Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Big Thief

Big Thief: “Gostava que a nossa música fosse um mecanismo de cura”. A entrevista emotiva com Adrianne Lenker antes dos concertos em Portugal

Adrianne Lenker, voz dos Big Thief, em discurso direto e intenso antes do regresso da sua banda a Portugal para concertos em Lisboa e no Porto. “Quando viajo pela Europa fico espantada ao ver culturas tão profundas como a portuguesa ou a italiana”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tal como muitas canções da sua banda, Adrianne Lenker começou esta entrevista - realizada ainda em 2019 - de forma tímida, quase lacónica, para acabar a falar, com toda a intensidade, de um conceito de “paz radical” que fizesse com que cada indivíduo preferisse morrer a matar. Pelo meio, a cantora-compositora e frontwoman dos Big Thief, de regresso a Portugal esta semana, falou sobre o belo ano que o grupo norte-americano teve em 2019, com o lançamento de dois álbuns inspirados. E explicou por que razão não faria sentido respeitar os timings da indústria e adiar a edição do segundo deles, “Two Hands”.

Foram para o Texas gravar o segundo disco que lançaram em 2019, “Two Hands”, cinco meses depois do primeiro, “U.F.O.F”. Já levavam as canções prontas?
Sim, as canções já estavam escritas. Eu vinha de dois anos na estrada com a banda, em digressão. Depois de fazermos o “Capacity” [álbum de 2017], dei por mim a escrever muito e, a certa altura, já tinha umas 50 canções. E decidimos fazer demos de todas. Às tantas tínhamos tantas canções que decidimos fazer dois álbuns, um no estado de Washington, outro no Texas. Quando fomos para o estúdio Sonic Ranch, no Texas, já tínhamos o álbum todo escrito e pensado.

Como decidem que canções gravar?
Tem a ver com o sentimento. A canção tem de me causar aquele sentimento visceral. E tenho de conseguir cantá-la de um sítio muito profundo. Tenho de sentir, a 100%, que consigo cantar uma canção com todo o meu coração. E a letra toda também. É uma coisa intuitiva, de sentimento.

Não pensaram esperar e editar o segundo disco mais tarde?
Falámos sobre essa possibilidade. Mas criativamente não teria funcionado, porque já estávamos a escrever mais canções e queríamos tocá-las ao vivo agora. Se só partíssemos em digressão com o “Two Hands” daqui a um ano, íamos sentir que o álbum já tinha dois anos. Nessa altura provavelmente já teríamos feito outro álbum. Quisemos acompanhar o nosso fluxo criativo normal.

Definem o disco mais recente como o “gémeo terreno” de “U.F.O.F.”. O facto de ser mais direto, quase sem overdubs, estava nos vossos planos desde o começo?
Sim! Quisemos que o “U.F.O.F.” tivesse mais camadas. Nele, quisemos criar uma paisagem, com texturas e cores e um sentimento aberto. Este tinha de ser sangue e vísceras, o cerne daquilo que nós somos. Sem nada a mais, muito seco e nu. Essa foi sempre a nossa intenção.

Uma das canções mais intensas é 'Not'. Como nasceu?
Estávamos em digressão pela Europa, na Escócia, e tivemos uma folga, que aproveitámos para ir ter com um amigo. O James tinha uma guitarra Martin bebé, que eu comecei a tocar. A certa altura meti-me num quarto sozinha e escrevi a canção toda.

A primeira vez que a ouvi, num programa de rádio escutado num telemóvel sem phones, a sua voz pareceu-me a da Lucinda Williams... que cantores a influenciaram?
A Lucinda Williams é incrível, é sem dúvida uma das minhas inspirações. Sinto que os cantores que me inspiraram mais, recentemente, foram pessoas que tive a honra de conhecer. O Matt Davidson e o Luke Temple, que canta e escreve lindamente, [são dois deles]. Eu não faço distinção entre cantor e compositor; penso em tudo como uma só coisa: a voz, a escrita, o tocar... Porque é assim que penso em mim, também. Nunca pensei em mim como cantora, mas sim como alguém que entrega as canções. [Admiro] Leonard Cohen, Joni Mitchell, Neil Young... acho que o Neil Young é um cantor incrível. A Nina Simone também. Todas as pessoas que, ao cantar, dão vida às canções - não necessariamente de forma bonita, mas de forma autêntica e honesta.

