nessa noite, estavam quatro mãos de caneta empunhada, estava uma voz e uma guitarra. E celebrava-se com goles de gin tónico a Lisboa que era agora o limite dos seus sonhos.

Preparava-se já o festival da canção do ano seguinte ('Lisboa Menina e Moça' não seria incluída no rol de oito cantigas) e o cantor, o charmoso, o menino bem do Bairro Alto, que estudara na Suíça e que aprendera o destino do fado na voz da sua mãe, Lucília, e na boémia de Lisboa, tinha sido escolhido para interpretar todas as canções desse festival. Para desta vez sonharmos em obter mais que os já clássicos parcos pontos na Eurovisão e os já clássicos pontos da Espanha (maldita em 1974, que concedeu a Paulo de Carvalho o único ponto alcançado; se era para cair, que fosse com estrondo).

Carlos do Carmo ia-se juntando, como sempre fizera e faria, aos melhores. Aos melhores músicos. Aos melhores poetas. Aos melhores que dele gostavam. Nessa noite, estava Paulo de Carvalho. Estava Fernando Tordo. Estava Joaquim Pessoa. Estava Carlos do Carmo deliciado. Estava Ary. Que Lisboa esta – a que amamos? Paulo de Carvalho tinha já composto a música (desta vez a honra não coube a Tordo) e Ary foi por ali fora, como um turbilhão, como sempre. A tapar com as mãos o que escrevia - para provocar, com o resultado final, reações de respeito e veneração. Com os dedos gordos, ia mexendo o gelo do gin tónico.

Joaquim Pessoa ia sugerindo versos, Tordo contribuiu com um dos mais belos da cantiga (cidade a ponto luz bordada), mas a maioria das palavras de Lisboa, menina e moça é de Ary dos Santos. É dele o maior mérito de ter criado o hino de Lisboa. Ary, que haveria de morrer com uma bandeira do PCP na urna, tinha, mesmo em tempos de fascismo, sido rei das cantigas e do seu maior ‘certame’ (uma palavra que teve a sua época, como as calças à boca de sino, a cassata, o pêche melba ou o linguado au meunier...). A partir de 1974, passou a não ter de escrever com amarras, a não ter de assobiar aos inteligentes da censura, a não ter de ter tino na pena quando defendia o prazer sexual da mulher, a não ter de ser um poeta castrado.

A parceria com Fernando Tordo duraria quase o tempo de outra quase gémea, Toquinho e Vinicius: 10 anos. Depois de outros festivais ganhos, depois de escrever revistas à portuguesa, depois de muitos fados, depois de muitas noites embaladas por gin tónico e fumo, depois de muitas deambulações de táxi pela Lisboa deserta, só, depois de ofensas ao desafio de costas voltadas com Natália, depois de muitas cantigas com o seu parceiro (como chamava Vinícius a Toquinho) - haveriam de se zangar. E fez-se o ocaso do maior poeta de canções português. E fez-se outra vida para Tordo, que hoje, tal como Toquinho, continua a orgulhar-se daquele período dionisíaco. Continua a cantar as canções que ainda hoje porventura ninguém fez melhor. Pouco canta o hino de Lisboa, que considera pouco seu, pouco de ambos.

'Lisboa Menina e Moça' remete para uma Lisboa atual; continuará a ser, porventura daqui a 100 anos, o hino da cidade – porque não é datada, porque a Graça, o Bairro Alto, Alfama, as colinas e o Tejo hão-de estar sempre lá. E o fado há-de existir sempre, ainda que este seja um fado-quase-canção. Podem, daqui a 100 anos, não lá estar as varinas, os marinheiros, a tragédia, a melancolia do fado – mas isso só faz de Lisboa, menina e moça mais intemporal, que o fado atual já não se constrói de clichés.

Fica bem a Lisboa, ficará sempre bem a Lisboa o Lisboa, menina e moça. É a nossa Garota de Ipanema. Fica bem cantada por velhos e novos. Fica bem tocada clássica – guitarra e viola, xaile negro, voz pungente e olhos cerrados - e fica bem com arranjos de jazz, outfit avant garde e voz murmurante. É uma canção elegante. Marcante. Forte. Poderosa. E diz tanto a quem tenha crescido nas ruas da Mouraria e tenha vivido uma Lisboa fechada para o mundo como diz tanto a quem tenha acabado de aterrar na Lisboa cosmopolita, salpicada de tuk-tuks, hostels, peúgas enfiadas em Crocs, pronúncia germânica, filas para o 28 e câmaras a tiracolo.

Esta é a Lisboa de todos. É a Lisboa do Ary. Do Paulo. Do Tordo. Do Pessoa. Do Carlos do Carmo. Os papéis invertem-se: eles, que quiseram homenagear a sua cidade, vêem-na agora debruçada numa vénia por terem escrito a sua própria história.

Lisboa no meu amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça amada
Cidade mulher da minha vida

Ouvir também: "No Teu Poema" (1976)
Esta canção ficou em 3.º lugar no Festival RTP da Canção desse ano

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