Os fãs da banda costumam dizer-lhe o que as vossas canções significam para eles?
Eu já não costumo sair [para falar com os fãs] depois dos concertos; dantes saía sempre, mas deixei de o fazer porque era muito avassalador. Sobretudo depois de tocar, porque sinto que fico muito frágil. Dou tudo o que tenho e depois tenho de ir para outro espaço, descansar e recompor-me. [Atuar] é demasiado intenso para, logo a seguir, conhecer tantas pessoas, olhá-las nos olhos... As pessoas costumam dizer-me que a nossa música significa muito para elas, e isso é maravilhoso, é o que eu mais desejo. Mas há uma diferença entre a música ser importante e eu ser importante. Por vezes, os fãs confundem a arte e o artista. Quando elogiamos uma canção ou lhe atribuímos a capacidade de nos fazer crescer ou de nos curar, não é à pessoa que fez a canção que devemos agradecer. Podemos ir buscar inspiração ou ajuda à música, mas o artista que a faz é só um veículo disso mesmo. Por exemplo, as canções do Leonard Cohen já me ajudaram muito, mas não posso dizer que ele seja a pessoa que me ajudou a curar. Todos nós nos curamos a nós mesmos, na vida, e as canções são veículos de interpretação. É como quando lês um livro: retiras dele o que retiras, graças ao teu processo e à tua viagem, e é incrível que aquele autor o tenha escrito, e é lindo que lhe fiquemos gratos. Mas quando exageram... Como os artistas que têm fãs malucos e obcecados, como os Beatles, que já nem podiam dar concertos ao vivo. Penso que é uma fantasia humana, a obsessão e o idolatrar de certas pessoas, quando elas são apenas humanas. As coisas a que essas pessoas dão vida... tu é que lhes dás vida, em ti. As pessoas não se apercebem que dar demasiada atenção direta a uma pessoa que nem conheces é avassalador para ela.

Talvez essa confusão entre arte e artista seja a causa da reação que por vezes se verifica quando é revelado o comportamento incorreto de um músico, por exemplo, na sua vida pessoal. E os fãs dizem que nunca mais irão aos seus concertos ou que vão desfazer-se dos seus discos...
Cada pessoa retira algo diferente da mesma canção ou da mesma obra de arte; não podes atribuir nada à pessoa que a fez, porque não a conheces. E se os momentos vergonhosos de algumas pessoas, ou os seus falhanços, os seus erros, são revelados publicamente, os de outras mantêm-se em segredo, e tu não sabes. Podes pensar que alguém é um santo [e não é] ou que outra pessoa é culpada de algo e [o que aconteceu] foi ter crescido com a imprensa em cima. Não temos maneira de saber. É muito fácil olhar para as pessoas e fazer julgamentos de valor sobre as suas vidas; nalguns casos, como os de abuso sexual, é muito importante que as coisas venham a público. Mas errar é normal. Por isso é que me parece perigoso pôr as pessoas num pedestal, porque somos todos humanos. Eu cometo erros todos os dias, com certeza que não sei tudo sobre a vida. Às vezes sinto que as coisas que escrevo é que me estão a ensinar, são coisas que ainda tenho de absorver. Escrevo do ponto de vista de um humano com muitas falhas. E acredito que todos somos humanos com falhas, por muito que tentemos fazer o bem. Seria bom que as pessoas usassem a nossa música para se sentirem mais poderosas. Espero que a nossa música possa funcionar como um mecanismo de cura. Que, através da nossa música, as pessoas se possam ficar a conhecer melhor, ou se perdoem, ou encontrem compaixão por si memas e pelas outras. É o que eu espero.

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
1 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
2 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
3 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
4 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
5 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
6 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
7 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
8 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019
9 / 9

Big Thief no NOS Primavera Sound 2019

Rita Carmo

A última canção do disco, 'Cut My Hair', é uma metáfora de liberdade ou libertação?
Gosto dessa interpretação... Para mim, tem a ver com lutar contra a parte da minha personalidade que é autodestrutiva. Que se maltrata a si mesma, que é violenta. Sinto que herdei todas estas coisas dos meus antepassados, ou de absorver a tensão que há no mundo, ou de ter crescido em escolas públicas, sabe Deus de onde vem. Mas parte de mim é muito maternal e carinhosa, muito curiosa e imaginativa... uma criança, constantemente a observar as coisas. E a outra parte tem em si a violência dos pais dos pais dos meus pais. Há sempre muita coisa em jogo e eu sinto... tenho em mim um rapaz e uma rapariga, o espírito do pai e o da mãe... É tudo muito misterioso, porque nós temos esta forma física, mas há bons indicadores de que não somos só isto. O espírito não é mensurável. E quando o espírito deixa o corpo, o corpo passa a ser apenas uma concha [vazia]. Não sabemos de onde vimos ou para onde vamos e há muitas religiões e filosofias que teorizam sobre estas coisas. Estamos completamente envoltos em mistério. Somos tantas coisas.

E haverá uma ligação, também, da nossa personalidade ao sítio de onde vimos? Por exemplo, os portugueses têm fama de ser melancólicos. Mas será que existe uma ligação ao local propriamente dito?
Talvez estejamos ligados à terra, propriamente dita. Sinto que muitos americanos têm um profundo sentimento de deslocamento. Que estão confusos: neste país as pessoas concentram-se muito nos ganhos [privados], não estão ligados à sua cultura ou à terra onde vivem. A história deste país é tão triste... talvez a de outros países também seja, mas tirar a terra aos povos indígenas... Por isso é que há esta loucura com as fronteiras, a imigração e isso tudo. A terra nem é nossa, para começar. Mas quando viajo pela Europa fico espantada ao ver que algumas das culturas são tão profundas: a cultura portuguesa ou a italiana, onde as pessoas têm raízes que as ligam à sua música tradicional, à sua comida tradicional, às suas famílias. Aqui toda a gente é de todo o lado e não há tanto esse sentimento de tradição. Quando era miúda, o que me ensinaram foi: “prepara-te para o futuro, para a faculdade. Pensa na terra, na casa e na família, tenta alcançar o máximo que puderes, enquanto puderes”. É tão estranho: quando somos pequeninos, não nos ensinam a realidade da nossa história, só ouvimos umas histórias muito facciosas e bidimensionais. É tão importante que, nos anos mais sensíveis do nosso crescimento, possamos desenvolver os nossos mecanismos de pensamento crítico e questionamento, e perceber que somos só uma fração do mundo. E que todos vivemos neste planeta e que está tudo interligado. Acredito verdadeiramente que a saúde das pessoas está ligada a tudo. Numa floresta, se as traças e os cogumelos são afetados, as árvores e os animais também o vão ser. Mas, por alguma razão, nós pensamos de outra forma, como se estivéssemos isolados e pudéssemos pensar só em nós, esquecendo-nos dos outros. Mas nós somos só uma partícula de pó, dependemos completamente deste planeta para sobreviver. E ainda assim separamo-nos em pequenos fragmentos, quando sob a superfície temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Só gostava que toda a gente pudesse acordar e celebrar as diferenças uns dos outros, as diferentes culturas, e aprender uns com os outros e ser curioso, e ambicionar à paz radical. Ter quase a mentalidade de: “preferia morrer a matar alguém. Preferia ficar sem casa do que tirar a casa a alguém”. Tentar essa paz radical, encontrar uma forma de amor pelos outros e perceber que somos todos filhos deste planeta, da mãe natureza. Isso parece tão simples, mas sinto que é apenas senso comum. Esquecer as políticas malucas e complicadas e abraçar a tua vida interior, as pessoas à tua volta, as tuas comunidades, e celebrar as diferenças e outras culturas e coisas que não nos sejam familiares. [Gostava que], quando sentíssemos medo, o transformássemos em curiosidade e vontade de crescer.

Os Big Thief atuam no Lisboa ao Vivo, em Lisboa, a 17 de fevereiro, e no Hard Club, no Porto, a 18 de fevereiro